5. Despedidas
A sexta-feira amanheceu nublada. Milon farejou o vento norte, e disse que havia cheiro de chuva no ar. Ele selou Ruade para mim, acrescentando um farnel que preparara na véspera: algumas rações secas, um odre de água e um odre de vinho. Eu não estava armado, exceto pela misericórdia; mas Milon insistiu que eu levasse minha espada.
— Sim, eu sei que a região é segura. Mas este é um hábito que você tem que adquirir.
Não discuti, e prendi a espada à cinta, sob a minha nova capa artesiana. Montei e fui ao encontro de Raoul, encontrando-o quando montava em um baio, que tinha a cabeça baixa, como desanimado. Raoul notou meu olhar e deu uma risada.
— Não se preocupe, Guibert. Eu sei que Dallou não parece ser grande coisa, mas ele tem uma andadura confortável, sempre firme nas patas, e vai longe sem reclamar. Certamente é mais tranquilo que o seu ruão — acrescentou, com outra risada.
Partimos, estimulando os cavalos a um trote. Circundamos a cidade pelo norte, mantendo as muralhas à nossa destra. Logo que passamos as poucas casas de Saint-Brice, começou uma garoa, que rapidamente passou a uma chuva mansa. Colocamos os cavalos a passo, e seguimos adiante. Tentei manter a cabeça descoberta, mas breve cedi ao desconforto e a cobri com a capa.
Era a primeira vez que eu viajava sob chuva. No porvir que então me esperava, haveria momentos de tempo muito mais inclemente; mas mesmo a chuva leve da Champagne já servia para mostrar um pouco das realidades que os trovadores raramente mencionam.
Fomos conversando pelo caminho. Descobri que Raoul tinha dois anos mais do que eu, e que recebera Amigny pela morte de seu pai, um ano antes. Contou que a maior riqueza de suas terras, no Sancerrois, eram as uvas, e o vinho produzido a partir delas. Ele era boa companhia, com a conversa alegre; tive a certeza de que a temporada em seu solar seria agradável.
Apesar do passo reduzido, a estrada estava firme, e fizemos o percurso em bom tempo. Ruade estava animado, reconhecendo o caminho de volta a casa, e eu tinha um pouco de dificuldade em controlá-lo. Quando chegamos perto de Léchelle, apeei e conduzi Ruade pela mão, Raoul fazendo o mesmo com Dallou.
O som das ferraduras no calçamento do pátio sempre funcionava como um alerta para quem estava no solar, e desta vez não foi diferente. A porta lateral abriu-se e meu irmão apareceu na soleira, a mão direita em sua cintura, segurando o punho de uma adaga. Ele investigava quem chegava, sem se anunciar, pronto a dar o alarma, se necessário. Senti uma ponta de nostalgia, pois esta tarefa era minha, até o dia em que eu aceitei a oferta de Gilles.
Arnaud continuava a nos examinar, sem sair da soleira; percebi que ele não via meu rosto, escondido sob a capa. Decidi brincar com ele, engrossando a voz e falando baixo.
— Muito bom dia, meu senhor. Dois viajantes desejam abrigar-se um pouco da chuva.
— Sejam bem-vindos, meus senhores. — respondeu Arnaud, cortesmente, mas sem afastar a mão da cintura. — Podem prender os cavalos ali debaixo do telheiro, vou pedir que lhes levem água.
— Muito bem falado, meu irmão! — disse com minha voz normal, descobrindo a cabeça.
Arnaud deu um grito de alegria, abrindo um largo sorriso.
— Guibert! Mãe, Guibert está aqui! — gritou para dentro do solar, e correu a me abraçar. Retribuí o abraço com gosto, rindo com ele.
Eu apresentava Arnaud a Raoul, quando minha mãe apareceu à porta, enxugando as mãos e também correndo para mim. Abracei-a, meu rosto em seu ombro. Fiquei surpreso quando senti o calor úmido de suas lágrimas, mas mantive o abraço. Quando ela se afastou um pouco, beijei-lhe o rosto, sentindo o sal.
