Luiz Cláudio Silveira Duarte

Capítulo 1

Meu pai era o senhor de Cormeron, vassalo do Conde de Champagne. Nossa linhagem é augusta e antiga. Eu nasci no ano em que o velho conde Thibaut morreu na volta da cruzada do rei Louis. Meu pai também fizera-se cruzado para acompanhar o conde e morreu em Túnis, sem chegar a me conhecer. O novo conde, Henri o Gordo, deu minha mãe em casamento a Gilles de Beauchery, um de seus vassalos, e foi em Beauchery que eu fui criado.

Gilles não era um mau padrasto. Ele tratava bem minha mãe; quanto a mim, ele era correto, mas um tanto distante. Minha mãe deu-lhe um filho, Arnaud, e uma filha, Blanche. Como era natural, Gilles favorecia Arnaud, que era seu herdeiro. Mas o favor do pai não impedia o amor que meus meio-irmãos me dedicavam. Nós três explorávamos toda a região, indo até mesmo ao Bosque dos Grilos, perto do solar que fora de meu pai. Mas não nos aventurávamos mais longe, porque diziam que o bosque abrigava bandidos.

Provins, a uma légua de distância, era o passeio especial que fazíamos quando havia as grandes feiras e nos dias das festas das imponentes igrejas da cidade.

Quando Arnaud e eu já estávamos crescidos, Gilles colocou-nos sob treinamento com Milon, um sargento d’armas que servira nas duas cruzadas do rei Louis. Milon passou a educar-nos nas artes cavaleirescas. Ele era bastante experimentado, mesmo não sendo fidalgo, e Arnaud e eu muitas vezes sofríamos sua mão pesada quando cometíamos algum erro.

Arnaud logo se mostrou melhor cavaleiro do que eu, embora eu o superasse no manejo da espada. Blanche acompanhava nossos treinos, quando tinha tempo, e ajudava nossa mãe a pensar as feridas causadas pelos embates simulados ou pelas inevitáveis quedas ante o estafermo.

Além do treinamento, Milon regalava-nos com histórias das duas cruzadas em que participara. Para mim, estas histórias eram ainda mais interessantes que as de Lancelot ou Perceval, contadas pelos trovadores que passavam por Beauchery a caminho das feiras em Provins. Sempre que tinha oportunidade, eu pedia a Milon que contasse mais histórias, com todos os detalhes que sua memória podia evocar. Eu sonhava acordado com as armas reluzentes, os pendões esvoaçantes e as tonitruantes cargas de cavalaria.

O conde Henri o Gordo tinha morrido quando eu ainda era criança, deixando o condado à sua filha Jeanne. A condessa Jeanne veio a se casar com Philippe, filho e herdeiro do rei, e a cidade de Provins organizou um torneio para celebrar o casamento. Gilles chamou-me para uma conversa, e foi direto ao ponto.

― Guibert, você sabe que meu herdeiro é Arnaud. Isso quer dizer que você tem que procurar o seu próprio caminho na vida.

Retruquei, um tanto asperamente.

― Cormeron era do meu pai e por direito deve ser minha!

― Você pode ter razão\… mas quem vai administrar o condado a partir de agora é Philippe, e dizem que ele é um homem duro. O que você acha provável, que ele entregue Cormeron a você, um jovem destreinado, ou que a mantenha sob minha guarda, eu que a fiz prosperar por tantos anos?

Fiquei em silêncio. Eu não tinha ideia de que tipo de homem era Philippe, mas o que Gilles dizia fazia sentido. Eu já tinha experiência suficiente para saber que muitas vezes ter razão não era o bastante.

Gilles continuou, após alguns momentos.

― Eu tenho uma proposta a lhe fazer. Você ouviu falar do torneio que haverá em Provins em setembro, para comemorar o casamento da condessa com Philippe. Por que não participa dele? Milon diz que você é hábil no manejo das armas. Muitos rapazes em sua situação recorrem aos torneios em busca de fama e fortuna.

― Não tenho equipamento para participar de um torneio!

― Ainda não acabei. Minha proposta é a seguinte: eu lhe dou dois cavalos, as armas e a equipagem, bem como Milon por escudeiro. Em troca, você renuncia a seus direitos sobre Cormeron.

Fiquei surpreso. Confesso que nesta época ainda não imaginava muito meu futuro, mas abandonar minha herança? Hesitei.

