Os textos que compõem este livro são um verdadeiro presente para mim. Como em uma partida de um bom jogo, eles me trouxeram algumas surpresas e várias emoções — especialmente uma grande alegria.
Ao longo dos anos, um dos papéis que eu mais venho desempenhando é o de ser o facilitador, o catalisador, mesmo o “padrinho” de tantas pessoas que se envolvem com jogos, e de várias de suas iniciativas. Algumas delas são mencionadas neste livro, e fico profundamente feliz em poder ler isso.
Mas agora é minha vez de responder à pergunta que eu mesmo me coloquei: o que os jogos significam para mim?
Os jogos se tornaram uma das lentes pelas quais eu enxergo o mundo.
Escrevo esta resposta numa linha, mas quanto há dentro dela!
Sempre procurei ter em minha casa jogos que atendessem a gostos muito variados, indo muito além do meu. Isso começou como um gesto de hospitalidade, mas também acabei descobrindo que o jogo revela muito sobre quem joga — e isso não acontece à toa.
Como espécie, não sabemos porque jogamos. Lembro sempre de um dos Três Mosqueteiros, Porthos, perguntado porque iria duelar com d’Artagnan: “Eu me bato porque me bato!” Eu jogo porque jogo…
Há quem suponha que jogamos para treinar habilidades de que precisamos em nossas vidas. Pode haver algo nesta ideia. De forma geral, não diretamente: é claro que jogar Pandemic não capacita ninguém a um trabalho como epidemiologista — mas pode ajudar alguém pouco dado à matemática a compreender a rapidez com que uma doença pode se espalhar. Jogos também podem ajudar a desenvolver algumas formas de raciocínio, mas certamente não são o único meio para isso.
Penso que o que melhor aprendemos nos jogos não tem nada a ver com o tema dos jogos, ou mesmo com o que fazemos neles. Nós estudamos pessoas.
Quando entramos no círculo mágico de um jogo, temos que usar as “máscaras” apropriadas a ele. Passamos a ser estrategistas — financistas — generais — aventureiros — zagueiros.
Paradoxalmente, para podermos envergar as máscaras especiais daquele jogo, despimos muitas das máscaras que usamos no dia-a-dia — e, mesmo mascarados, revelamos aos nossos companheiros de jogo como somos.
Há aqui um poder e uma vertigem que inebriam; não é à toa que muitos preferem se afastar dos jogos quando suas vidas os levam para onde precisam vestir máscaras o tempo todo.
Mas há mais, em jogo, do que perceber quem somos sob as nossas máscaras cotidianas. Há as regras…
Falamos muito da competição dos jogos, mesmo da agressividade neles. Mas todo jogo é cooperativo! Quando jogamos, estamos agindo em comum acordo para criar aquele jogo e para conduzi-lo. Mesmo o jogo mais competitivo depende deste fundamento cooperativo, depende que os participantes estejam todos criando e implementando as mesmas regras. Nossa competição somente faz sentido quando realizada em conformidade com as regras do jogo.
Então, quando jogamos aprendemos a lidar com regras — aprendemos a criar regras para nós mesmos, e aprendemos a entender o que acontece quando elas não são respeitadas.
Nossa espécie se chama Homo sapiens — o hominídeo que pensa. Claro, esta não é a nossa única dimensão. Também somos o Homo ludens de Huizinga — o hominídeo que brinca. Mas somos, especialmente, Homo regulans, o hominídeo que cria regras, e que as procura mesmo onde não existem. Queremos o conforto das regularidades da vida; queremos que o círculo mágico nunca acabe.
Aprender a jogar envolve aprender a lidar com vitória e derrota; mas também envolve aprender a lidar com o fim do encantamento.
Deus quis que os homens naturalmente tivessem todas as formas de alegria para que pudessem suportar os desgostos e tribulações da vida, quando lhes sobreviessem. Por isso os homens procuraram muitos modos de realizar com plenitude tal alegria e criaram diversos jogos que os divertissem.
— Alfonso X de Castela, Livro dos Jogos (1284)