Apresentei Raoul a ela, e meu companheiro a saudou cortesmente.
— Onde está Blanche? — perguntei.
— Ela está lavando ervilhas. Eu disse a ela que continuasse, que eu voltaria logo. Venha, meu filho, vamos entrar. Messire de Amigny, queira entrar, por favor. Arnaud, por favor cuide dos cavalos. — Seguimos atrás dela.
— Meu filho, desculpe a confusão e a fraca acolhida. O senhor meu marido está no celeiro, aproveitando a chuva para ver se há alguma goteira que possa deixar entrar umidade. Estão todos no campo, em casa ficamos apenas eu, seus irmãos, e Paulette, para preparar o jantar.
— Não se preocupe, minha mãe, passei aqui apenas para me despedir condignamente de minha família. Raoul me convidou, mui gentilmente, a passar com ele o inverno em sua propriedade, no Sancerrois.
— Ah, esta notícia muito me alegra. Messire de Amigny, muito agradeço a sua generosidade!
— Acredite, minha senhora, será um prazer ter a companhia de Guibert. — respondeu Raoul, ajudando minha mãe a descer os dois degraus para a cozinha.
Blanche estava lá, com as mãos ocupadas em uma tina, mas abriu um belo sorriso ao me ver. Fui até ela e dei-lhe um beijo. Minha irmã cumprimentou Raoul cortesmente, e ele lhe pediu, sorrindo, que não interrompesse seu trabalho. Raoul se acomodou, bem à vontade, em um tamborete, próximo à mesa.
Fui em busca de Paulette, para lhe dar um beijo. A velha cozinheira já pouco ouvia, e não havia percebido o burburinho de nossa chegada, mas ficou feliz ao me ver, dando-me um beijo e me abraçando. Minha mãe fez-lhe sinal para que nos servisse, e logo Raoul e eu tínhamos à nossa frente pão de centeio e um caldo, que bem nos aqueceu após a jornada úmida. Quando Arnaud entrou, quis ouvir a narrativa completa da minha participação no torneio. Para minha surpresa, Raoul tomou a palavra, e descreveu meus feitos como se eu fora um novo Yvain.
Notei que minha mãe empalideceu quando Raoul narrou o sucedido no palácio dos condes, mas ela permaneceu em silêncio. Arnaud, por outro lado, deu um grito de alegria, e correu a me abraçar novamente. Blanche continuava seu trabalho, e não fez comentários.
Passado algum tempo, um moço veio trazer um recado de Gilles. Ele avisava que não viria para o jantar, mas pedia que lhe fosse enviado um farnel. Minha mãe serviu pão e caldo ao moço, e pediu-lhe que retornasse, avisando a Gilles que Blanche levaria o jantar. Também lhe pediu que avisasse que eu estava lá, com um companheiro, para me despedir.
A conversa continuou, desta vez com minha mãe pedindo a Raoul que falasse de si. Raoul não se fez de rogado, falando tudo o que eu já ouvira na viagem, e contando como seu bisavô recebera a terra de Amigny no tempo do rei Philippe-Auguste, após a guerra contra os Brabançons.
Quando o jantar ficou pronto, sentamos todos à mesa da cozinha para comer. Blanche pouco falava, mas notei que ela observava Raoul com ar de interesse.
Terminada a refeição, minha mãe pediu a Blanche que a acompanhasse, para preparar o farnel com a comida para Gilles e os trabalhadores. Eu e Raoul ficamos ainda à mesa, conversando com Arnaud. Blanche voltou com três sacolas, e as mulheres arrumaram a comida dentro delas. Minha irmã olhou para mim e pediu que eu a ajudasse, dizendo que assim poderia aproveitar para falar a Gilles. Raoul se ofereceu para também ajudar, mas minha mãe pediu-lhe que ficasse ali, dizendo que Gilles não gostaria de receber um visitante quando se encontrava em plena lida no campo. Raoul acedeu, e disse que ficaria conversando com minha mãe e com Arnaud.
