4. O peso dos feitos

Voltei a meu pavilhão, mergulhado em pensamentos. Milon havia saído, provavelmente para beber as moedas que eu lhe dera. Ocupei minhas mãos com os cuidados das armas, mantendo a mente livre para refletir.

Eu estava, finalmente, percebendo a enormidade dos sucessos recentes. Eu havia me desligado da terra de meus pais — eu havia celebrado um contrato — eu havia participado de um torneio — eu vencera um príncipe da casa de França — eu fora sagrado cavaleiro por outro príncipe — eu conhecera a minha primeira mulher.

Todos estes feitos alimentavam a mente febril do jovem que, antes, somente de devaneios se nutria. Naqueles momentos ébrios, eu me julgava soberano senhor de meu destino, plenamente justificado em minha decisão de trocar Cormeron pelo que eu conquistaria com a força de meu braço.

Mas tudo isso era temperado por um sucesso em particular, a maior de todas as enormidades: eu havia prestado um juramento! Eu havia jurado, ajoelhado ante a cruz — a cruz formada pela espada de Philippe, futuro rei de França. Não importava que eu estivesse inebrado pelo bom vinho borguinhão, e não importava que eu tivesse sido movido pela irritação com a avareza de um príncipe e a soberba de outro. Eu havia jurado, empenhando a um tempo a minha alma e a minha honra — a minha honra de cavaleiro!

Dei-me conta de que eu tinha justamente a minha espada sobre as minhas pernas, enquanto eu a limpava com um pano. Tomei-a em mãos, com o punho para cima, e dobrei o joelho ante a cruz assim formada, reiterando em silêncio o juramento que havia proferido na véspera.

Quando me ergui, sentia-me leve. Acabara de me suceder outra enormidade, mas só muito mais tarde eu fui me dar conta dela, e de sua natureza. Foi a primeira vez que eu tive um contato direto com o Divino. Não seria a última.

Guardei minha espada, com reverência, e guardei o material de trabalho. Percebi o burburinho da cidade e da feira, que por alguns momentos havia desaparecido. Pensei se sairia ou não, mas o calor me convenceu a sair do pavilhão. Acenei para o vigia, indicando que ninguém ficava no pavilhão, e fui passear pela feira.

Eu havia perdido a missa solene, que coincidira com a abertura da feira. Parei perto da porta de Saint Jean, tentando decidir se entrava na cidade ou se continuava a perambular pelas barracas da feira.

Naquele momento, calhou-me a percepção de uma última enormidade. Ao entregar as terras de meu pai a Gilles de Léchelle, eu havia cortado os laços que, um dia, me tornariam vassalo dos condes de Champagne. Nenhum homem tinha, agora, poder sobre mim; eu estava desenraizado, levando apenas o nome do solar onde nascera.

Eu me vi livre, orgulhoso da força do meu braço. Congratulei-me, mais uma vez, pelo que esta força me granjeara no torneio, certo que cada novo dia me traria igual fortuna.

Acreditando-me livre, eu não sabia então que estava me prendendo a uma pesada cadeia; acreditando-me forte, eu não imaginava encontrar quem me batesse.

Pus-me a passear pela feira. Encontrei alguns dos convivas da véspera, para com eles errar pelas tendas. Terminei por comprar algumas fitas, para galantear uma jovem de belos olhos verdes, sentindo-me um conde. Ao beijar sua mão, e sentir a maciez de sua pele, meu sangue se agitou com a lembrança da noite anterior.

Meus sentimentos me perturbaram. Escusei-me do alegre grupo e voltei a caminhar sozinho, mas já não olhava para as tendas, nem para as pessoas.

Em meio às nuvens turvando minha alma, pensei ouvir um sino. Olhei em volta, surpreso. Vi uma novilha, com um sino em seu pescoço, com que algumas crianças brincavam. Mas o som que me despertara não fora o de um pequeno sino de lata, e sim o rico soar de um grande sino de bronze.

Parei ali por alguns momentos, tentando entender o que sucedera, para logo seguir, resoluto, em direção à porta da cidade, em busca da igreja de Saint Ayoul.


Logo percebi que debalde tentaria encontrar um sacerdote que atendesse a meu espírito, naquele dia, na principal igreja de Provins. Jean de Nanteuil, bispo de Troyes, tinha vindo para celebrar a missa solene e presidir à abertura da feira. Mesmo bem depois do término da missa, a igreja da prioria ainda estava repleta, com muitos basbaques a se maravilhar com as figuras entalhadas no alto pórtico, ou com as imagens ornamentadas no interior da igreja. A praça, em frente, tinha as tendas mais imponentes da feira, e também estava tomada por uma multidão alegre. Mas eu não vi, em parte alguma, o hábito negro dos monges da prioria.

Meu espírito continuava turbado. Percebi que ali não encontraria a paz que buscava, e afastei-me pela rua principal da cidade. Fugindo do alvoroço, meus pés foram me levando para a cidade alta. Passei pelo palácio, mas mal notei o local de minha honraria na véspera.

Encontrei parte da paz que procurava nas ruas estreitas da cidade alta, quase vazias. Os sobrados apertados faziam sombra refrescante. Continuei a subir a rua, descobrindo uma parte de Provins que eu desconhecia. Não sabia aonde ia, mas sentia que encontraria ali meu destino.