― Não sei\…

― Você não precisa decidir agora. Pense a respeito e dê-me sua resposta quando tiver certeza.

Saí do salão, ainda aturdido. Procurei Arnaud e Blanche e nos retiramos para a cavalariça, onde podíamos conversar em paz. Contei a eles a proposta de Gilles. Arnaud ficou chocado.

― Meu irmão, isso não é possível. Vou falar com meu pai e pedir-lhe que reconsidere.

Mas Blanche discordou.

― Nosso pai tem razão. Guibert, você não sabe nada sobre a administração de um solar. Nem saberia como comandar homens em combate. Você pode ter certeza que Philippe prefere um homem feito, de lealdade e força comprovadas, a um moço que não ia conseguir cumprir suas obrigações.

― Mas e a minha herança?

― Você nunca se preocupou com ela antes, não é? Preferia ficar ouvindo as histórias de Milon e sonhando que estava em uma cruzada. Acorde, Guibert. Este é o mundo real, e nós estamos na Champagne e não na Terra Santa. Vá logo conversar com meu pai e aceite a proposta dele. De mais a mais, você está sempre dizendo que quer se provar pela força do seu braço; esta é a sua chance.

As palavras de Blanche atingiram-me com a força da maça do estafermo. Era verdade, eu frequentemente me gabava que meus feitos em armas iam me granjear fama e fortuna. Mas aparentemente eu não esperava que isso tivesse que acontecer tão cedo.

Fomos interrompidos pela chegada de Milon. Gravemente, ele pediu a Arnaud e Blanche que nos deixassem. Meus irmãos saíram e Milon dirigiu-se a mim.

― Messire Gilles contou-me a conversa que teve com você. Já se decidiu?

― Ainda não ― respondi, um tanto amuado.

― Guibert, messire Gilles tem razão. Você não é um filho segundo, mas está em uma posição equivalente. Sua herança não vale nada se ele decidir contestar o seu direito na corte da condessa. E, se ele ganhar, onde você vai estar, sem terras e sem equipagem? Aceite a oferta de messire Gilles e conquiste o que seu braço lhe conceder.

― Gilles disse que você seria meu escudeiro\…

― Sim. Antes de conversar com você, ele me procurou para discutir o caso e eu me ofereci para acompanhá-lo como escudeiro.

― Você se ofereceu!

― Guibert, escute. Quando eu voltei da última cruzada do rei Louis, achei que ficar numa terrinha era o ideal para mim. Messire Gilles foi muito acolhedor e deu-me uma quinta, e eu sosseguei por algum tempo. Mas, quando ele pediu que eu treinasse você e Arnaud, meu sangue voltou a se agitar em minhas veias. Já não tenho mais idade para partir em uma cruzada ou para participar de uma batalha, mas ainda tenho o braço suficientemente forte para servir-lhe de escudeiro. E saiba uma última coisa, Guibert: eu acredito que você tem futuro. Um futuro melhor do que ficar em Cormeron, ou mesmo Beauchery.

Milon abraçou-me, deu-me uma palmada no ombro e deixou-me com os cavalos. Eu fiquei escovando Orable, o cavalo de Gilles, perdido em meus pensamentos. Quando começou a anoitecer, voltei ao solar. Na entrada minha mãe estava sentada, bordando. Eu me aproximei e ela ergueu os olhos. Neles li seu amor e sua preocupação comigo, mas ela nada disse. Tomei suas mãos entre as minhas e beijei-as.

― Minha mãe, não se preocupe comigo. Vou aceitar a oferta de Gilles.

Seus olhos brilhavam com lágrimas contidas e ela me abraçou forte.

― Meu filho, venha comigo. Vamos juntos falar com Gilles.

Entramos e fomos até o salão do senhor. Gilles estava comendo, e cortesmente convidou-nos a comer com ele. Aceitamos a honraria, e minha mãe serviu-me. Comemos em silêncio. Quando os serviçais retiraram as mesas, Gilles dirigiu-se a mim.

― Então, Guibert? Tomou sua decisão?

Mas minha mãe respondeu primeiro.

― Senhor meu marido, meu filho aceita sua generosa oferta. Mas, na qualidade de mãe, quero rogar-lhe uma graça adicional.

Gilles, surpreso, fez-lhe sinal que continuasse.