Tomei duas das sacolas e saí com Blanche. A chuva já havia acabado, e felizmente não fora intensa o bastante para empoçar água pelo caminho; a terra estava molhada, mas não lamacenta.
Blanche continuava em silêncio, e eu não resisti a provocá-la.
— Minha irmã, tem assim tão pouco a dizer a seu irmão?
Ela me olhou nos olhos, ainda em silêncio, e respondeu apenas quando voltou o olhar para o caminho.
— Guibert, você e seu amigo já falaram tudo o que lhes aconteceu nos últimos dois dias. Aqui, não aconteceu nada de extraordinário. Justamente porque não há nada de extraordinário, aqui, estamos todos trabalhando, enquanto você participa de folguedos guerreiros.
As palavras dela me feriram como nenhuma arma me ferira no torneio.
— Você acha que eu estou de brincadeira? — perguntei, sentindo a irritação me dominar.
— Nâo, não acho. Você não tem escolha, eu sei. Meu pai o colocou neste caminho. Mas você também não pode querer que todos parem tudo o que estão fazendo só para delirar com as histórias de seus altos feitos de cavalaria, em um dia de trabalho duro.
— Eu não pedi nada disso!
Blanche parou à minha frente, olhando direto para mim.
— Meu irmão, você é uma pessoa generosa e inteligente, mas sempre teve a cabeça nas nuvens. Você não tem a menor ideia de todo o trabalho que acontece à sua volta… o trabalho que coloca a comida à sua frente e que veste o seu corpo.
Tentei interrompê-la, mas ela continuou.
— Estou muito feliz em ver você novamente. Mas olhe em volta!
Havíamos chegado às instalações de armazenagem e limpeza do trigo. Por toda parte, havia pessoas trabalhando. Com o fim da chuva, o trigo estava sendo sovado, a palha sendo separada ao vento, recolhida por algumas crianças. Lembrei que seria reaproveitada como ração para os animais, durante o inverno. Dois homens trabalhavam sobre o celeiro.
Não respondi a Blanche. Enquanto eu contemplava aquela pequena multidão ocupada, eu me dava conta de que eu sabia muito sobre aquelas tarefas; mas nunca havia usado o saber que me fora transmitido, ano após ano, pelos ensinamentos pacientes de tantas pessoas. Senti-me envergonhado, vendo-me como alguém que não soubera honrar confiança que lhe fora depositada.
Minha irmã continuou.
— Você nunca se perguntou por que só às vezes eu ia ver você e Arnaud na liça?
Olhei para ela, confuso.
— Eu achei que você não se interessava, que talvez estivesse brincando…
— Meu irmão, eu sempre queria poder participar da vida de vocês, acompanhar e incentivar você e Arnaud em suas lições. Mas eu tinha que trabalhar, ajudando nossa mãe! Ela me ensinava a fiar, mas às vezes meus dedos inchavam, ainda sem o costume, e ela me dispensava, para dar tempo de eu me recuperar. Ou eu ficava muito tempo sentada, e ela me lembrava de não ficar muito tempo parada na mesma posição, e me mandava tomar um pouco de sol e ar. Era nestes momentos que eu ia ver os exercícios de vocês.
Ela falava de forma neutra, sem paixão. Quanto a mim, minha vergonha apenas aumentava. Agora, eu estava silencioso, e ela continuava a falar.
— Você se lembra de, algum dia na sua vida, ter visto nossa mãe parada ou descansando? Ela está sempre ocupada, porque sempre há trabalho a fazer. Muitas vezes, está fazendo mais de uma coisa ao mesmo tempo. E é isso que eu tenho aprendido com ela. E com meu pai. Ele sabe tudo o que acontece no feudo, e está sempre acompanhando todos os trabalhos. Foi por isso que eu disse a você que aceitasse a oferta dele, e não tentasse assumir a responsabilidade por Cormeron.
Nós havíamos chegado ao celeiro. Blanche pousou sua sacola no chão, e encostou sua mão em meu rosto.
