3. Provins
Provins tinha sido toda engalanada para a festa da Cruz Gloriosa, para o início da feira e para o torneio. Não entrei na cidade propriamente dita, e assim não vi a decoração da igreja de Saint Ayoul, mas fora dos muros viam-se guirlandas e buquês de rosas por toda parte. As rosas de Provins já eram famosas, pois provinham de plantas trazidas da Terra Santa pelo conde Thibaut, avô do conde Henri o Gordo.
A liça fora demarcada no campo a oeste da cidade, e uma tribuna estava erguida para os convidados de honra. O resto do público assistiria aos embates do alto dos muros, ou junto à própria liça, o que era perigoso; nem sempre os cavalos eram bem controlados pelos participantes do torneio. Uma grande área estava reservada para os pavilhões dos cavaleiros visitantes, e muitos já estavam instalados, em uma profusão de cores e de sons. Alguns se exercitavam, a cavalo ou a pé, enquanto um sem-número de basbaques passeava entre os pavilhões.
A grande feira fria de Provins começaria apenas em dois dias, na festa da Cruz Gloriosa, mas vários burgueses industriosos tinham armado suas tendas e apregoavam a qualidade de seus produtos, em sua maioria alimentos produzidos localmente. O cheiro de frituras se espalhava pelo ar, dando água na boca. Algumas bancas vendiam a famosa geleia de rosas de Provins. Eu mesmo só comera dela uma vez, pois era uma iguaria cara, produzida com o açúcar de Chipre.
A alegria geral era contagiante. Na área para os cavaleiros visitantes, eu notei que poucos dos escudos eram brancos, como o meu; o torneio atraíra muitos cavaleiros mais experimentados.
Milon ergueu meu pavilhão em uma área ainda pouco ocupada do campo e saiu para saber as novidades. Eu fiquei, realizando as perenes tarefas de manutenção das armas e dos arneses. Mais tarde, Milon retornou, cheio de notícias.
― Nada de armas embotadas amanhã; o torneio será à l’outrance! Parece que temos um grupo de cavaleiros de Clermont e um grupo de cavaleiros de Auvergne e os dois grupos exigiram um combate real. Mas não se preocupe, as regras do torneio proíbem golpes com a ponta das armas, golpeie com o lado da espada e tudo estará bem. Em qual dos campos você quer se inscrever?
― Minha mãe disse que sua avó era do Auvergne… então vou lutar ao lado dos arvérnios. Quem os comanda?
― É Robert, o conde de Auvergne.
― Muito bem, Milon, por favor registre meu nome junto ao campo de Auvergne. Quais são os outros nomes de nota no torneio?
― O comandante do campo de Clermont será Robert, conde de Clermont, tio do rei. Philippe de França está em Provins, no palácio dos condes, mas ele não vai participar, vai só assistir ao torneio. Mas o seu irmão, Charles, que acaba de se tornar conde de Valois, vai estar também no campo de Clermont.
― Eu notei que não há muitos cavaleiros com armas em branco…
― Não se preocupe, Guibert. Você é um bom cavaleiro e maneja bem a espada. Mas lembre-se que você não está em busca de glórias, e sim em busca de resgates. Nada de procurar os adversários mais fortes; procure os mais fracos! Derrube alguém do cavalo, leve-o para fora da liça e receba a sua palavra que pagará o resgate. Depois do torneio, nós negociaremos os valores com os derrotados.
― Você está bastante confiante.
― Eu tenho razão para isso. Você não é como a grande maioria dos cavaleiros, que se deixam levar pelo entusiasmo. Você se mantém frio e isso é muito bom. Use sua cabeça e você chegará longe.
Dei alguns denários a Milon e mandei-o comprar mantimentos nas tendas dos burgueses. Eu tinha algum dinheiro, mas não muito, apenas oito soldos. Se a confiança de Milon era justificada, na noite seguinte a minha situação teria melhorado consideravelmente.
Dormi um sono pesado, sem sonhos de que me lembre. O dia amanheceu nublado, mas não havia cheiro de chuva no ar. Milon ficou satisfeito.
― Você ainda não está acostumado a combater por horas sob o sol, melhor um dia nublado. Mas não se esqueça de parar de vez em quando para tomar um pouco de água e descansar.