― Rogo-lhe, meu senhor, que após o torneio, se meu filho se mostrar digno, que peça a Philippe de França que o arme em cavaleiro. Pois não é correto que um fidalgo erre pelos reinos de Deus e dos homens sem a distinção a que seu sangue mui elevado faz jus.

Aparentemente minha mãe apreciava os romances com que os trovadores retribuíam seu pouso no solar. Mas fiquei-lhe grato; na verdade, percebi que a distinção da cavalaria viria bem a calhar em meu futuro. Assim, disse:

― Senhor, minha mãe fala por mim.

Gilles considerou o pedido por alguns instantes. Finalmente, dirigiu-se a nós.

― O pedido é justo e concedo esta graça. Mas caberá a Philippe de França julgar se Guibert de Cormeron será digno desta alta distinção. Guibert, aproxime-se.

Selamos o acordo com um beijo. Gilles enumerou a equipagem que eu receberia ― armas, armadura e escudo, um pavilhão ― e deu-me os dois cavalos prometidos, um deles o seu, Orable, um belo corcel. Milon foi chamado e foi posto a meu serviço, beijando a minha mão.

Encerradas as formalidades, todos nos recolhemos. Naquela noite, meus sonhos alternaram entre glórias e terrores, e acordei pouco descansado; fui logo para meu refúgio na cavalariça. Lá já estava Milon, cuidando de Orable e do palafrém que agora eram meus. Milon saudou-me formalmente, chamando-me messire, o que me deixou bem pouco à vontade.

― Milon, pare com isso. Você sempre me chamou pelo nome.

― Antes, messire, eu era seu treinador. Agora sou seu escudeiro.

― Pode ser\… mas eu tenho certeza que ainda preciso de muito treinamento.

― Nisso messire tem razão ― respondeu ele com um brilho maroto nos olhos. ― Mas, com a sua permissão, vou continuar a treiná-lo.

Enternecido, abracei o velho soldado, e fiz-lhe prometer que, quando estivéssemos a sós, ele me chamaria Guibert, reservando o “messire” para ocasiões formais. A seguir, Milon estabeleceu um duro programa de treinamento.

[]{}― O torneio será na festa de Santo Ayoul, daqui a três semanas. Vamos acelerar o seu treinamento, você ainda tem muito que aprender.

Nos dias que se seguiram, o treinamento aumentou de intensidade. Aprendi a lutar sob o peso da cota de malhas e redescobri que mesmo armas rombas podiam machucar; todos os dias Milon, infatigável, enfrentava-me na liça, e, à noite, pensava minhas escoriações. Prática com a lança, com a espada, com a maça, com o escudo, muitas vezes caindo da montaria. Mas, a pouco e pouco, fui-me acostumando e logo estava regularmente batendo Milon.

No domingo, véspera da festa de Santo Ayoul, ouvimos missa e depois preparei-me para partir para Provins, onde passaria a noite em meu pavilhão. Minha mãe e meus irmãos vieram ter comigo enquanto eu preparava minha partida, para se despedirem. É verdade que eles estariam no torneio no dia seguinte, mas a ocasião era solene: eu estava saindo da casa onde fora criado, para ganhar o mundo.

Capítulo 2

Provins tinha sido toda engalanada para o domingo, para a festa de Santo Ayoul e para o torneio. Não entrei na cidade propriamente dita, e assim não vi a decoração da igreja de Santo Ayoul, mas fora dos muros viam-se guirlandas e buquês de rosas por toda parte. As rosas de Provins já eram famosas, pois provinham de plantas trazidas da Terra Santa pelo conde Thibaut, que se fizera cruzado.

A liça fora demarcada no campo a leste da cidade, e uma tribuna estava erguida para os convidados de honra. O resto do público assistiria aos embates do alto dos muros ou, o que era perigoso, junto à própria liça. Uma grande área estava reservada para os pavilhões dos cavaleiros visitantes, e muitos já estavam instalados, em uma profusão de cores e de sons. Alguns exercitavam-se, a cavalo ou a pé, enquanto um sem-número de basbaques passeavam entre os pavilhões.

