Tolkien criou os Orcs como um recurso narrativo, um plot device, para que o Inimigo pudesse ter hordas de guerreiros a seu dispor, e com elas criar problemas para os heróis — não importa se Valar, Elfos ou Homens.

O problema é que eles não encaixam na concepção filosófica da Terra Média! O ponto principal é que eles seriam “predestinados” a serem maus, sem qualquer possibilidade de redenção; quase tão importante quanto isso é que Tolkien afirma, terminantemente, que o Inimigo não é capaz de criar, mas apenas de perverter a criação de Eru Ilúvatar. Acho que foi em uma de suas cartas, já nos anos 1950, que ele aventou a hipótese de que os orcs seriam descendentes de elfos capturados por Melkor, e pervertidos por ele — mas isso piora a situação, porque isso implica em capacidade reprodutiva, e chegamos a orcs femininas e crianças orcs.

Tolkien nunca conseguiu chegar a uma solução satisfatória para o dilema. Volto a ele daqui a pouco, porque antes quero falar de um outro dilema, estreitamente ligado ao primeiro; um dilema com o qual Tolkien pouco se preocupou, mas que atualmente é ainda mais relevante: as culturas da Terra Média são inerentemente racistas, e estranhas a quaisquer ideias de inclusividade e de miscigenação.

Isso, em si, não é um problema: a nossa história mostra muitas culturas assim, e era esta a cultura na qual Tolkien foi educado.

Mas a percepção destas culturas, a forma como imaginam ser a realidade não precisa ser de fato a realidade! E nós temos evidências claras de que Elfos e Homens não são espécies separadas, e sim “raças” da mesma espécie — tanto é que se reproduzem! Idem para Homens e Orcs — Saruman teria feito exatamente isso, e para Gandalf esta seria a pior das perversões do seu ex-colega. O próprio Tolkien sugere que Hobbits são “parentes” dos Homens… e, mesmo os Anões, que têm um mito próprio de criação, separada da criação dos Filhos de Ilúvatar, são explicitamente “adotados” por Ele.

Vamos juntar tudo isso? Minha leitura é de que as “raças” da Terra Média têm tanta substância quanto as “raças” do nosso mundo — ou seja, são construtos sociais e culturais, que separa arbitrariamente grupos de indivíduos da mesma espécie — sei lá, Homo tolkieniensis! Em nosso mundo, as separações se dão principalmente por cor de pele; lá, há racismo baseado na cor da pele (isso fica evidente nas referências aos Haradrim, por exemplo), mas também na estatura, e especialmente na adoção de padrões culturais!

Este último critério é importante. Elrond e seu irmão Elros escolheram a que cultura pertenceriam: Elrond escolheu ser Elfo, Elros escolheu ser Homem. Arwen fez escolha semelhante, milênios depois — e ainda afirmou que, depois de ter decidido deixar de ser uma Elfa, nenhum dos barcos élficos a aceitaria a bordo!

Então, a minha leitura — revolucionária, eu sei — é a de que não existem diferenças físicas ou biológicas entre as “raças” da Terra Média, e sim que são culturas variantes dentro da mesma espécie.

Isso significa que as diferenças entre Elfos e Homens se devem não à sua natureza intrínseca, mas ao fato de que suas culturas / “religiões” lhes concedem diferentes capacidades.

E os Orcs? Idem. Não são uma espécie separada, e sim uma cultura separada — tão humana quanto qualquer das outras.

A “religião” malteísta dos Orcs lhes concede capacidades que outras “religiões” não podem oferecer (cf. a religião sanguinolenta dos Astecas). Já a “religião” dos Elfos lhes concede a capacidade da imortalidade relativa, por exemplo. E assim por diante.