— Meu irmão querido, não se sinta envergonhado. Eu sei que você não fez nada disso por mal, assim que sei que você está sempre pronto para ajudar. Mas eu também sei que você é um sonhador. Este tipo de trabalho e de responsabilidade que eu acabo de falar não é a sua vida, e nunca vai ser. Mas meu pai apontou para você um caminho no qual você vai conseguir brilhar, com todos os seus sonhos. Quando chegar a hora, meu irmão, eu espero que você tenha uma esposa fiel e industriosa, como a nossa mãe.
Blanche deu-me um beijo, e entrou no celeiro, chamando por seu pai. Fiquei ali, aturdido, sem ao menos lembrar de colocar as sacolas no chão. Mais uma vez, as palavras de Blanche haviam me atingido com a força de uma maça d’armas. Minha alma era um turbilhão de emoções: vergonha, ainda; irritação com minha irmã; um anseio por fazer o que fosse correto. E, sobrepondo-se a tudo, a súbita percepção do amor por mim, que a levara a dizer tudo aquilo aos meus ouvidos.
Foi neste momento que ela saiu do celeiro, acompanhada por Gilles e por dois trabalhadores. Meu padrasto pegou um pote embrulhado e uma garrafa, e pediu a Blanche que levasse a comida aos demais. Quando ela e os dois homens se afastaram, com as sacolas, Gilles fez um gesto, me convidando a sentar com ele em um banco encostado à parede. Ele tomou um pouco de vinho antes de falar comigo, os olhos voltados para o campo à nossa frente.
— Estou feliz em ver você, Guibert.
— Eu estou feliz por estar com você, Gilles. — respondi, percebendo naquele momento que eu estava, de fato, feliz em rever o homem que me criara.
Gilles olhou para mim e me estendeu a garrafa. Tomei um gole e a devolvi. Ele a pousou sobre o banco, ao lado do pote, ainda embrulhado. Desta vez ele olhava para mim.
— Não está mais com raiva de mim?
Demorei-me um pouco a responder, tentando pôr em ordem meus pensamentos.
— No caminho de casa para cá, Blanche me disse muitas coisas. Um delas foi a de que você me colocou em um caminho no qual eu conseguirei brilhar.
Gilles voltou a cabeça, novamente olhando para a frente, mas agora eu notava que ele tinha o olhar distante.
— Quando seu pai morreu, o conde Henri confiou você aos meus cuidados. Deu-me sua mãe em casamento, atribuiu-me a responsabilidade por zelar pela sua fazenda.
Gilles parou de falar um momento, e tomou mais um pouco de vinho.
— Você é um homem de fé, tenho certeza que lembra da parábola dos talentos. Eu recebi de meu senhor três talentos, e os fiz frutificar. Sempre honrei e respeitei Marie, minha esposa, e ela me retribuiu com dois belos filhos. Cormeron é hoje uma terra rica, quatro jeiras de montado, duas jeiras de semeadura de linho, duas de semeadura de centeio e duas jeiras de pousio.
Ele me olhou nos olhos antes de continuar.
— Você foi o maior de todos os talentos que eu recebi, e sempre foi o que eu mais quis fazer frutificar. Guibert, parte do que faz um senhor é saber avaliar os homens, ou ao menos a parte deles que Deus permite que outros homens percebam. Eu vejo seu potencial, que eu ajudei a nutrir por estes anos. Você tem o braço forte, o coração firme e a mente rápida. Em nosso mundo, são forças poderosas, para o bem e para o mal.
Gilles calou-se por alguns momentos.
— Quando Blanche nasceu, e depois Arnaud, as minhas responsabilidades aumentaram. Como pai, é meu dever garantir o dote de Blanche e a herança de Arnaud. Agora, eu já posso lhe revelar que Cormeron é o futuro dote de Blanche. Arnaud herdará Léchelle, mais rica do que eu a recebi. Blanche é uma jovem prendada e industriosa, tenho certeza de que saberá administrar bem a fazenda do homem com quem casar.
Gilles voltou a tomar a garrafa em suas mãos, mas não bebeu. Desta vez, ele olhava o chão.