Quando escutei o som das trompas, chamando os cavaleiros para a liça, meu coração deu um pulo. Eu estava armado de ponto em branco, e mesmo sem sol já estava suando sob a malha e o elmo. Aceitei a ajuda de Milon para montar Orage e dirigi-me para a liça. O público já lotava a muralha de Provins e a área ao redor da liça, demarcada com cordas. A tribuna de honra já abrigava alguns notáveis.
Procurei o grupo que se reunia sob a bandeira do gonfalão de Auvergne. Apresentei-me ao conde Robert, que agradeceu a minha disposição em combater com seus homens. Do outro lado do campo, sob o pendão com a torre de Clermont, agrupavam-se os cavaleiros adversários. Eu estimei que havia cerca de cinquenta cavaleiros em cada campo.
Os dois campos já estavam definidos, os cavaleiros em suas posições, mas o combate ainda não podia começar, pois Philippe de França e sua esposa Jeanne, a condessa de Champagne, ainda não haviam chegado à tribuna. Eles se fizeram esperar por um bom tempo, e o público e alguns cavaleiros davam mostras de sua impaciência.
A chegada dos convidados de honra, anunciada por trombetas, aumentou a agitação dos dois campos. Depois que todos se acomodaram na tribuna, o rei de armas chamou os comandantes dos dois campos, proclamou as regras do torneio e convidou os cavaleiros a se prepararem. Quando os comandantes reuniram-se a suas forças, a fanfarra soou novamente e o torneio começou, sob os gritos de aprovação do público.
De imediato, os dois grupos lançaram-se a trote um contra o outro. Pensando nas advertências de Milon, eu não estava na linha de frente, mas sim um pouco recuado, aguardando para melhor avaliar a situação. Quando as duas linhas se entrechocaram, ergueu-se um clamor tal da multidão, que chegou a abafar o som da refrega.
Observando os cavaleiros que se enfrentavam, reparei que um cavaleiro de Clermont, armado com maça, vacilava um pouco sobre sua montaria. Imediatamente dei rédeas a Orage e avancei contra o cavaleiro, vibrando um forte golpe em seu elmo com o lado de minha espada. O cavaleiro tentou erguer a maça para retribuir o golpe, mas mal conseguiu erguê-la e caiu do cavalo. Ergui minha viseira para sinalizar que estava fora da luta e apeei para ajudá-lo a se levantar. Felizmente ele parecia pouco afetado pela queda e, com minha ajuda, logo pôs-se de pé. Seguimos para a área livre, onde os escudeiros e os arautos esperavam.
O cavaleiro apresentou-se como Raoul de Amigny, e prontamente dispôs-se a pagar o resgate ao fim do torneio. Registramos o feito com os arautos, bebi um pouco de água de um odre que Milon me passou e retornei ao combate; Raoul preferiu esperar sua dor de cabeça passar.
Tive oportunidade de combater com outros adversários, mas não logrei a mesma sorte que tivera logo de início e não consegui derrubar ninguém mais. Logo depois de levar um forte golpe no lado direito do torso, ergui novamente a viseira e fui para a área livre, onde Milon esperava com mais água. Descansei por alguns minutos, observando o desenrolar do torneio. Os arautos estavam ocupados, testemunhando negociações e supervisionando o combate. Clermont estava levando a melhor, mas a disputa ainda não estava decidida. O público saudava golpes bem aplicados e vaiava cavaleiros que, derrotados, abandonavam o campo.
Recuperado, voltei à liça e logo deparei com outra oportunidade. Um cavaleiro com escudo branco e ostentando as cores de Clermont afastou-se um pouco do combate, mas não ergueu a viseira. Parecia um combatente à minha altura e fiz carga sobre ele.
O cavaleiro conseguiu bloquear meu golpe com seu escudo e retribuiu o golpe, mas consegui aparar sua espada. Com o canto do olho notei que dois ou três cavaleiros nos cercavam; mas eu estava ocupado com o combate e não atinei imediatamente com o significado disso. Fiz uma finta com a espada e o escudo e tive sucesso; o cavaleiro adversário abriu a guarda, golpeei com força o lado de seu elmo, e ele caiu do cavalo.
