6. Viagem
// Minha família se despediu cortesmente de Raoul, e a seguir nos abraçamos uma última vez. Ruade estava mais sereno agora, e me ajustei com facilidade sobre a sela. Raoul e eu nos afastamos a passo, parando para um último aceno a minha família. Voltei os olhos para oeste e espicacei Ruade a um trote.
Naquele momento, as palavras de minha mãe eram as que mais me pesavam. Mas as palavras de Blanche e de Gilles haviam cavado sulcos em minha alma, e neles se deitaram como sementes, para germinar e brotar a seu tempo.
O caminho para o qual Gilles orientara meus passos não era o dele. Liça e refrega, armas e glória… brilhos opacos e jactâncias vazias. Gilles e os seus labutavam de sol a sol, ele pouco diferente dos que o serviam. Aos olhos dos que se deleitam com a pompa, a sua era uma existência medíocre, quiçá mesmo destituída de honra e de coragem.
“O homem tem apenas uma morte. Sua morte pode ser pesada como uma montanha, ou leve como uma pena. Nem sempre o homem de coragem morre por sua honra, mas mesmo um covarde pode cumprir o seu dever.” Somente em outra quadra de minha vida eu ouvi estas palavras de um sábio antigo. Mas, mesmo ali, sob os céus nublados da Champagne, eu já as intuía.
Raoul estava alegre, e sua jovialidade logo me contagiou. Apesar das palavras sérias que eu ouvira, ter ido visitar minha família havia erguido meu coração. Trotávamos alegres pela estrada, e não demoramos a chegar de volta a Provins.
Não falei das cautelas de minha mãe, nem a Raoul, e nem a Milon. Raoul despediu-se, para acabar de se preparar para a viagem. Milon foi cuidar de Ruade.
Eu olhava para as torres de Provins, quando o som de um sino solitário feriu o ar da cidade alta, logo acompanhado por outros sinos, na cidade baixa. Lembrei do campanário e do padre de Saint Thibault, e agradeci-lhe mentalmente pela obra de penitência que me atribuíra.
Raoul de Amigny e eu não éramos os únicos cavaleiros seguindo para sul; os cavaleiros de Auvergne, junto aos quais eu havia me batido no torneio, iam pelo mesmo caminho, e assim formávamos um grande grupo. A estrada era bastante trafegada. Encontramos mercadores, peregrinos e, uma vez, um grupo de cavaleiros templários, imponentes em seus hábitos brancos.
Robert, o conde de Auvergne, fez questão de me conhecer pessoalmente. O conde fez-me muita festa, tanto pela minha sagração em cavaleiro quanto pelo meu desempenho no torneio ao lado das armas de Auvergne. Embora aparentasse o dobro da minha idade, o conde era ainda moço, solteiro, e gostava de participar de torneios.
A Champagne e, depois, o Orléanais mostravam ser belas regiões aos meus olhos inexperientes. Raoul ia me mostrando os locais por onde passávamos e identificando seus senhores. Muitos campos já estavam sendo preparados para a semeadura de inverno.
Quando passamos por Sens, paramos na magnífica catedral de Saint Étienne, a sede do Primaz das Gálias. A visão moveu-me. Provins tinha belas igrejas, mas nada que se pudesse comparar à beleza ou ao tamanho da catedral. A rosácea entalhada na fachada, os arcos, as janelas, as estátuas, tudo parecia-me maravilhoso, inspirado pelo amor ao Divino. Fui arrebatado pelo fervor e desejei confessar-me a um dos cônegos. Após a confissão, orei na grande nave da catedral e, sentindo-me purificado, pude seguir caminho.
Naquela noite, Milon perguntou-me, curioso, porque eu me demorara tanto na catedral. Fiquei surpreso, primeiro com a pergunta e depois comigo mesmo. De fato, nunca antes eu demonstrara particular fervor; eu ia à missa, confessava-me e comungava uma vez por ano, e era só. Mas, em Sens, algo tomara conta de meu coração e eu ainda o sentia marcado pela Presença que eu sentira na grande catedral. Não soube o que responder a Milon, mas senti que ali estava uma chave para meu futuro.
Após alguns dias de viagem, entramos no vale do Loire; o solar de Raoul já estava próximo. O Loire era um rio largo, mas tranquilo. Seguimos por sua margem direita por algumas léguas, até uma ponte que Raoul indicou ser a mais conveniente para passarmos à outra margem. Despedimo-nos dos cavaleiros arvérnios, e seguimos para Amigny, meia légua a oeste de Sancerre.
O solar ancestral de Raoul era bem mais imponente que Beauchery, chegando mesmo a ostentar uma pequena torre em pedra. Raoul contara-me no caminho que ele era um dos principais vassalos do conde Étienne de Sancerre, e seu solar o confirmava. Quando chegamos, fomos recebidos por sua esposa, Maura, que deu-me as boas-vindas com muita cortesia. Raoul apresentou-me, citando meus feitos no torneio quase como se fora um trovador.