Em 1999, eu tinha pouco mais de dez anos de experiência com RPGs, majoritariamente como mestre. Eu havia começado em 1986, com um sistema improvisado — hoje seria chamado homebrew —, inspirado na narrativa de The Lord of the Rings e jogado sobre um mapa da Terra Média, que eu havia desenhado à mão, com hidrocores e lápis-cera, em uma cartolina escolar branca.
Esta primeira tentativa foi um desastre, já que eu basicamente não dei espaço para os jogadores de fato participarem da narrativa: foi um perfeito railroading. Até então, eu e meus amigos havíamos lido um pouco sobre RPGs, nas raras publicações estrangeiras a que tínhamos acesso. Mas, no ano seguinte, meu amigo Adriano me trouxe de presente a caixa de um sistema de RPG completo: justamente o MERP, Middle-Earth Roleplaying, da Iron Crown Enterprises. Logo começamos a jogar e, durante muito tempo, a Terra Média era o ambiente das nossas aventuras, até ceder espaço a outros.
Na década de 1990, Christopher Tolkien começou a publicar mais textos inéditos de seu pai, começando pelos dois volumes do Book of Lost Tales. Era o início de uma série que chegou a doze volumes (mais um índice), The History of Middle-Earth.
Minha imaginação voltou a ser incendiada pela riqueza e profundidade da obra de Tolkien. Nesta época, eu já estava bem ativo no mundo digital; o BBS Cliffhanger havia sido desativado, mas eu frequentava os principais newsgroups de RPGs da Usenet e algumas listas especializadas de e-mail. Uma destas era dedicada ao MERP.
Foi para lá que eu enviei uma proposta para uma história alternativa da Terra Média, com o ponto de divergência durante a passagem da Companhia do Anel por Moria. A missão da Companhia fracassa, e Sauron recupera o Anel Um, vencendo a Guerra do Anel antes mesmo que ela começasse. Dei a esta campanha sombria o nome O Triunfo da Sombra.
A proposta foi bem recebida, e os membros da lista deram sugestões bastante interessantes. Fui fazendo anotações e aperfeiçoando a proposta. Desde o início, meu propósito era resgatar diversas das ideias de Tolkien sobre o destino da Terra Média e dos filhos de Ilúvatar. Ao longo das décadas nas quais escreveu as muitas histórias da Terra Média, Tolkien usou diferentes perspectivas, por vezes mutuamente contraditórias. Assim, nunca pretendi fidelidade ao seu legado, mas sim ser inspirado por ele — nos termos que ele mesmo definiu, é uma subcriação.
Ao longo dos anos seguintes, várias vezes iniciei iterações da campanha, com grupos diferentes de jogadores, e usando sistemas de regras variados: MERP/Rolemaster, GURPS, Burning Wheel, e Hero.
A última vez em que a joguei — O Triunfo da Sombra (2016) — foi também a única vez em que consegui levá-la até o fim. Durou um ano e meio, de meados de 2016 a dezembro de 2017, com um grupo de jogadores experientes e muito afinados. O resultado foi maravilhoso, provavelmente minha melhor experiência em um RPG até hoje.
Voltei a tentar em 2022, com um novo grupo de jogadores experientes e entusiasmados,mais uma vez usando o sistema Hero (6a edição) para as regras, além das plataformas Roll20 (para a ação) e Discord (para a comunicação).
A campanha de 2016 e a de 2022 foram conduzidas online. Agora, em meados de 2026, estou de volta a Curitiba, e investigando a possibilidade de voltar a explorar esta campanha, presencialmente. Penso usar o sistema The One Ring, que namoro há muitos anos… veremos o que acontece.