Antes que eu tivesse tempo de erguer a viseira, os três cavaleiros que me cercavam começaram a me atacar! Imediatamente um clamor se ergueu na multidão mais próxima. Eu estava me defendendo como podia, mas os golpes eram fortes e eu estava prestes a desistir, quando a fanfarra soou e anunciou o fim do combate. Mesmo assim, ainda recebi um forte golpe, que terminou por me derrubar do cavalo.
Levantei-me com dificuldade e logo Milon estava a meu lado, com o rosto lívido de fúria.
― Messire Guibert, está bem?
― Estou, Milon, não se preocupe. Mas acho que terei que pagar um resgate, pois fui derrubado…
Contudo, um dos arautos estava junto a Milon, e contestou-me.
― Não, messire. Eu acompanhei tudo. Os cavaleiros que o acossaram violaram as regras do torneio, pois combateram em três contra um. De mais a mais, quando a fanfarra soou messire ainda se encontrava a cavalo, então não há que falar em resgate.
Aquilo me tranquilizou, pois eu não teria meios de pagar um resgate. Mas Milon ainda estava espumando.
― Esses cavaleiros que o enfrentaram são uns covardes! Isso não é maneira de combater em um torneio!
― Esqueça, Milon. O que eu quero saber é onde está o cavaleiro que eu derrubei. Já tenho o resgate de Raoul de Amigny, será bom ter mais este.
Olhando em volta, vi que os cavaleiros que haviam me atacado estavam em volta do cavaleiro de armas em branco. Ele estava novamente montado, mas sem o elmo, revelando cabelos castanho-claros bem cuidados. Quando me aproximei, um dos cavaleiros colocou-se à minha frente, bloqueando o caminho, mas a uma palavra do jovem deixou-me passar. Dirigi-me ao cavaleiro, que aparentava ter a minha idade.
― Messire, tive a honra de derrubá-lo em combate singular, donde rogo-lhe que se sujeite a pagar o seu resgate.
Percebi que os cavaleiros que o acompanhavam estavam indignados. Um deles, o que bloqueara meu caminho, dirigiu-se ao jovem.
― Messire, quer que eu corra com este malandro?
― Não, Thierry, ele tem razão. Messire ― disse, dirigindo-se a mim ―, por favor digne-se a declinar seu nome, pois Charles de Valois sempre honra suas dívidas.
Senti um arrepio quando ele declarou seu nome. Então eu derrubara um filho do rei! Mas consegui manter a calma e respondi-lhe.
― Messire, sou Guibert de Cormeron.
― Muito bem, messire de Cormeron, vamos registrar o feito com um dos arautos.
O arauto que acompanhara Milon ainda estava por perto e testemunhou o acerto. Nisso, as fanfarras soaram novamente, e o rei de armas proclamou o campo de Clermont vencedor do torneio, sob os aplausos do público. Charles de Valois e seu grupo se afastaram, deixando-me com Milon.
― Então foi por isso que aqueles cavaleiros avançaram sobre você. Que vergonha! Se Charles de Valois entra em um torneio, deve respeitar as regras tanto quanto os outros.
― Esqueça, Milon. Neste momento o que me preocupa é o estado de Orage e o das minhas costelas.
Orage estava bem, e Milon deu-lhe água. Quanto a minhas costelas, embora estivessem um tanto doloridas, não pareciam estar trincadas. Depois que sua raiva passou, Milon cumprimentou-me por ter lutado bem, e atalhou.
― Enquanto você combatia, conversei com um dos arautos e ele me disse que você pode pedir dez ou doze libras pelo resgate de Raoul de Amigny. Já é alguma coisa, mas não é nada perto do resgate de Charles de Valois. Você pode tranquilamente pedir mil libras pelo resgate de um conde da linhagem de Hugo Capeto!
A soma me deixou aturdido. Mas não tive tempo de responder, pois neste momento minha família chegou. Arnaud foi o primeiro a me abraçar, seguido por Gilles. Blanche e minha mãe abraçaram-me e beijaram-me, insistindo em verificar também se eu estava ferido. Todos estavam bastante felizes com meu desempenho em meu primeiro torneio, e faziam com que eu me sentisse o maior de todos os cavaleiros desde Roland.