— O dever é imperioso. Mas não quero que você pense que foi apenas dever. Eu amo sua mãe, assim como amo seus irmãos. E sempre amei você, o filho que meu conde me atribuiu e que sua mãe me confiou. Mas eu nunca quis roubar a posição de seu pai, em sua vida e em seu coração.
Eu não conseguia falar. Desci do banco e ajoelhei-me à frente de Gilles, abraçando-o. Meus olhos estavam rasos d’água, e senti as lágrimas dele também. Ele afinal se afastou, beijou-me o alto da cabeça, e me entregou a garrafa de vinho. Peguei a garrafa, segurando sua mão entre as minhas.
— Obrigado, meu pai.
Gilles manteve a mão ali por um momento, mas logo a retirou, para abrir o embrulho do pote de seu jantar. Sentei-me novamente ao seu lado, enquanto ele comia. Ficamos a conversar sobre as tarefas que estavam sendo conduzidas, e sobre os preparativos para o inverno.
Depois de algum tempo, Blanche retornou, com as sacolas agora vazias de comida. Abracei Gilles novamente, para me despedir. Ele me desejou uma boa viagem, e acrescentou um conselho.
— Guibert, Milon é um homem bom e excelente mestre d’armas. Mas ele nunca soube lidar com bens. Foi por isso que eu aceitei, quando ele ofereceu sua quinta de volta, em troca de treinar você e Arnaud. Não confie sua fazenda a ele. Se você mesmo não quiser fazer isso, contrate um ecônomo.
Agradeci, e disse que seguiria seu conselho. Eu já havia notado a tendência que Milon tinha de ir beber o que recebia, e pensei na riqueza que o torneio me proporcionara.
Gilles permaneceu no celeiro, para as tarefas da tarde. Tomei novamente duas das sacolas, e voltei com Blanche para o solar. Blanche estava mais animada, falando sobre a boa colheita naquele ano. De repente, ela atalhou:
— A esta hora, nossa mãe já deve ter acabado de avaliar Raoul.
— Como assim?
— Ora, meu irmão! Meu pai e ela estão avaliando uma série de possíveis maridos para mim. Tenho certeza que está avaliando Raoul também.
— Blanche, você ainda é muito nova!
— Deixe de ser tolo, Guibert. Eu tenho treze anos. Posso até esperar um pouco para casar, mas tenho idade para ser prometida.
Eu não sabia se Gilles havia falado a ela sobre os planos para seu dote, então nada falei. Mas eu havia ficado muito feliz em saber que este era o destino da herdade de meu pai. Cormeron estaria em boas mãos.
Minha irmã estava agora se divertindo às minhas custas.
— Já que agora você é um poderoso cavaleiro, que tal mandar os seus inimigos derrotados virem aqui para me cortejarem? Assim eu posso escolher o melhor para meu marido!
— Quem é que está sonhando demais com as histórias de cavalaria agora?
Seguimos caminho, rindo e brincando. Quando chegamos ao solar, o sol ainda ia alto, mas já descaía para o horizonte. Raoul e Arnaud estavam conversando no pátio, cuidando dos arneses, e acenei para os dois. Deixei Blanche e as sacolas na cozinha e fui em busca de minha mãe.
Encontrei-a em seu quarto, fiando, o peso girando na ponta do fio movido por seus dedos ágeis. Estaquei, lembrando o que Blanche me dissera. Ao pé de sua cama, a arca aberta mostrava uma profusão de fusos, cheios com os fios do trabalho dos últimos meses. Logo seriam entregues às tecelãs, mas minha mãe já estaria ocupada a fiar o próximo lote…
Puxei um tamborete e sentei-me a seu pé, como tantas vezes havia feito. Ela sorriu para mim, sem parar de fiar.
— Meu filho, quero aproveitar para lhe falar.
— Diga, minha mãe.
— Eu estou pensando na oferta que Philippe de França lhe fez, no palácio dos condes. Por que você acha que ele lhe ofereceu apenas quinhentas libras tornesas?
— Ora, ele é um avarento! Toda a gente lá o percebeu.
Minha mãe ficou em silêncio por alguns momentos, antes de continuar.
