No grupo Ludus Magisterium, um colega pediu sugestões sobre como usar RPGs com público da terceira idade. Disse que teve uma experiência recente, mal-sucedida. Nas suas palavras:
Foi bem ruim. Elas jogaram direito, só odiaram, mesmo, a experiencia. Usamos o Zorcerer of Zo, um sistema que costumo usar com iniciantes porque é bem simples. Aventura envolvendo contos de fadas, fichas prontas e princesas. O sistema usa frases narrativas para habilidades. Por exemplo, em vez de ser espadachim voce é ‘a lâmina mais afiada do Reino Azul’, coisas assim. E elas jogaram bem, entenderam como eram as regras e tal. Odiaram RPG em si. Mas o que elas odiaram nem mesmo foi a história, foi o modelo de RPG como alternativa de entretenimento. Elas não gostam de jogos mais complexos, em geral, então duvido que mesmo outro RPG funcione.
Bom, este foi o ponto de partida da conversa. Mas, logo a seguir, começamos a trocar ideias sobre narrativas de fantasia. Um outro colega escreveu:
Fantasia seria um tema ruim para terceira idade? Mesmo na nossa idade, fantasia não é mainstream.
Fiz algumas colocações a respeito deste tema, que repito a seguir.
Qualquer idade pode apreciar. Mas foi apenas nas últimas décadas que a indústria de entretenimento se voltou para este filão. Pessoas com uma formação mais antiga vão estar emocionalmente ligadas a estruturas narrativas diferentes. Mesmo quando conhecem fantasia, é raro que lhes seja relevante.
Pensando alto / divagando aqui… seguindo na linha do que escrevi, há pouco, sobre a falta de engajamento com fantasia nas gerações mais antigas.
Existe uma característica essencial da fantasia — seja ficção científica, space opera, fantasia “clássica”, fantasia urbana (como super-heróis), animes, e por aí vai. É a busca de alternativas — basicamente, todas estas narrativas são um grande “e se…?” Esta característica move tanto os criadores quanto os consumidores a sempre se colocarem esta pergunta. Temos uma certa agência sobre as histórias. Mais ainda: como elas mostram um outro mundo, de alguma forma diverso do nosso, ainda suscitam a curiosidade sobre o que mais há neste mundo.
Mas ninguém ficava se perguntando qual era a backstory de Anna Leonowens, ou do rei Mongkut (pegando um exemplo ao acaso). Aceitava-se que eram figuras mais ou menos históricas, com histórias mais ou menos familiares, e pronto. Não havia o que explicar.
Uma das frases famosas de Heinlein, sobre a escrita de obras de FC, é “mostre, ao invés de explicar” — e ele usa o exemplo “a porta se dilatou”. Justamente para despertar a curiosidade do leitor! Para incentivá-lo a ir além, a pensar “como uma porta se dilata? como pode ser isso?”
Nada disso era incentivado nas formas tradicionais de narrativa. E RPG é fundamentalmente agência sobre a narrativa…
Mais Heinlein…
Penso que a ficção científica — mesmo quando é apelativa, exagerada, mal escrita — tem um notável efeito terapêutico, porque toda ela tem um postulado primário: o mundo muda. Não há como realçar esta ideia em demasia.
Pois é. Heinlein proferiu estas palavras em 1941. Mas, para a imensa maioria das pessoas, o mundo não muda.
Há alguns dias, no grupo Ludus Off Topic, mencionei a minha experiência com meu pai, quando lhe apresentei um jogo sobre a Copa do Mundo de 1950, e ele perguntou “por que jogar, se já sabemos como acabou?”
Pensar em alternativas não era algo praticado até bem recentemente. Mesmo na ficção. Durante décadas, era facílimo encontrar publicações, nas bancas de jornais, sobre novelas e filmes. Mas era praticamente impossível encontrar discussões sobre alternativas, sobre narrativas divergentes. Havia a “oficial” e só. O que hoje chamamos “fanfic” começou nos anos 1960 — e começou, justamente, nos fanzines de ficção científica!
No ensaio On Fairy-Stories, Tolkien coloca na origem da literatura de fantasia o papel do autor como “subcriador” — ou seja, exercendo sua agência sobre uma criação que o antecede. “O autor mostra ser um ‘subcriador’ de sucesso. Ele cria um Mundo Secundário no qual a sua mente pode entrar. Dentro dele, o que ele relata é ‘verdade’: está em concordância com as leis daquele mundo.” Não lembro se ele tratava a questão do leitor como subcriador; mas é exatamente isso que faz quem se engaja com a literatura de fantasia.
Este é o público-alvo, por excelência, dos RPGs. Alguém que sequer colocaria a pergunta de meu pai, que relatei acima.