O Capital contemporâneo, especialmente em seu aspecto digital, faz de tudo para separar as pessoas umas das outras, para isolá-las e submetê-las — subjugá-las! — individualmente. Parte importante deste esforço é a maximização da “cultura” produzida em série, enfatizando as atividades singulares no consumo (por exemplo, “escute a sua música”) e, especialmente, a produção individual de conteúdo, que é reembalado para ser entregue como parte do ciclo.

Estritamente falando, o Capital conseguiu, em enorme escala, algo que os músicos profissionais cedo aprendem ser uma armadilha cruel: “toque de graça no meu bar, assim você ganha exposição”. O equivalente digital, abraçado por uma enormidade de pessoas, é “use sua criatividade, seu tempo, seus conhecimentos, produza conteúdo e nos entregue de graça, em troca de um palco infinitesimalmente minúsculo onde você pode ganhar exposição”.

Ah! Mas jogar vai contra esta maré, contra esta vaga que sempre tenta nos afogar. Não falo aqui dos jogos digitais, que muitas vezes terminam por se tornar parte essencial deste ciclo de exploração e isolamento. Falo dos jogos que se jogam pessoalmente, diretamente, compartilhando olhares e vozes. Seja um jogo de tabuleiro, um RPG, um jogo de cartas, um jogo desportivo.

Qualquer que seja a forma, quando jogamos — brincamos! — com outras pessoas, estamos negando este projeto cruel de isolamento, estamos compartilhando a nossa humanidade… estamos resistindo.