A rua se abriu em um largo, e vi à minha direita uma pequena igreja. Na entrada da igreja, estava um padre, sentado a um tamborete, conversando com uma velha senhora que varria o adro. Aproximei-me.

— Senhor padre, senhora, bom dia. — A velha senhora parou de varrer e me contemplou, sem responder ao cumprimento. O padre se ergueu de seu tamborete, com algum esforço; notei que era entrado em anos, e fiz menção de ajudá-lo, mas ele apenas tomou a minha mão, efusivamente.

— Muito bom dia, meu jovem, muito bom dia. O que o traz à casa de nosso Pai, neste dia consagrado à Cruz Gloriosa do Filho? Um mancebo tão guapo certamente encontra muito que fazer na feira! — A um olhar do padre, a senhora voltou a varrer o adro, mas notei que continuou por perto.

— Senhor meu padre, quero me confessar.

O padre me perscrutou os olhos por alguns momentos, logo fazendo sinal que eu o seguisse. Pegou seu tamborete e entramos na igreja. Ao entrar, ajoelhou-se e persignou-se, voltado para o altar, e fiz o mesmo. Levantando-se, tomou novamente o tamborete e o levou para junto da parede direita, voltando a se sentar, e fazendo sinal para que eu me colocasse à sua frente. Ajoelhei-me e o ouvi louvar Nossa Senhora e Saint Thibault, pedindo que ouvissem as minhas palavras.

Abri-me com ele e com os santos que invocara. Falei da oferta de Gilles e de minha ira, das minhas incertezas, dos sucessos no torneio, da atitude dos príncipes e da minha sagração, da minha noite no lupanar, dos meus sentimentos naquela manhã, do que sentira ao galantear a bela jovem de olhos verdes.

A tudo o padre ouviu, aqui e ali apenas me instando a continuar, com uma ou duas palavras. Quando me calei, ele ficou em silêncio por algum tempo, as mãos postas à sua frente.

— Meu filho, a sua confusão e os seus pecados são os próprios da juventude. Você fez bem em vir procurar reconciliação com nosso Pai, mas não pense que você está perdido dEle, nem pense que a sua alma está em perigo mortal.

Ele pousou a mão sobre meu ombro e continuou. — Você não errou em aceitar a oferta de seu padrasto, e você não errou em sua conduta no torneio e na festa. Mesmo em sua conduta noturna, pelo que você contou não houve excessos, e é da natureza do homem procurar os prazeres da carne. O importante é que, assim como você limpa as suas partes íntimas depois dos prazeres, você cuide depois de limpar a sua alma, como está fazendo agora. — Baixei o olhar, aliviado, sentindo-me corar um pouco.

— Onde você errou não foi em nenhuma destas circunstâncias que mencionei. Não vou lhe dizer qual foi este erro, pois sei que você vai entendê-lo melhor do que eu poderia explicar.

Ergui os olhos para ele, novamente confuso. Antes que eu falasse, ele me disse:

— Guibert de Cormeron, está arrependido de seus pecados?

— Sim.

— Como obra de penitência, eu lhe dou duas alternativas. A primeira é passar as têmporas terceiras, em jejum e oração, aqui nesta igreja de Saint Thibault. A celebração das têmporas começará em uma semana. Ou, se assim seu coração desejar, você pode receber uma indulgência parcial, em troca de uma contribuição de uma libra, para as obras da Igreja, e além disso você terá que ir visitar sua família, antes de partir em viagem.

Eu ainda estava confuso, mas não hesitei. A primeira alternativa me faria perder a companhia de Raoul na sua viagem. Além disso, ao aceitar a segunda alternativa, prometendo ao padre ir visitar minha família no dia seguinte, dei-me conta de como eu precisava disso, sem que eu tivesse me apercebido antes que ele o ordenasse.

Recebi a absolvição e a bênção do padre, que a seguir convidou-me a conhecer a pequena igreja. Mostrou-me o relicário com um dedo de Saint Thibault, nascido em Provins, na família dos condes da Champagne, e contou-me a história do santo.

Perguntei ao padre como era o sino da igreja. Ele me mostrou a escada do campanário, e deu-me autorização para subir a escada apertada. Lá no alto, pude ver que o sino era uma bela peça em bronze, e imaginei se fora ele que meu espírito escutara na feira.

Aproveitei a subida para contemplar as vistas, maravilhado. Eu nunca estivera em um lugar tão alto. Vi a Torre César e as muitas outras torres das muralhas, vi o palácio dos condes, as casas apertadas da cidade, a extensão colorida de tendas da feira, e os campos até o horizonte, retalhados em cores vegetais diferentes. O sol ainda ia alto, mas já se inclinava para o ocaso.

Depois de me saciar com a vista, desci e fui ter com o padre, para me despedir. Ele me abençoou mais uma vez, e saí da igreja. Eu estava tranquilo agora.

Chegando a meu pavilhão, encontrei Milon e Raoul. Disse-lhes apenas que havia passeado pela feira e pela cidade, o que os satisfez. Pedi a Milon que aproveitasse a sexta-feira para preparar tudo para a viagem, na manhã do sábado.

Raoul me perguntou o que eu planejava fazer no dia seguinte, e eu lhe respondi que iria visitar minha família, para me despedir. Ele se ofereceu para me fazer companhia, e aceitei feliz; era uma boa oportunidade de conhecê-lo melhor.