Minhas ideias sobre a servidão digital vêm sendo expressas em conversas com pessoas queridas.

Marcelo (12 de maio de 2025)

Marcelo: Gente… tem aparecido um monte de vídeos com “pessoas” criadas por IA que são praticamente idênticos a pessoas reais. Olha… vai chegar a hora que essas “pessoas” vão interagir com a gente e virar nossos “amigos”. Eu uso o Chatgpt por curiosidade. Já explorei algumas coisas e já inseri meus dados lá. Ele dá várias respostas levando em conta essas informações. Vai chegar a hora que vai parecer alguém de verdade

Você o treina, e ele treina você. O capitalismo do trabalho gratuito agradece.

Marcelo: É verdade!

Vc tem acompanhado como anda isso em termos financeiros? Eu li que o gpt precisa ainda de bilhões de dólares para chegar a um ponto que não sei qual é. Aliás, outra pergunta: chegar até onde? É que há uma desconfiança se esse valor todo chegará. Enfim, há um debate sobre bolha especulativa

Ontem, na praia, eu refletia sobre criatividade. Outro dia li uma matéria na Deutsche Welle sobre como músicas criadas por AI se tornaram as campeãs nos serviços de streaming, tanto em faturamento quanto em volume. Também vi um vídeo sobre a produção de histórias fanfic.

O que pensei: há muitos anos que a criatividade foi transformada em uma “indústria”, publicando slop produzido maquinalmente. A diferença agora é que são máquinas fazendo a produção maquinal, antes demandada de pessoas. Logo, produzem em maior quantidade, muito mais depressa.

E os “consumidores” continuam a dar seu tempo para o capitalismo da atenção.

Marcelo: Mas me lembro da Amazon! Em 2009 eu estava nos eua e discutiam que o valor da Amazon era um absurdo pq os ativos das livrarias reais eram enormes e a Amazon era só um aplicativo

O dinheiro vai chegar — já está chegando. As monarquias do Golfo Pérsico estão investindo pesado na instalação de centros de IA no seu território. Ganho duplo. Por um lado, o consumo gigantesco de energia dos centros garante a demanda pelo petróleo delas. Por outro, tornam-se tão essenciais à economia digital quanto é Taiwan.

Marcelo: Eu li um livro do Érick From , ser e ter. Achei impressionante. Livro de 50 anos. O primeiro capítulo é de uma atualidade assustadora! E diz algo que eu digo há algum tempo. Sem uma “revolução” no sentido da vida, nós vamos acabar como espécie

Há uma bolha? Sim. Como foi a bolha dot-com vinte e cinco anos atrás. Mas o estourar daquela bolha não fez a Internet acabar. Mudou radicalmente a sua estrutura, e a transformou num gigantesco braço do capital.

Não sei o que vai acontecer quando esta bolha estourar. O que eu sei é que as verdadeiras funções da “inteligência” artificial não são as que aparecem nas propagandas.

Marcelo: Como assim?

Desde antes de nascermos que se vende a ilusão de que as máquinas vão tornar a vida mais fácil e libertar as pessoas da necessidade de trabalharem tanto. Pode chamar de robôs, de cérebros eletrônicos, de automação, de IA, do que quiser.

A indústria de tabaco vende a ilusão de que, fumando, você é atraente, contemporâneo, inteligente. Não interessa se são cigarros tradicionais, ou vapes e cigarros eletrônicos. O produto vendido é sempre o mesmo: vício. O objetivo da indústria tabagista é viciar cada vez mais pessoas.

O objetivo da IA para o capital digital é reduzir os custos de trabalho. O que você ganha em troca do seu tempo doado? Produtos virtuais, intangíveis, imateriais — mas que prendem a sua atenção, e fazem você voltar, cada vez mais. O seu tempo se junta ao tempo de milhões de outras pessoas, ao mesmo tempo “aperfeiçoando” a IA e aumentando a capacidade que ela tem de prender a atenção. Não é apenas o vício: é o aumento da capacidade viciante do produto.

