No final do ano passado, decidi remover toda a minha produção intelectual dos aplicativos mantidos pelas grandes empresas de tecnologia. Ao menos por algum tempo, ainda mantenho minhas contas lá, para poder manter contato com amigos. Esta decisão foi fruto de reflexões sobre a Servidão digital.

Mas isso não significa que eu desejo remover minha produção do alcance público. Muito ao contrário: tenho plena convicção de que eu estou devolvendo à sociedade os frutos dos muitos talentos que recebi, graças ao trabalho de muitas mentes e mãos.

Conheci o conceito de jardins digitais há vários meses, e imediatamente me encantei com a ideia. O fato é que eu já tenho muito material em formato compatível com um jardim digital — meu diário, infindáveis notas de trabalho, blog, textos publicados, poemas…

Meu maior problema não estava em criar e escrever, e sim em toda a considerável energia e tempo que eu estava dispendendo procurando organizar os resultados, para apresentá-los a outros. Pior: para um resultado risivelmente minúsculo.

A economia digital contemporânea fundamenta-se na permanente e perene captura da atenção, por meio de conteúdos impermanentes e fugazes.

Percebi que a minha revolta contra a servidão digital também passa pela insatisfação com este modelo de transmissão da informação. Desejo relações duradouras, conversas prolongadas, estudos aprofundados — e o mundo digital procura, ativamente, destruir tudo isso.

Então, eu não quero ter todo o trabalho de destilar a minha produção em um formato que seja acessível a consumidores que eu imagino serem de uma maneira, e que — quando existem — funcionam de maneira muito diversa… e vão ver o que eu produzir por quatro segundos, antes de seguirem adiante nas trilhas infindáveis apresentadas pelos aplicativos.

O jardim digital é uma maneira de apresentar a minha produção da maneira como ela é, e como eu pretendo que continue a ser. Continuarei a escrever da maneira como venho escrevendo, usando as mesmas ferramentas e procedimentos… mas, agora, abrindo o portão deste meu jardim de deleites intelectuais, e convidando outros a me acompanharem neste trajeto — especialmente, sem desviar o meu caminho para atender a visões nebulosas de “pode ser que gostem se eu fizer assim”.

Propositalmente, não criei um sistema de assinatura, ou um meio de enviar notificações sobre publicações aqui em meu jardim. Não vou fazer anúncios ou “impulsionamentos”. Este é um jardim; venha quando quiser, vou ficar feliz em ter a sua companhia aqui. Pise a terra, cheire as flores, colha os frutos, revolva o leito para novas sementes.

Quero olhares e não visualizações, quero sorrisos e não curtidas.

Quero diálogo e não monólogo.

Aqui está o meu depoimento, o meu testemunho.

To bear witness is a form of resistance.

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