Vários burgueses industriosos tinham armado suas tendas e apregoavam a qualidade de seus produtos, em sua maioria alimentos produzidos localmente. O cheiro de frituras se espalhava pelo ar, dando água na boca. Ainda faltavam duas semanas para a grande feira, mas já se encontravam burgueses vendendo a famosa geleia de rosas de Provins; eu mesmo só comera dela uma vez, pois era uma iguaria cara, produzida com o açúcar de Chipre.

A alegria geral era contagiante. Na área para os cavaleiros visitantes, eu notei que poucos dos escudos eram brancos, como o meu; o torneio atraíra muitos cavaleiros mais experimentados.

Milon ergueu meu pavilhão em uma área ainda pouco povoada do campo e saiu para saber as novidades. Eu fiquei, realizando as perenes tarefas de manutenção das armas e dos arneses. Mais tarde, Milon retornou, cheio de notícias.

― Nada de armas embotadas amanhã ― o torneio será à l’outrance! Parece que temos um grupo de cavaleiros de Foix e um grupo de cavaleiros de Auvergne e os dois grupos exigiram um combate real. Mas não se preocupe, as regras do torneio proíbem golpes com a ponta das armas, golpeie com o lado da espada e tudo estará bem. Em qual dos campos você quer se inscrever?

― Minha mãe disse que seus avós vieram do Auvergne\… então vou lutar ao lado dos arvérnios. Quem os comanda?

― É Robert, o conde de Auvergne.

― Muito bem, Milon, por favor registre meu nome junto ao campo de Auvergne. Quais são os outros nomes de nota no torneio?

― O comandante do campo de Foix será Pierre, conde de Blois. Philippe de França está em Provins, na Torre do Rei, mas ele não vai participar, vai só assistir ao torneio. Mas o seu irmão, Charles, que acaba de se tornar conde de Valois, vai estar também no campo de Foix.

― Eu notei que não há muitos cavaleiros com armas em branco\…

― Não se preocupe, Guibert. Você é um bom cavaleiro e maneja bem a espada. Mas lembre-se que você não está em busca de glórias, mas em busca de resgates. Nada de procurar os adversários mais fortes, mas sim os mais fracos! Derrube alguém do cavalo, leve-o para fora da liça e receba a sua palavra que pagará o resgate. Depois do torneio, nós negociaremos os valores com os derrotados.

― Você está bastante confiante.

― Eu tenho razão para isso. Você não é como a grande maioria dos cavaleiros, que se deixam levar pelo entusiasmo. Você se mantém frio e isso é muito bom. Use sua cabeça e você chegará longe.

Dei alguns denários a Milon e mandei-o comprar mantimentos nas tendas dos burgueses. Eu tinha algum dinheiro, mas não muito, apenas oito soldos. Se a confiança de Milon era justificada, amanhã à noite a minha situação teria melhorado consideravelmente.

O dia da festa de Santo Ayoul amanheceu nublado, mas não havia cheiro de chuva no ar. Milon ficou satisfeito.

― Você ainda não está acostumado a combater por horas sob o sol, melhor um dia nublado. Mas não se esqueça de parar de vez em quando para tomar um pouco de água e descansar.

Quando escutei o som das trompas, chamando os cavaleiros para a liça, meu coração deu um pulo. Eu estava armado de ponto em branco, e mesmo sem sol já estava suando sob a malha e o elmo. Aceitei a ajuda de Milon para montar Orable e dirigi-me para a liça. O público já lotava a muralha de Provins e a área ao redor da liça, demarcada com cordas. A tribuna de honra já abrigava alguns notáveis.

Procurei o grupo que se reunia sob a bandeira do gonfalão rubro de Auvergne. Apresentei-me ao conde, que agradeceu a minha disposição em combater com seus homens. Do outro lado do campo, sob as palas rubras em campo dourado de Foix, agrupavam-se os cavaleiros adversários. Eu estimei que havia cerca de cinquenta cavaleiros em cada campo.

Os dois campos já estavam definidos, os cavaleiros em suas posições, mas o combate ainda não podia começar, pois Philippe de França e sua esposa Jeanne, a condessa de Champagne, ainda não haviam chegado à tribuna. Eles se fizeram esperar por um bom tempo, e o público e alguns cavaleiros davam mostras de sua impaciência.

A chegada dos convidados de honra, anunciada por trombetas, aumentou a agitação dos dois campos. Depois que todos se acomodaram na tribuna, o rei de armas chamou os comandantes dos dois campos, proclamou as regras do torneio e convidou os cavaleiros a se prepararem. Quando os comandantes reuniram-se a suas forças, a fanfarra soou novamente e o torneio começou, sob os gritos de aprovação do público.