Após um rápido jantar, eu e Milon alimentamos Orage e pusemos o equipamento em ordem. Enquanto estávamos atarefados, um arauto veio convidar-me para ir à noite ao palácio dos condes, na cidade alta, para um banquete oferecido por Philippe de França aos participantes do torneio. Agradeci o convite e declarei que estaria lá.
Logo a seguir, fui procurado por um fâmulo de Raoul de Amigny, que me convidava a ir ter com ele em seu pavilhão. Dirigi-me para lá e o digno cavaleiro recebeu-me com muita cortesia. Ficamos conversando e contei-lhe porque participara do torneio. Ele congratulou-me quando soube que eu vencera Charles de Valois, e confirmou a apreciação de Milon, segundo a qual o seu resgate ficaria em pelo menos mil libras. Mas Raoul acrescentou que não ficava bem ao vencedor de um Capeto apresentar-se nos trajes simples de um cavaleiro de província. Isso motivou um duplo convite.
― Primeiro, vamos a um dos tecelões da cidade buscar roupas apropriadas para você se apresentar ante Philippe de França hoje à noite. Mas eu também gostaria de convidá-lo para passar o inverno comigo, em meu solar de Amigny. Não é muito longe, fica a uma semana de viagem daqui, no vale do Loire. Terei grande prazer em hospedá-lo.
― Raoul, aceito seu convite com muito prazer. Mas, quanto a visitar um tecelão, não sei se posso fazê-lo, pois não tenho dinheiro.
― Não seja por isso. Vamos agora mesmo visitar o lombardo local e acertar o meu resgate.
E assim fizemos. O lombardo de Provins era um representante da companhia dos Guidi. Raoul de Amigny pagou seu resgate ― que fixei em dez libras parisis ― e o lombardo abriu-me um crédito correspondente, entregando-me uma letra de nove libras parisis, mais uma libra em moedas de prata, cobrando dez denários pelo serviço. Subitamente eu estava rico!
O próprio lombardo indicou-nos uma banca de tecidos e fomos para lá. Comprei trajes suntuosos para mim e para Milon, além de sapatos de bom couro. Ao fim das compras, a minha bolsa estava bastante mais leve, mas eu estava me sentindo pronto para ser apresentado ao próprio rei!
De volta a meu pavilhão, Milon ajudou-me nos preparativos para o banquete. Quando fiquei pronto, dirigi-me para a cidade. Anoitecia e um vento fresco soprava; mas eu estava abrigado sob uma boa capa do Artois. Passei pelas ruas estreitas da cidade baixa, cheias de prédios apertados, e subi a ladeira que conduzia ao palácio dos condes. Muitos cavaleiros e damas já se encontravam lá; fiquei feliz por estar vestido à altura da ocasião. Raoul estava lá e tomou-me pelo braço, apresentando-me a vários cavaleiros conhecidos seus.
Quando os fâmulos chamaram para o banquete, Raoul e eu nos acomodamos a uma das mesas e aguardamos. Philippe de França e sua esposa deram as boas-vindas aos presentes; uma sequência de brindes ― ao rei, ao casal, à boa cidade de Provins e aos participantes do torneio ― abriu o banquete.
A comida era boa, o vinho ainda melhor. Quando os serviçais afinal retiraram os pães sobre os quais havíamos comido, continuamos a beber e conversar. Após algum tempo, Philippe ergueu-se e o salão ficou quase em silêncio.
― Meus dignos convidados, cabe-me agora a elevada tarefa de agraciar os campeões do torneio.
Um arauto adiantou-se e começou a enumerar os cavaleiros que faziam jus aos prêmios. Aplausos e assobios marcavam a chamada de cada nome, e o agraciado fazia um pequeno discurso ao receber sua prenda. Eu não esperava ouvir meu nome, mas para minha surpresa o arauto me chamou. Alguns poucos aplausos me acompanharam, e eu segui para a mesa principal. Lá, pude ver melhor Philippe de França e sua esposa. Ele era um homem alto, louro, belo mas com a face impassível. Seus olhos pareciam não piscar, contemplando-me com um olhar gélido. A condessa era quase uma criança, pouco mais jovem que minha irmã Blanche. Ao seu lado, estava sentado Charles de Valois.
