Eu sou um perpétuo curioso, e a minha curiosidade se estende a muitos assuntos. Um amigo me definiu como “especialista em generalidades”. Há alguns anos, um dos meus filhos do coração disse que eu era seu “personal Google”.
Com toda esta curiosidade, é curioso que eu quase não tenha procurado informações sobre o transtorno esquizotípico. Li um pouco sobre ele, à época que recebi o diagnóstico, e mais nada em quase vinte anos — até eu me decidir a realizar este projeto.
Não escondo minha doença de outras pessoas… mas, pelo visto, eu a escondo um pouco de mim mesmo.
De todo modo, agora estou lendo um pouco sobre este transtorno. Ele foi “oficializado” em 1980; antes disso, já era discutido, mas era considerado um estágio preliminar no percurso para a esquizofrenia. Esta possibilidade era a maior preocupação da minha psiquiatra, quando ela apresentou este diagnóstico.
Claro, tornou-se também a minha. Alguns anos depois disso, eu estava me sentindo tão abalado e tão abatido, que cogitei seriamente pedir a minha interdição judicial; eu tinha um medo-certeza que estava mesmo a caminho de um quadro muito mais grave.
Mas este não foi o caminho que eu segui, pelo menos até agora. Consigo identificar vários motivos para isso.
O primeiro foi o acompanhamento profissional: a atenção e os cuidados de uma psiquiatra e uma psicóloga extremamente competentes, auxiliados pelo tratamento medicamentoso.
Essencial. Mas as duas sempre ressaltaram que todo o seu trabalho dependia de um pressuposto: eu tinha que levar a sério o tratamento.
Eu fiz isso. Mesmo nos momentos mais desesperados, não deixei de tomar a medicação, não deixei de ir às consultas. Quando me mudei de Brasília para Curitiba, passei a ter acompanhamento médico na nova cidade, e mantive o acompanhamento psicológico com a mesma terapeuta, de forma remota.
Durante este período, um grande amigo meu estava passando por situação análoga. Em certa ocasião, ele conversava comigo, desesperado por ter que tomar tantos remédios. Tive um insight imediato, e lhe disse: “meu amigo, estamos lidando com estes problemas enormes, e o preço da nossa sanidade é só um comprimido”. O insight foi útil a ele, que serenou um pouco; mas foi especialmente útil para mim.
Deixei de tomar medicamentos em 2014, sempre sob acompanhamento médico. Algum tempo depois disso, minha terapeuta me deu alta; mas, passados um ou dois anos, retornei ao tratamento com ela, e ainda o continuo.
Então, o acompanhamento profissional foi um fator essencial para mim; mas não foi o único.
Outro foi, e continua sendo, a formidável rede de apoio que eu tenho, em familiares, amigas, amigos. Sou felix — que significa “afortunado”, em latim. Eu tenho muitas pessoas queridas que me apoiam. Elas são minha fortuna, minha riqueza, minha força.
Há, aqui, um análogo ao fator anterior. Da mesma maneira que todos os medicamentos e cuidados profissionais precisam do meu comprometimento pessoal, o apoio das pessoas queridas depende da minha confiança. Eu confio nelas. Mais ainda, eu confio a elas os meus pensamentos e sentimentos, eu compartilho com elas as minhas dores e dúvidas.
Afinal, ninguém pode ajudar se não sabe que eu preciso de ajuda. Ou com o quê.
Um dos meus aprendizados foi, justamente, aprender que eu não tenho como resolver tudo sozinho. A ajuda assume muitas formas diferentes. Até mesmo simplesmente me ouvir é precioso — porque, quando falo a elas, falo também a mim. O que eu não falo se agiganta, e apodrece dentro de mim.
Outro aprendizado meu é a recíproca disso: aprendi que, quando alguém fala comigo os seus problemas, ela pode não estar querendo que eu arrume uma solução, e nem eu preciso me sentir obrigado a sugerir alguma coisa.
Ah! Palavras são preciosas. Elas mediam a nossa vida com as pessoas à nossa volta. O silêncio fere fundo — e eu fui muito agredido com silêncio.
Então, eu falo, e eu ouço.
Aí estão dois fatores.
Há mais.