De imediato, os dois grupos lançaram-se a trote um contra o outro. Pensando nas advertências de Milon, eu não estava na linha de frente, mas sim um pouco recuado, aguardando para melhor avaliar a situação. Quando as duas linhas se entrechocaram, ergueu-se um clamor da multidão que chegou a abafar o som da refrega.

Observando os cavaleiros que se enfrentavam, reparei que um cavaleiro de Foix, armado com maça, vacilava um pouco sobre sua montaria. Imediatamente dei rédeas a Orable e avancei contra o cavaleiro, vibrando um forte golpe em seu elmo com o lado de minha espada. O cavaleiro tentou erguer a maça para retribuir o golpe, mas mal conseguiu erguê-la e caiu do cavalo. Ergui minha viseira para sinalizar que estava fora da luta e apeei para ajudá-lo a se levantar. Felizmente ele parecia pouco afetado pela queda e, com minha ajuda, logo pôs-se de pé e dirigimo-nos para a área livre, onde os escudeiros e os arautos esperavam.

O cavaleiro apresentou-se como Raoul de Amigny, e prontamente dispôs-se a pagar o resgate ao fim do torneio. Registramos o feito com os arautos, bebi um pouco de água de um odre que Milon me passou e retornei ao combate; Raoul preferiu esperar sua dor de cabeça passar.

Tive oportunidade de combater com outros adversários, mas não logrei a mesma sorte que tivera logo de início e não consegui derrubar ninguém mais. Logo depois de levar um forte golpe no lado direito do torso, ergui novamente a viseira e fui para a área livre, onde Milon esperava com mais água. Descansei por alguns minutos, observando o desenrolar do torneio. Os arautos estavam ocupados, testemunhando negociações e supervisionando o combate. Foix estava levando a melhor, mas a disputa ainda não estava decidida. O público saudava golpes bem aplicados e vaiava cavaleiros que, derrotados, abandonavam o campo.

Recuperado, voltei à liça e logo deparei com outra oportunidade. Um cavaleiro com escudo branco e ostentando as cores de Foix afastou-se um pouco do combate, mas não ergueu a viseira. Parecia um combatente à minha altura e fiz carga sobre ele.

O cavaleiro conseguiu bloquear meu golpe com seu escudo e retribuiu o golpe, mas consegui aparar sua espada. Com o canto do olho notei que dois ou três cavaleiros nos cercavam; mas eu estava ocupado com o combate e não atinei imediatamente com o significado disso. Fiz uma finta com a espada e o escudo e tive sucesso; o cavaleiro adversário abriu a guarda, golpeei com força o lado de seu elmo, e ele caiu do cavalo.

Antes que eu tivesse tempo de erguer a viseira, os três cavaleiros que me cercavam começaram a me atacar! Imediatamente um clamor se ergueu na multidão mais próxima. Eu estava me defendendo como podia, mas os golpes eram fortes e eu estava prestes a desistir, quando a fanfarra soou e anunciou o fim do combate. Mesmo assim, ainda recebi um forte golpe, que terminou por me derrubar do cavalo.

Levantei-me com dificuldade e logo Milon estava a meu lado, com o rosto branco de fúria.

― Messire Guibert, está bem?

― Estou, Milon, não se preocupe. Mas acho que terei que pagar um resgate, pois fui derrubado\…

Contudo, um dos arautos estava junto a Milon, e contestou-me.

― Não, messire. Eu acompanhei tudo. Os cavaleiros que o acossaram violaram as regras do torneio, pois combateram em três contra um. De mais a mais, quando a fanfarra soou messire ainda encontrava-se a cavalo, então não há que falar em resgate.

Aquilo me tranquilizou, pois eu não teria meios de pagar um resgate. Mas Milon ainda estava espumando de raiva.

― Esses cavaleiros que o enfrentaram são uns covardes! Isso não é maneira de combater em um torneio!

― Esqueça, Milon. O que eu quero saber é onde está o cavaleiro que eu derrubei. Já tenho o resgate de Raoul de Amigny, será bom ter mais este.

