Eu era adolescente quando os jogos se tornaram uma parte importante da minha vida. Aos poucos, foram se tornando uma parte essencial dela. E isto contribuiu, de forma decisiva, para o modo como tenho lidado com o meu transtorno.

Por força de circunstâncias de trabalho e de saúde, minha família passou por muitas mudanças entre meus cinco e oito anos. Em um momento crucial para a formação de amizades infantis, eu era sempre o recém-chegado. Brasília foi a quarta cidade em quatro anos. Aqui minha família ficou, mas eu ainda tive que enfrentar um ano difícil na terceira série, alvo de bullying severo — tanto por um colega quanto pela nossa professora, sua mãe.

Tudo isso contribuiu para que eu fosse um menino retraído. Ainda assim, consegui fazer um grande amigo. Hoje, suponho que ele também era um dos excluídos, embora eu não percebesse isso à época: ele era um dos raros alunos negros em um grande colégio. Alguns anos depois, eu travei amizade com outro recém-chegado, igualmente vítima de bullying, também marginalizado por racismo.

Em meio a tudo isso, jogos ainda não eram importantes — embora jogar Xadrez tenha me ajudado no meu primeiro ano no novo colégio.

Mas, logo ao começar o ensino médio, fui quase simultaneamente apresentado a novos jogos e a novas pessoas, que logo se tornaram grandes amigos. Sem que eu percebesse, eu passei a usar os jogos como ferramenta social, organizando minhas amizades em torno dos jogos. Nada de extraordinário nisso: muitos adolescentes têm ferramentas análogas, suas “tribos”.

De todo modo, grupos de jogadores têm uma facilidade para se tornarem permanentes — e isso aconteceu comigo e com meus amigos, quando criamos a Confraria Lúdica.

Mas os jogos ainda alimentavam outras sedes minhas, além da sede de amizades. Eles estimulavam minha curiosidade, tentando saber mais sobre estes objetos — de onde vinham? como eram? quais formas assumiam? e assim por diante. Foi o começo de um percurso de pesquisa, que ainda não acabou.

Eles também estimulavam meu raciocínio: aprendi tática e estratégia, aprendi a fazer planos e a apreciar o prazer inefável de vê-los darem frutos…

Nunca tive grande interesse por jogos de destreza. Ou jogos sem um forte componente humano. Por vários anos, já adulto, me dediquei a jogos digitais, mas isso não durou. Já o interesse pelos jogos que se jogam sobre uma mesa, cercado por pessoas amigas… este dura, e perdura.

Mas a ferramenta viciou. Faz menos de dez anos que eu voltei a aprender a ter relacionamentos que não precisavam ser mediados por uma mesa de jogo.

Ainda assim, no momento mais crítico da minha vida — lidando com o transtorno psiquiátrico, aposentadoria forçada, e meu primeiro divórcio —, os jogos foram um salva-vidas. Com eles, eu podia me distrair. Mais importante: a rede de fortes amizades que me cerca foi construída, em muito, ao redor de jogos. Ali estavam os apoios, ali estavam mais fatores para me ajudar, para me manter ancorado.

Mas não foi apenas isso. Jogos são um exercício poderoso para a mente, para o cérebro. Cada vez aparecem mais estudos indicando como jogos desempenham um papel para retardar condições de demência senil. Há poucos dias, li um artigo sobre como a capacidade de brincar é importante — mesmo essencial — para a saúde mental de ratos.

Também recentemente, quando comecei a pesquisar um pouco mais sobre o transtorno esquizotípico, levei um susto ao ler que o uso do raciocínio pode ser um fator de proteção, um elemento que pode contribuir para que o quadro não se transforme em algo mais grave.

O susto não foi devido ao impacto da racionalidade em si; por toda a minha vida, sempre prezei muito esta capacidade. O susto foi por outro motivo: por anos, parte importante do meu tratamento, e da minha vida, tem sido o reencontro com o meu lado não-racional.