1. De vita propria
É com pesar que lanço mão da pena. Quisera estivesse junto a meus filhos, pondo a seu serviço os escassos frutos dos muitos talentos que herdei de meus maiores. As vicissitudes que nos afastaram em corpo têm também efeito sobre a alma, pois o corpo é a âncora material que prende o vôo do espírito. Este, por sua vez, cego por suas asas, ébrio com os ares que sorve, é arrojado ao pó quando se acredita senhor de suas cadeias.
Meus filhos, talvez, se considerem afortunados, por não terem que ouvir os devaneios da senectude. É da natureza dos anciãos procurarem ensinar os jovens, como é da natureza dos jovens esquivarem-se a estas lições, para cometerem os mesmos erros que os anciãos cometeram em suas distantes juventudes. Cumpro o meu papel ao ensinar, sem saber se minhas letras servirão como alimento para algum novo broto, ainda que não nasça da minha ramagem.
Em minha vida peregrina, conheci muitos sábios — homens e mulheres, cristãos e pagãos, senhores e escravos. Somos como anões sobre os ombros de gigantes, é certo; mas o gigantismo do espírito e da sabedoria, muitas vezes, é escondido pela humildade, e mesmo pela vileza. Aprendi que, quanto mais pesadas as cadeias do corpo, tanto mais alto voa o espírito que delas consegue se libertar.
Mas eu nasci com cadeias leves. Fidalgo de uma linhagem antiga e augusta, eu por muito tempo me julguei livre, sem perceber que eu mesmo me prendia. A pouco e pouco, um elo por vez, fui forjando e reforjando cadeias, tanto mais pesadas por me afligirem com a ilusão da liberdade.
Minha fortuna é ter aprendido a identificar estas cadeias, para assim poder me dedicar a desfazer algumas delas. Assim como aprendi de tantos sábios, e sabendo que não me conto entre este número, procuro ensinar aos que me sucederão.
Não tenho a pena da venerável Dhuoda, nem a sabedoria do grande Alcuinus; não me atrevo a empregar meus fracos talentos em escrever um manual para que nele meus filhos se espelhem. Resta-me oferecer-lhes o meu espelho, para que nele vejam as reflexões dos primeiros tempos de minha própria vida adulta, talvez aprendendo com meus erros.
Não levo mais além o exercício, propositalmente. Escassa serventia teria narrar todos os feitos de minha vida. Ainda que este meu espelho consiga lhes orientar os primeiros passos, é certo que os seus caminhos serão diferentes dos meus. Por outro lado, escapo assim de alimentar orgulho e vaidade, deixando de acumular ainda mais no tesouro de iniquidade, que me aguarda em minha tomada de contas.
Mais uma vez, procuro abafar a angústia da distância e da saudade com as palavras; mais uma vez, coloco-me a serviço de meus filhos. Muitas vezes desejei lutar as suas batalhas, como sucede com todos os pais que me antecederam; hoje sei que fazer isso seria condená-los a não crescer, então uso minhas forças para lhes dar algumas direções, esperando que tenham a fortaleza necessária para os embates que os esperam.
Recordo, então, os sucessos da minha própria vida, sempre rendendo homenagem aos muitos que me ensinaram.