Desde cedo o meu entusiasmo por jogos em geral era visível. Na infância e adolescência, os jogos que eu tinha acesso eram usados sempre que possível. Minha preferência sempre recaía nos jogos mais elaborados, que envolviam alguma estratégia ou criatividade.

Caixa Negra, War, Scotland Yard, Combate, Detetive, Xadrez Chinês e Ladrões no Bosque eram alguns dos meus preferidos. Juntamente com colegas da época cheguei a criar alguns jogos mais simples, pelo simples prazer de jogar algo feito por nós mesmos.

Porém o divisor de águas foi quando eu estava no primeiro ano do segundo grau, em 1987, e conheci um RPG (Role Playing Game) chamado Middle Earth Role Playng Game (MERP). Baseado na obra de Tolkien, um escritor inglês que eu já adorava, esse jogo me entusiasmou a tal ponto, que nas vésperas das partidas eu tinha muita dificuldade para dormir. A possibilidade de viver um personagem, experimentando aventuras infinitas e criando histórias com seus amigos em mundos de ficção, me fisgou definitivamente. Desde então nunca mais parei de jogar RPG dos mais variados gêneros.

Na época, era muito difícil conseguir um RPG, pois todos eram importados e não existia a Internet. Conseguíamos algumas xerox dos livros de regras que eram compartilhados como um tesouro. Com o passar do tempo foram chegando outros RPGs, inclusive alguns traduzidos para o português, e aos poucos foram se tornando mais comuns.

Era engraçado quando tentávamos explicar para quem não conhecia o conceito do jogo, pois a maioria não entendia. Uma certa época foi muito incompreendido e era confundida até com “seitas diabólicas”. Eu sempre tentava compará-lo com uma peça de teatro falado que o roteiro era escrito em tempo real por um grupo de amigos exercitando sua criatividade de forma divertida e interessante.

E falando em amigos, os melhores conheci jogando RPG, e os conservo até hoje com orgulho. Na universidade (UnB) tive a sorte de achar algumas pessoas com quem vivi aventuras memoráveis e inesquecíveis. Esse tipo de coisa cria laços muito fortes e foi um dos meus maiores ganhos com o RPG.

Realmente devo muito aos RPGs. Melhorei muito meu inglês, expandi meu conhecimento em geral, exercitei minha criatividade, conquistei amigos para a vida e me diverti muito: ri e chorei com diversas histórias incríveis em lugares fantásticos e cativantes. E, além disso tudo, também me ajudou a passar por momentos difíceis, como uma terapia — uma válvula de escape. Com mais de 30 anos de RPG nas costas, ainda sinto aquele entusiasmo no início de uma aventura. por tudo isso, pretendo jogar até o fim de meus dias…