Paralelamente a isso, quanto mais você é treinado para aceitar o que a IA “cria”, mais fácil é aceitar o que ela faz em substituição direta a pessoas. E lá vai o capital pagar cada vez menos para cada vez menos gente.

Nós, os proletários, estamos depreciando o único bem que temos, nosso trabalho.

Arthur (20 de maio de 2025)

Mandei para o Arthur um artigo sobre tecnofeudalismo, e recebi em troca estes excelentes comentários:

Arthur: Interessante a quantidade de coisas que se encaixam, mas que não foram citadas nesse artigo. Uma das mais importantes é como algumas das big techs, ou das empresas/serviços comprados por eles, operavam no vermelho por anos, às vezes não tinham sequer expectativa de gerar lucro. Youtube, por exemplo, mesmo hoje não tem como operar sendo lucrativo, tal qual o Xitter.

A merdificação dos serviços é a maior armadilha para outras empresas e negócios que dependem de clientes individuais, pois se tornam completamente dependentes das plataformas para “existirem”. Caso se recusem a colaborar com os algoritmos e, mais importante, com os lucros dos donos, as buscas cuidadosamente evitam encontra-los.

A maior ironia é que os usuários detem grande poder, mas apenas se conseguirem realizar ações como uma massa. Um grande êxodo permanente poderia causar danos graves a qualquer plataforma, uma espiral de abandono. O difícil é esse êxodo acontecer, já que a maior resistência das pessoas para saírem é “quem eu conheço está aqui!”


Há uma dor, um sofrimento, que me acompanha há muito tempo. Mesmo sendo muito familiar, eu a entendia pouco; mas hoje, na conversa com o Arthur, tive alguns insights que me ajudaram a caracterizá-la, a começar a entendê-la.

Com estes insights, eu consegui mesmo dar-lhe um nome. É a dor do conhecimento não compartilhado. De forma muito sumária: eu a sinto quando eu vejo pessoas com problemas para os quais existem soluções, ferramentas, respostas — e eu detenho conhecimento sobre elas, mas não consigo transmiti-lo, geralmente porque a própria pessoa não o aceita.

Verdade, isso tem um tanto da minha síndrome de Dom Quixote. Não tenho dúvida de que, muitas vezes, a minha convicção de que eu tinha a resposta terá estado amparada em achismo e não na realidade.

Mas há algo muito estranho em jogo aqui… algo que somente agora eu comecei a compreender. É um verdadeiro paradoxo.

A primeira parte dele é que muitas pessoas me consideram alguém inteligente, capaz, detentor de muitos conhecimentos.

A segunda parte é que rejeitam estes conhecimentos, quando eu procuro compartilhá-los.

Já escrevi sobre alguns aspectos desta dor, em meu blog; como o desespero que eu sinto quando vejo um amigo querido me pedir orientação sobre que computador comprar, para ao mesmo tempo rechaçar veementemente qualquer advertência que eu lhe faça sobre o mesmíssimo assunto.

Ou o choque de ver pessoas queridas sofrendo com as idiossincracias de softwares e metodologias inteiramente ultrapassados, mas se recusando a sequer tentar conhecer alternativas… ainda que gratuitas… ainda que mais fáceis… ainda que com a ajuda da mesma pessoa que é inteligente, capaz, detentora de muitos conhecimentos.

Porque o que mais dói é ver que estas pessoas queridas, justamente, sofrem.

Ah! Mas aí vem um dos insights poderosos de hoje. Na conversa com o Arthur, ele falava de como as pessoas se submetem, voluntariamente, a situações nas quais são dirigidas pelos “aplicativos” e seus algoritmos.

Voluntariamente. Imediatamente me lembrei do Discurso Sobre a Servidão Voluntária, de Étienne de la Boétie. Escrevendo no século XVI, de la Boétie discutia a maneira como as pessoas — voluntariamente — se submetem a monarcas, a tiranos, a autocratas.