― Messire Guibert de Cormeron, fui informado que teve a ventura de derrubar dois cavaleiros no torneio de hoje. Foi de fato assim?
― Correto, Alteza.
― E um destes cavaleiros foi meu irmão Charles de Valois.
― Sim, Alteza.
― Muito bem. Meu irmão pediu-me que o resgate. Ofereço-lhe a soma de quinhentas libras tornesas por este resgate.
Desta vez o silêncio realmente se abateu sobre o salão, seguido de murmúrios. Quinhentas ou mil libras, era muito mais dinheiro do que eu jamais sonhara ter, mas fiquei aturdido com o fato que o futuro rei era um avarento. Não apenas oferecia metade do valor esperado, como ainda especificara libras tornesas, mais leves que as libras parisis. Quinhentas libras tornesas eram quatrocentas libras parisis.
Seu irmão também deu mostras de estar aturdido, mas logo pôs-se de pé e dirigiu-se a Philippe:
― Meu irmão, isso é inaceitável! Trata-se do resgate de um príncipe da casa de França!
Philippe manteve o olhar em mim, mas respondeu a Charles.
― Meu irmão, o príncipe da casa de França tem toda a liberdade de complementar a oferta que acabo de fazer a messire Guibert.
Charles de Valois empalideceu, mas nada disse; após um momento, voltou a sentar-se, imediatamente chamando mais vinho.
A altercação entre os dois príncipes me dera tempo para refletir em minha resposta. Falei em meio ao silêncio que tomava o salão.
― Messire Philippe, como bem disse seu irmão, o resgate de um príncipe da casa de França pode chegar a mil libras. Mas aceito sua generosa oferta de quinhentas libras, se vossa Alteza conceder-me a graça de me armar em cavaleiro.
Desta vez o salão ressoou com fortes aplausos e risadas alegres. Os cavaleiros presentes pareciam apreciar a situação. Philippe esperou o ruído cessar e continuou.
― Recebi idêntico pedido de messire Gilles de Léchelle hoje, quando ele renovou os laços de vassalagem. Entendo que o senhor renunciou a seus direitos sobre o solar de Cormeron em favor de Gilles de Léchelle?
― Sim, Alteza.
― Então consinto. Messire Guibert de Cormeron receberá quinhentas libras tornesas pelo resgate de Charles de Valois, e será armado em cavaleiro por mim, Philippe de França.
Desta vez os aplausos foram prolongados. Um arauto trouxe a espada de Philippe e eu me ajoelhei à sua frente. O herdeiro do trono fez-me jurar respeitar e proteger o rei, a Igreja, as viúvas e os órfãos, e a seguir tocou meu ombro com a espada. Quando me ergui, sob fortes aplausos, eu era um cavaleiro!
Voltei ao meu lugar, junto a Raoul, que me cumprimentou efusivamente. Outros cavaleiros igualmente vieram me cumprimentar e a conversa corrente era a de que, se Philippe de França causara muito má impressão ao barganhar pela honra de seu irmão, eu me saíra bastante cortesmente da situação.
Não vi quando Philippe saiu do salão, mas a festa continuou até tarde. Eu não estava acostumado a beber tanto vinho e, quando afinal Raoul e eu nos retiramos, eu estava bastante inebriado. Mas Raoul ainda não tinha acabado sua comemoração, e levou-me para uma casa de mulheres, onde passamos o resto da noite. Na manhã seguinte, paguei a madame e voltei ao meu pavilhão, com uma terrível dor de cabeça. Milon recebeu-me, entendendo logo o que se passava comigo, e mergulhou minha cabeça em um balde de água fria para que eu me recuperasse. Seu remédio foi eficaz e, pela hora do jantar, ao fim da manhã, eu já estava recuperado.
Após o jantar, recebi a visita de um fâmulo do lombardo, que me entregou uma letra no valor de quinhentas libras tornesas. Feliz com minha riqueza, dei algumas moedas a Milon e disse-lhe que passaríamos o inverno em casa de Raoul de Amigny, o que deixou feliz o velho escudeiro. Fui em busca de Raoul e combinamos iniciar a viagem para seu solar em dois dias, ao alvorecer do sábado.