2. Léchelle

Meu pai foi Hughes, senhor de Cormeron, vassalo do Conde de Champagne. Nossa linhagem é augusta e antiga. Perdi meu pai quando eu tinha dois anos; ele se fizera cruzado para acompanhar o conde Thibaut, na cruzada do nosso rei Saint Louis, e ele não sobreviveu a seu suserano. O novo conde, Henri o Gordo, deu em casamento minha mãe, Marie, a Gilles de Léchelle, um de seus vassalos, e fui criado no solar de Léchelle.

Gilles não foi um mau padrasto. Era um homem industrioso e sério, sempre tratando minha mãe com grande cortesia. Quanto a mim, ele era correto, mas um tanto distante. Minha mãe deu-lhe uma filha, Blanche, e um filho, Arnaud. Como era natural, Gilles favorecia Arnaud, que era seu herdeiro. Mas o favor do pai não impedia o amor que meus meio-irmãos me dedicavam. Nós três explorávamos toda a região, indo até mesmo ao Bosque dos Grilos, perto do solar que fora de meu pai. Mas não nos aventurávamos mais longe, porque diziam que o bosque abrigava bandidos.

Provins, a duas léguas de distância, era o passeio especial que fazíamos quando havia as grandes feiras, e nos dias das festas das imponentes igrejas da cidade. Léchelle fica no caminho entre a Lorraine e a Champagne, então muitas vezes trovadores pediam pouso no solar, oferecendo cantares de romances em retribuição à hospitalidade.

Quando Arnaud e eu já estávamos crescidos, Gilles colocou-nos sob treinamento com Milon, um sargento d’armas que servira nas duas cruzadas do rei Saint Louis. Milon passou a educar-nos nas artes cavaleirescas. Ele era bastante experimentado, mesmo não sendo fidalgo, e Arnaud e eu muitas vezes sofremos sua mão pesada ,quando cometíamos algum erro.

Arnaud logo se mostrou melhor cavaleiro do que eu, embora eu o superasse no manejo da espada. Blanche acompanhava nossos treinos, quando tinha tempo, e ajudava nossa mãe a pensar as feridas causadas pelos embates simulados ou pelas inevitáveis quedas ante o estafermo.

Além do treinamento, Milon regalava-nos com histórias das duas cruzadas em que participara. Para mim, estas histórias eram ainda mais interessantes que as de Lancelot ou Perceval, contadas pelos trovadores que passavam por Léchelle a caminho das feiras em Provins. Sempre que tinha oportunidade, eu pedia a Milon que contasse mais histórias, com todos os detalhes que sua memória podia evocar. Eu sonhava acordado com as armas reluzentes, os pendões esvoaçantes e as tonitruantes cargas de cavalaria.

É da natureza dos jovens que se preocupem apenas com si mesmos, como é da natureza do mundo que os acontecimentos, grandes e pequenos, sigam seu ritmo, desdenhando das pretensões dos que almejam controlá-los. Mesmo sem que eu me desse conta, aconteciam naquele tempo altos feitos, que se fariam sentir em minha vida mal começada.

O conde Henri o Gordo tinha morrido quando eu ainda era criança, deixando o condado à sua filha Jeanne. A condessa Jeanne veio a se casar com Philippe, filho e herdeiro do rei, e a cidade de Provins organizou um torneio para celebrar o casamento.

Era um mês de agosto, bastante quente. Lembro do dia em que um fâmulo me encontrou, cismando junto ao riacho, e disse que messire Gilles desejava falar-me. Fui logo ao seu encontro.

Meu padastro nunca foi de fazer rodeios; ia direto ao ponto em suas conversas.

― Guibert, você sabe que meu herdeiro é Arnaud. Isso quer dizer que você tem que procurar o seu próprio caminho na vida, pois não tem herança para si.

Fiquei chocado. Retruquei, um tanto asperamente.

― Cormeron era do meu pai e por direito deve ser minha!

Eu estava tomado pela ira, crendo-me injustiçado. Com os olhos da memória, posso agora ver a preocupação e o cuidado nos olhos de Gilles, mas os meus olhos jovens viam apenas uma imaginada ofensa. Meu padrasto respondeu, manso.

― Você pode ter razão… mas quem vai administrar o condado a partir de agora é Philippe, e dizem que ele é um homem duro. O que você acha mais provável: que ele entregue Cormeron a você, um jovem destreinado e inexperiente; ou que a mantenha sob minha guarda, eu que a fiz prosperar por quatorze anos?