Sua visão era política… mas o seu modelo de entendimento também se aplica a outros campos. Como o campo da vida digital contemporânea.

Ou como o campo do trabalho.

Aí está uma servidão voluntária particularmente insidiosa. Afinal, trazer uma nova maneira de resolver, ou de reduzir, os problemas, esbarra na mesma série de “razões”, profundamente irrazoáveis, que me assombram e me perseguem há tantos anos.

“Sempre fizemos assim.” “É assim que todo mundo faz.” “Todos os meus amigos fazem assim.” “Eu não tenho tempo de aprender algo diferente.” “Eu já estou acostumado a fazer assim.” “Eu não preciso disso tudo.” “Eu estou bem assim.”

Ou a mais dolorosa de todas… “Eu não consigo.”

Servidão voluntária. Jugo voluntário.

Não é coincidência que as mesmíssimas “razões” são usadas em situações bem diversas — por exemplo, no campo dos relacionamentos amorosos tradicionais.

Não é coincidência porque estas “razões” são a manifestação da servidão voluntária… de como nós mesmos, voluntariamente, nos submetemos a jugos que “sempre foram assim” e dos quais “não conseguimos” nos libertar.

Fico imaginando se de la Boétie também sentiu esta dor… a dor de estar vendo algo, escancaradamente claro, e não conseguir mostrar isso a seus amigos e contemporâneos. Penso que muitos outros visionários a sentiram.

Esta dor me acompanha desde criança, quando eu tentava ajudar colegas a entenderem as lições ou fazerem os exercícios. Eu vi a mesma dor na Adelaide, muitas vezes, quando voltava de uma aula para uma turma de setenta alunos, desesperada porque percebia que não estava conseguindo transmitir os conceitos mais elementares a eles.

O melhor que eu conseguia fazer era lhe dizer: você não está dando aula para os setenta, mas para cinco — mesmo que você não saiba quem são eles. São estes cinco que vão aprender… que vão ter o brilho nos olhos, a fagulha que pode criar um incêndio em suas almas.

Nossa dor é querer que os outros 65 vejam, percebam, entendam… especialmente quando são pessoas queridas.

O principal insight de hoje é constatar que, muitas vezes, elas querem permanecer subjugadas. E não cabe a mim decidir, por elas, que não mais o façam. Voluntariamente se submetem, é também voluntariamente que precisam erguer o olhar e fazer a pergunta terrível.

“E se fosse diferente?”


Mais um excelente comentário do Arthur:

Arthur: Boas observações. Isso do “E se fosse diferente” me fez pensar novamente no livro “The Dawn of Everything”. O foco dele é principalmente em descrever organizações sociais e políticas de grupos e civilizações antigas, mas um ponto que eles levantam com certa frequencia é em como, hoje, parece que não somos capazes de conceber qualquer coisa diferente de hierarquias rígidas. “Parece que perdemos a imaginação, ou a capacidade de experimentar e nos adaptarmos ao longo do caminho”

Essa frase encaixa perfeitamente em muitas situações além das socio culturais expostas no livro, até mesmo entre as corriqueiras como você mencionou, de “qual melhor software para fazer X?”

Parte disso podemos dizer que é culpa da fálacia do custo aplicado (sunken cost): “já investi tanto nisto que sair seria um erro”, praticamente uma “barreira de saída” - É nesta hora que precisamos lembrar que, no caso da servidão voluntária a certos aplicativos, serviços e mentiras, o investimento inicial, a “barreira de entrada”, é quase inexistente. Alternativas que sejam melhores a longo prazo quase sempre têm uma barreira de entrada maior e mais difícil de superar, além de raramente contarem com uma comunidade pronta para impor pressão para que você participe.

Chega a um ponto em que muitas pessoas não conseguem, de fato, imaginar novamente “como viver sem isso”, como se a adaptação humana fosse possível em apenas uma direção.