Muito do que eu escrevo representa uma tentativa de dar sentido a fatos e ideias.

Sentido: uma direção orientada. Algo vem de um lugar e vai a outro.

Como seria bom se os acontecimentos da vida fossem assim. Ordenados. Com um sentido.

Não são, é claro. São desordenados, e, quando têm sentido, raramente será apenas um. Minhas ideias e reações a eles acompanham esta desordem.

Mas, quando olho para trás e reflito sobre o que passou, procuro criar uma ordem, dar um sentido. Nem a ordem, nem o sentido, estavam necessariamente lá: mas eu faço este ajuste.

Isso não é um exercício fútil. Pelo contrário! Para poder criar ordem e sentido, eu preciso revisitar aqueles momentos — e, ao fazer isso, tenho a oportunidade de encontrar aspectos deles que eu não tinha percebido.

Por um lado, exercito minha capacidade de análise e de raciocínio sobre o passado; por outro, isso serve como orientação para o meu presente.

Não para o futuro…

Lembro de ter lido uma vez, talvez em um livro de Carl Sagan, uma observação sobre os esforços de “ler” o futuro em alguma obra do passado. Era algo mais ou menos assim: todas as “profecias” derivadas de medidas do corredor da Grande Pirâmide são absolutamente exatas… mas somente até ontem!

Claro, pode substituir “Grande Pirâmide” por qualquer outra ferramenta ou obra. Astrologia. Cartas. Estatística. Folhas de chá.

O mesmo vale para as minhas análises! Este é um ponto crucial. Eu sempre tenho em mente que as minhas reflexões servem para me dar orientações sobre como me conduzir agora, hoje.

Mas… tentar prever que efeito isso terá no futuro?

Ha.

Não importa. Quando olho para o passado, pela lente do meu presente, frequentemente encontro lá coisas que não tinha percebido — ou, mais frequentemente, encontro relações que ainda não tinha percebido.

Ordenar o passado é criar os insights do presente. No futuro, eles não serão mais insights, mas vão ajudar a criar os futuros — e o meu futuro.

A História é a mestra da vida, diz o ditado.

E a História fica muito mais interessante quando conta uma história. Quando pode ser narrada.

Então, eu crio uma narrativa, sobre a minha História, para meu deleite. Nesta narrativa, é fácil ver no passado as sementes do presente. É fácil ver o menino apaixonado por livros se transformar no adolescente apaixonado por jogos, os marcos iniciais de um percurso inerrante até o que sou.

Mas, naqueles momentos, eu não estava tomando decisões orientadas para meu eu futuro, como não estou agora. Eu estava apenas vivendo a minha vida, enfrentando os problemas daqueles momentos, como enfrento os de hoje.

Não sou um oráculo, sequer de mim mesmo. Com alguma dificuldade, consigo prever o meu passado; com absoluta facilidade, consigo não profetizar meu futuro.

Nem o seu, gentil leitora.

Não busque aqui uma lente para entender seu passado, ou para prever seu futuro. Com sorte, estes textos poderão ajudar você a criar sua própria lente. Ou a dar-lhe um polimento.