Apesar da ira, fiquei em silêncio. Eu ouvira falar das bodas, claro; era assunto corrente. Mas eu não tinha ideia de que tipo de homem era Philippe. De todo modo, o que Gilles dizia fazia sentido — e isso me irava ainda mais. Ainda assim, eu já tinha experiência suficiente para saber que muitas vezes ter razão não era o bastante, e me mantive calado, os dentes cerrados.

Gilles continuou, após alguns momentos.

― Eu tenho uma proposta a lhe fazer. Você ouviu falar do torneio que haverá em Provins em setembro, para comemorar o casamento da condessa com Philippe. Por que não participa dele? Milon diz que você é hábil no manejo das armas. Muitos moços em sua situação recorrem aos torneios em busca de fama e fortuna.

― Não tenho equipamento para participar de um torneio!

― Ainda não acabei. Minha proposta é a seguinte: eu lhe dou dois cavalos, as armas e a equipagem, bem como Milon por escudeiro. Em troca, você renuncia a seus direitos sobre Cormeron.

Fiquei surpreso. Confesso que nesta época ainda não imaginava muito meu futuro, exceto em devaneios — e muitos destes devaneios tratavam justamente de feitos de armas, que me granjeariam fama e fortuna.

Mas… abandonar minha herança, abandonar a terra de meu pai? Hesitei.

― Não sei…

― Você não precisa decidir agora. Pense a respeito e dê-me sua resposta quando tiver certeza.

Saí do salão, ainda aturdido. Procurei Arnaud e Blanche, e nos retiramos para a cavalariça, onde podíamos conversar em paz. Contei a eles a proposta de Gilles. Arnaud ficou chocado.

― Meu irmão, isso não é possível. Vou falar com meu pai e pedir-lhe que reconsidere.

Mas Blanche discordou.

― Nosso pai tem razão. Guibert, você não sabe nada sobre a administração de um solar. Nem saberia como comandar homens em combate. Você pode ter certeza que Philippe prefere um homem feito, de lealdade e força comprovadas, a um moço que não ia conseguir cumprir suas obrigações.

― Mas e a minha herança?

― Você nunca se preocupou com ela antes, não é? Preferia ficar ouvindo as histórias de Milon e sonhando que estava em uma cruzada. Acorde, Guibert. Este é o mundo real, e nós estamos na Champagne e não na Terra Santa. Vá logo conversar com meu pai e aceite a proposta dele. De mais a mais, você está sempre dizendo que quer se provar pela força do seu braço; esta é a sua chance.

As palavras de Blanche me atingiram com a força da maça do estafermo. Era verdade, eu frequentemente me gabava que meus feitos em armas iriam me granjear fama e fortuna. Mas aparentemente eu não esperava que isso tivesse que acontecer tão cedo.

Fomos interrompidos pela chegada de Milon. Gravemente, ele pediu a Arnaud e Blanche que nos deixassem. Meus irmãos saíram e Milon dirigiu-se a mim.

― Messire Gilles contou-me a conversa que teve com você. Já se decidiu?

― Ainda não ― respondi, um tanto amuado.

― Guibert, messire Gilles tem razão. Você não é um filho segundo, mas está em uma posição equivalente. Sua herança não vale nada se ele decidir contestar o seu direito na corte da condessa. E, se ele ganhar, onde você vai estar, sem terras e sem equipagem? Aceite a oferta de messire Gilles e conquiste o que seu braço lhe conceder.

― Gilles disse que você seria meu escudeiro…

― Sim. Antes de conversar com você, ele me procurou para discutir o caso e eu me ofereci para acompanhá-lo como escudeiro.

― Você se ofereceu!

― Guibert, escute. Quando eu voltei da última cruzada do rei Louis, achei que ficar numa terrinha era o ideal para mim. Messire Gilles foi muito acolhedor e deu-me uma quinta, e eu sosseguei por algum tempo. Mas, quando ele pediu que eu treinasse você e Arnaud, meu sangue voltou a se agitar em minhas veias. Já não tenho mais idade para partir em uma cruzada ou para participar de uma batalha, mas ainda tenho o braço suficientemente forte para servir-lhe de escudeiro. E saiba uma última coisa, Guibert: eu acredito que você tem futuro. Um futuro melhor do que ficar em Cormeron, ou mesmo em Léchelle.

Milon abraçou-me, deu-me uma palmada no ombro e deixou-me com os cavalos. Eu fiquei escovando Orage, o corcel alazão de Gilles, perdido em meus pensamentos. Quando começou a anoitecer, voltei ao solar. Minha mãe estava sentada perto da entrada, aproveitando o resto de luz do dia, fiando. Eu me aproximei e ela ergueu os olhos. Neles li seu amor e sua preocupação comigo, mas ela nada disse. Esperei que ela guardasse o fuso em meio à massa de lã, tomei suas mãos entre as minhas e beijei-as.