Olhando em volta, vi que os cavaleiros que haviam me atacado estavam em volta do cavaleiro de armas em branco. Ele estava novamente montado, mas sem o elmo. Quando me aproximei, um dos cavaleiros colocou-se à minha frente, bloqueando o caminho, mas a uma palavra do jovem deixou-me passar. Dirigi-me ao jovem cavaleiro, que aparentava ter a minha idade.

― Messire, tive a honra de derrubá-lo em combate singular, donde rogo-lhe que se sujeite a pagar o seu resgate.

Percebi que os cavaleiros que o acompanhavam estavam indignados. Um deles, o que bloqueara meu caminho, dirigiu-se ao jovem.

― Messire, quer que eu corra com este malandro?

― Não, Thierry, ele tem razão. Messire, ― disse, dirigindo-se a mim ― por favor digne-se a declinar seu nome, pois Charles de Valois sempre honra suas dívidas.

Senti um arrepio quando ele declarou seu nome. Então eu derrubara um filho do rei! Mas consegui manter a calma e respondi-lhe.

― Messire, sou Guibert de Cormeron.

― Muito bem, messire de Cormeron, vamos registrar o feito com um dos arautos.

O arauto que acompanhara Milon ainda estava por perto e testemunhou o acerto. Nisso, as fanfarras soaram novamente, e o rei de armas proclamou o campo de Foix vencedor do torneio, sob os aplausos do público. Charles de Valois e seu grupo se afastaram, deixando-me com Milon.

― Então foi por isso que aqueles cavaleiros avançaram sobre você. Que vergonha! Se Charles de Valois entra em um torneio, deve respeitar as regras tanto quanto os outros.

― Esqueça, Milon. Neste momento o que me preocupa é o estado de Orable e o das minhas costelas.

Orable estava bem, e Milon deu-lhe água. Quanto a minhas costelas, embora estivessem um tanto doloridas, não pareciam estar trincadas. Depois que sua raiva passou, Milon cumprimentou-me por ter lutado bem, e atalhou.

― Enquanto você combatia, conversei com um dos arautos e ele me disse que você pode pedir dez ou doze libras pelo resgate de Raoul de Amigny. Já é alguma coisa, mas não é nada perto do resgate de Charles de Valois. Você pode tranquilamente pedir mil libras pelo resgate de um conde da linhagem de Hugo Capeto!

A soma me deixou aturdido. Mas não tive tempo de responder, pois neste momento minha família chegou. Arnaud foi o primeiro a me abraçar, seguido por Gilles. Blanche e minha mãe abraçaram-me e beijaram-me, insistindo em verificar também se eu estava ferido. Todos estavam bastante felizes com meu desempenho em meu primeiro torneio, e faziam com que eu me sentisse o maior de todos os cavaleiros desde Roland.

Capítulo 3

Após um rápido jantar, eu e Milon alimentamos Orable e pusemos o equipamento em ordem. Enquanto estávamos atarefados, um arauto veio convidar-me para ir à noite à Torre do Rei, na cidade alta, para um banquete oferecido por Philippe de França aos participantes do torneio. Agradeci o convite e declarei que estaria lá.

Logo a seguir, fui procurado por um fâmulo de Raoul de Amigny, que me convidava a ir ter com ele em seu pavilhão. Dirigi-me para lá e o digno cavaleiro recebeu-me com muita cortesia. Ficamos conversando e contei-lhe porque participara do torneio. Ele congratulou-me quando soube que eu vencera Charles de Valois, e confirmou a apreciação de Milon, segundo a qual o seu resgate ficaria em pelo menos mil libras. Mas Raoul acrescentou que não ficava bem ao vencedor de um Capeto apresentar-se nos trajes simples de um cavaleiro de província. Isso motivou um duplo convite.

― Primeiro, vamos a um dos tecelões da cidade buscar roupas apropriadas para você se apresentar ante Philippe de França hoje à noite. Mas eu também gostaria de convidá-lo para passar o inverno comigo, em meu solar de Amigny. Não é muito longe, fica a uma semana de viagem daqui, no vale do Loire. Terei grande prazer em hospedá-lo.

― Raoul, aceito seu convite com muito prazer. Mas, quanto a visitar um tecelão, não sei se posso fazê-lo, pois não tenho dinheiro.

― Não seja por isso. Vamos agora mesmo visitar o lombardo local e acertar o meu resgate.