— Nosso rei Philippe ainda é jovem, e deve reinar por muito tempo. Mas Philippe de França será rei um dia, e é bom que um rei não desperdice dinheiro. Por outro lado, é bom que seus súditos não digam mal dele.
Corei, sentindo ao mesmo tempo a censura e o conselho. Minha mãe prosseguiu.
— Eu tenho certeza que Philippe de França não via razão de pagar mais do que isso por um folguedo, por um capricho de seu irmão. Para um homem como você, participar de um torneio pode ser questão de vida e morte, no mínimo de penúria ou de prosperidade. Mas, para netos e bisnetos de um rei santo, o torneio é apenas uma brincadeira, uma pompa inútil. Mas há mais nesta questão.
— O que mais há?
— Philippe ofendeu seu irmão, publicamente. Primeiro, ao oferecer uma soma reduzida pelo seu resgate. Depois, quando deixou claro que Charles não podia, ou não queria, valorizar mais a sua própria honra.
Minha mãe guardou o fuso cheio na arca e tomou meu braço, me conduzindo para fora de seu quarto e, depois, para o pátio. Mas não nos aproximamod de Arnaud e de Raoul. Caminhamos sob a grande castanheira, um pouco apartada do solar. Somente então minha mãe continuou.
— Não há grandes amores de família na linhagem de Hugo Capeto. Philippe conseguiu fazer um ótimo negócio. Com apenas um gesto, reduziu seu irmão, mostrou que Charles não tem estofo para garantir suas bravatas, e mostrou que ele mesmo pouco se preocupa com as brincadeiras dos grandes. Agora que casou com a nossa condessa Jeanne, ele se torna o nosso conde, e garantiu a transferência de Cormeron sem disputa, atendendo ao pedido de um vassalo respeitado. Tudo isso ao custo de parecer avarento — ao menos aos olhos dos jovens galantes que se divertem em torneios. As pessoas de substância tomam nota — e, como eu disse, sabem que o que parece avareza em um comum é prudência em uma cabeça coroada.
Minha mãe tomou minhas mãos entre as dela, e me olhou nos olhos.
— O que mais me preocupa é que Phlippe de França usou você como joguete em suas manobras.
— Mas, minha mãe, eu fui honrado por ele!
Ela meneou a cabeça, sem tirar os olhos de mim.
— Isso nada lhe custou, e nada lhe deu que você já não tivesse em si. Para Philippe, você não é nada, e provavelmente já nem lembra mais seu nome. Mas você foi o pivô da humilhação de Charles de Valois! Você o venceu em combate, você o arrojou ao pó, e por sua causa ele foi ofendido, publicamente, pelo herdeiro do trono de França. Você ganhou a inimizade de um príncipe poderoso, meu filho!
— Mas eu nada fiz de errado! Nem sabia que era ele quem eu acossava na liça!
— Tenho que repetir, mais uma vez, a lição que tanto lhe ensinei? De que adianta ter razão?
Suas palavras me calaram. Percebi a verdade em suas advertências, e senti uma mão fria a apertar meu coração.
— O que eu devo fazer, minha mãe? Sou apenas um cavaleiro de província, não posso enfrentar um filho do rei.
— Faça o que já está fazendo, meu filho. Fico feliz em que tenha feito amizade com messire de Amigny. Ele parece um bom homem. Indo para o Sancerrois, você se afasta de Paris, e dos olhos de Charles de Valois. Deixe que o tempo abrande a sua ira.
Beijei as mãos de minha mãe e a estreitei em meus braços, mais uma vez. Caminhamos novamente para o pátio, ao encontro de Raoul e de Arnaud. A um pedido de nossa mãe, meu irmão foi em busca de Blanche, para que nos despedíssemos.
Minha família se despediu cortesmente de Raoul, e a seguir nos abraçamos uma última vez. Ruade estava mais sereno agora, e me ajustei com facilidade sobre a sela. Raoul e eu nos afastamos a passo, parando para um último aceno a minha família. Voltei os olhos para oeste e espicacei Ruade a um trote.