― Minha mãe, não se preocupe comigo. Vou aceitar a oferta de Gilles.

Seus olhos brilhavam com lágrimas contidas e ela me abraçou forte.

― Meu filho, venha comigo. Vamos juntos falar com meu senhor.

Entramos e fomos até o salão do senhor. A ceia já ia ser servida, supervisionada pela minha irmã; mas Blanche não olhou em minha direção, e não permaneceu no salão. Gilles cortesmente convidou-nos a comer com ele. Aceitamos a honraria, e minha mãe serviu-me. Comemos em silêncio. Quando os serviçais retiraram as mesas, Gilles dirigiu-se a mim.

― Então, Guibert? Tomou sua decisão?

Mas minha mãe respondeu primeiro.

― Senhor meu marido, meu filho aceita sua generosa oferta. Mas, na qualidade de mãe, quero rogar-lhe uma graça adicional.

Gilles, surpreso, fez-lhe sinal que continuasse.

― Rogo-lhe, meu senhor, que após o torneio, se meu filho se mostrar digno, que peça a Philippe de França que o arme em cavaleiro. Pois não é correto que um fidalgo erre pelos reinos de Deus e dos homens sem a distinção a que faz jus seu sangue mui elevado.

As palavras de minha mãe revelavam seu apreço pelos romances dos trovadores. Mas fiquei-lhe grato; na verdade, percebi que a distinção da cavalaria viria bem a calhar em meu futuro. Assim, apenas disse:

― Senhor, minha mãe fala por mim.

Gilles considerou o pedido por alguns instantes. Finalmente, dirigiu-se a nós.

― O pedido é justo e concedo esta graça. Mas caberá a Philippe de França julgar se Guibert de Cormeron será digno desta alta distinção. Guibert, aproxime-se.

Selamos o acordo com um beijo. Gilles enumerou a equipagem que eu receberia ― armas, armadura e escudo, um pavilhão ― e deu-me os dois cavalos prometidos, um deles o seu próprio corcel. Fiquei comovido; era um presente generoso. Milon foi chamado ao salão e foi posto a meu serviço, beijando a minha mão.

Encerradas as formalidades, todos nos recolhemos. Naquela noite, meus sonhos alternaram entre glórias e terrores, e acordei pouco descansado; fui logo para meu refúgio na cavalariça. Lá já estava Milon, cuidando dos cavalos que agora eram meus: Ruade, um palafrém ruão, dado a escoicear, e Orage. Milon saudou-me formalmente, chamando-me messire, o que me deixou bem pouco à vontade.

― Milon, pare com isso. Você sempre me chamou pelo nome.

― Antes, messire, eu era seu treinador. Agora sou seu escudeiro.

― Pode ser… mas eu tenho certeza que ainda preciso de muito treinamento.

― Nisso messire tem razão ― respondeu ele com um brilho maroto nos olhos. ― Mas, com a sua permissão, vou continuar a treiná-lo.

Enternecido, abracei o velho soldado, e fiz-lhe prometer que, quando estivéssemos a sós, ele me chamaria Guibert, reservando o “messire” para ocasiões formais. A seguir, Milon estabeleceu um duro programa de treinamento.

― O torneio será na véspera da abertura da feira de Saint Ayoul, daqui a um mês. Vamos acelerar o seu treinamento, você ainda tem muito que aprender.

Nos dias que se seguiram, o treinamento aumentou de intensidade. Aprendi a lutar sob o peso da cota de malhas e redescobri que mesmo armas rombas podiam machucar; aprendi a controlar Orage com rédeas e com movimentos de minhas pernas. Todos os dias Milon, infatigável, enfrentava-me na liça, e, à noite, pensava minhas escoriações. Prática com a lança, com a espada, com a maça, com o escudo, muitas vezes caindo da montaria. Mas, a pouco e pouco, fui-me acostumando e logo estava regularmente batendo Milon.

No dia de Saint Apollinaire, véspera do torneio, ouvimos missa e depois preparei-me para partir para Provins, onde eu passaria a noite em meu pavilhão. Minha mãe e meus irmãos vieram ter comigo, para se despedirem, enquanto eu preparava minha partida. É verdade que eles estariam no torneio, mas a ocasião era solene: eu estava saindo da casa onde fora criado, para ganhar o mundo.