E assim fizemos. O lombardo de Provins era um representante da companhia dos Guidi. Raoul de Amigny pagou seu resgate ― que fixei em dez libras parisis ― e o lombardo abriu-me um crédito correspondente, entregando-me uma letra de nove libras parisis e uma libra em moedas de prata, cobrando dez denários pelo serviço. Subitamente eu estava rico!

O próprio lombardo indicou-nos uma loja de tecidos e fomos para lá. Comprei trajes suntuosos para mim e para Milon, além de sapatos de bom couro. Ao fim das compras, a minha bolsa estava bastante mais leve, mas eu estava me sentindo pronto para ser apresentado ao próprio rei!

De volta a meu pavilhão, Milon ajudou-me nos preparativos para o banquete e, quando fiquei pronto, dirigi-me para a cidade. Anoitecia e um vento frio soprava; mas eu estava abrigado sob uma boa capa do Artois. Passei pelas ruas estreitas da cidade baixa, cheias de prédios apertados, e subi a ladeira que conduzia à Torre do Rei. Muitos cavaleiros e damas já se encontravam lá, e fiquei feliz por estar vestido à altura da ocasião. Raoul estava lá e tomou-me pelo braço, apresentando-me a vários cavaleiros conhecidos seus.

Quando os fâmulos chamaram para o banquete, Raoul e eu nos acomodamos a uma das mesas e aguardamos. Philippe de França e sua esposa deram as boas-vindas aos presentes e uma sequência de brindes ― ao casal, ao rei, à boa cidade de Provins e aos participantes do torneio ― abriu o banquete.

A comida era boa, o vinho ainda melhor. Quando os fâmulos afinal retiraram os pães sobre os quais havíamos comido, continuamos a beber e conversar. Após algum tempo, Philippe ergueu-se e o salão ficou quase em silêncio.

― Meus dignos convidados, cabe-me agora a elevada tarefa de agraciar os campeões do torneio.

Um arauto adiantou-se e começou a enumerar os cavaleiros que faziam jus aos prêmios. Aplausos e assobios marcavam a chamada de cada nome, e o agraciado fazia um pequeno discurso ao receber sua prenda. Eu não esperava ouvir meu nome, mas para minha surpresa o arauto me chamou. Alguns poucos aplausos me acompanharam, e eu segui para a mesa principal. Lá, pude ver melhor Philippe de França; um homem alto, louro, belo mas com a face impassível. Seus olhos pareciam não piscar e ele contemplou-me com um olhar gélido.

― Messire Guibert de Cormeron, fui informado que teve a ventura de derrubar dois cavaleiros no torneio de hoje. Foi de fato assim?

― Correto, Alteza.

― E um destes cavaleiros foi meu irmão Charles de Valois.

― Sim, Alteza.

― Muito bem. Meu irmão pediu-me que o resgate. Ofereço-lhe a soma de quinhentas libras tornesas por este resgate.

Desta vez o silêncio realmente se abateu sobre o salão, seguido de murmúrios. Quinhentas ou mil libras, era muito mais dinheiro do que eu jamais sonhara ter, mas fiquei aturdido com o fato que o futuro rei era mesquinho. A indignação deu-me voz.

― Messire Philippe, o resgate de Charles de Valois pode chegar a mil libras. Mas aceito sua oferta de quinhentas libras se vossa Alteza conceder-me a graça de me armar em cavaleiro.

Desta vez o salão ressoou com aplausos e risadas alegres. Os cavaleiros presentes pareciam apreciar a situação. Philippe esperou o ruído cessar e continuou.

― Recebi idêntico pedido de messire Gilles de Beauchery hoje, quando ele renovou os laços de vassalagem. Entendo que você renunciou a seus direitos sobre o solar de Cormeron em favor de Gilles de Beauchery?

― Sim, Alteza.

― Então aceito. Messire Guibert de Cormeron receberá quinhentas libras tornesas pelo resgate de Charles de Valois e será armado em cavaleiro por mim, Philippe de França.

Desta vez os aplausos foram prolongados. Um arauto trouxe a espada de Philippe e eu me ajoelhei à sua frente. O herdeiro do trono fez-me jurar respeitar e proteger o rei, a Igreja, as viúvas e os órfãos, e a seguir tocou meu ombro com a espada. Quando eu me ergui, sob novos aplausos, eu era um cavaleiro!

Voltei ao meu lugar, junto a Raoul, que me cumprimentou efusivamente. Outros cavaleiros igualmente vieram me cumprimentar e a conversa corrente era a de que, se Philippe de França causara muito má impressão ao barganhar pela honra de seu irmão, eu me saíra bastante cortesmente da situação.

Não vi quando Philippe saiu do salão, mas a festa continuou até tarde. Eu não estava costumado a beber tanto vinho e, quando afinal Raoul e eu nos retiramos, eu estava bastante inebriado. Mas Raoul ainda não tinha acabado sua comemoração e levou-me para uma casa de mulheres, onde passamos a noite. Na manhã seguinte, paguei a madame e voltei ao meu pavilhão, com uma ressaca terrível. Milon recebeu-me, entendendo logo o que se passava comigo, e mergulhou minha cabeça em um balde de água fria para que eu me recuperasse. Seu remédio foi eficaz e, pela hora do jantar, eu já estava recuperado.

Após o jantar, recebi a visita de um fâmulo do lombardo, que me entregou uma letra no valor de quinhentas libras tornesas. Feliz com minha riqueza, dei algumas moedas a Milon e disse-lhe que passaríamos o inverno em casa de Raoul de Amigny, o que deixou feliz o velho escudeiro. Fui em busca de Raoul e combinamos iniciar a viagem para seu solar no dia seguinte, ao alvorecer.

Capítulo 4

Raoul de Amigny e eu não éramos os únicos cavaleiros seguindo para sul; os cavaleiros de Auvergne iam pelo mesmo caminho, e assim formávamos um grande grupo. A estrada era bastante trafegada. Encontramos mercadores, peregrinos e, uma vez, um grupo de cavaleiros templários, imponentes em seus hábitos brancos.

Robert, o conde de Auvergne, fez questão de me conhecer pessoalmente e Raoul nos apresentou. O conde fez-me muita festa, tanto pela minha sagração em cavaleiro quanto pelo meu desempenho no torneio ao lado das armas de Auvergne. Embora aparentasse o dobro da minha idade, o conde era ainda moço, solteiro, e gostava de participar de torneios.

A Champagne e, depois, o Orléanais mostravam ser belas regiões aos meus olhos inexperientes. Raoul ia me mostrando os locais por onde passávamos e identificando seus senhores. Os campos estavam sendo colhidos e sentia-se por toda parte o cheiro das plantas ceifadas.

Quando passamos por Sens, paramos na magnífica catedral de Santo Étienne, a sede do Primaz das Gálias. A visão moveu-me. Provins tinha belas igrejas, mas nada que se pudesse comparar à beleza ou ao tamanho da catedral. A rosácea entalhada na fachada, os arcos, as janelas, as estátuas, tudo parecia-me maravilhoso, inspirado pelo amor ao Divino. Fui arrebatado pelo fervor e desejei confessar-me a um dos cônegos. Após a confissão, orei na grande nave da catedral e, sentindo-me purificado, pude seguir caminho.

Naquela noite, Milon perguntou-me, curioso, porque eu me demorara tanto na catedral. Fiquei surpreso, primeiro com a pergunta e depois comigo mesmo. De fato, nunca antes eu demonstrara particular fervor; eu ia à missa, confessava-me e comungava uma vez por ano, e era só. Mas, em Sens, algo tomara conta de meu coração e eu ainda o sentia marcado pela Presença que eu sentira na grande catedral. Não soube o que responder a Milon, mas senti que ali estava uma chave para meu futuro.

Após alguns dias de viagem, entramos no vale do Loire; o solar de Raoul já estava próximo. O Loire era um rio largo, mas tranquilo. Seguimos por sua margem direita por algumas léguas, até uma ponte que Raoul indicou ser a mais conveniente para passarmos à outra margem. Despedimo-nos dos cavaleiros arvérnios, e seguimos para Amigny, meia légua a oeste de Sancerre.

O solar ancestral de Raoul era bem mais imponente que Beauchery, chegando mesmo a ostentar uma pequena torre em pedra. Raoul contara-me no caminho que ele era um dos principais vassalos do conde Étienne de Sancerre, e seu solar o confirmava. Quando chegamos, fomos recebidos por sua esposa, Maura, que deu-me as boas-vindas com muita cortesia. Raoul apresentou-me, citando meus feitos no torneio quase como se fora um trovador.