Os trabalhos publicados neste livro tratam do uso de jogos em vários tipos de intervenções. Vale a pena, então, discutir um pouco a natureza dos jogos, e como podem ser usados na prática.

Muitas criações humanas imitam fenômenos naturais, ou se inspiram neles. Por exemplo, os assentos contemporâneos, mesmo os mais elaborados, são todos descendentes de simples pedras ou tocos de árvores, onde nossos antepassados se sentavam.

Mas também temos criações que vão, progressivamente, se afastando do mundo palpável, e tendo uma natureza mais abstrata. É o caso da matemática, por exemplo. Nela, criamos uma linguagem abstrata — que, sim, começou pela observação do mundo natural, e que ainda inclui construções que podem ser aplicadas a fenômenos naturais. Mas a validade da matemática não depende desta aplicabilidade.

Sejam mais palpáveis ou mais abstratas, todas estas criações humanas são ferramentas, que usamos para modificar o mundo, ou a maneira como o percebemos.

Uma das ferramentas mais abstratas, que se revelou muito útil para a nossa evolução como espécie, é a regularidade. Nós procuramos regularidades na natureza, por exemplo. Isso foi essencial para a nossa sobrevivência: afinal, quem identifica regularidades consegue passar à previsibilidade — seja a previsão de um eclipse, ou da cheia de um rio, ou de uma colheita.

O ponto interessante, aqui, é a maneira como usamos esta ferramenta: nós formulamos regras. Ou seja, nós usamos a linguagem para criar um tipo especial de frases: os enunciados normativos. Já vamos explorar um pouco mais este conceito, mas antes vamos ver alguns exemplos.

“O Sol nasce no Leste e se põe no Oeste”. Aqui está uma regularidade encontrada na natureza, bem conhecida. Uma regra bem fácil. Vamos ver uma outra regra. “As mulheres devem obediência aos homens”.

Ah! Exemplo provocante, este último. Na sociedade em que vivemos, esta regra está deixando de ser usada; mas era algo quase inconteste, não faz muito tempo; e muitas sociedades mundo afora ainda a consideram válida.

Existem dois pontos comuns entre os dois exemplos. O primeiro é que, nos dois casos, são regras arbitrárias. Ou seja, quem as formulou poderia ter feito isso de maneira diferente. Por exemplo: “o Sol nasce no Oeste e se põe no Leste”. Ou “os homens devem obediência às mulheres”. Talvez mesmo algo revolucionário, radical, como “não existe dever de obediência mútua entre homens e mulheres”.

Vale lembrar que “arbítrio” não é “arbitrariedade”. Arbítrio é uma escolha, pensada, entre várias possibilidades. Arbitrariedade tem a ver com caprichos, com abusos de confiança e de poder. Quando dizemos que as regras são arbitrárias, estamos falando de arbítrio e não de arbitrariedade.

Ainda voltaremos a este ponto, mas antes vamos ver o segundo ponto comum entre os dois exemplos. Desta vez, a maneira como estas regras funcionam, quando são aplicadas na prática.

“O Sol nasce no Leste e se põe no Oeste” é uma regra simples e elegante. Para muitas finalidades práticas, é bem suficiente. Mas ela se torna inadequada quando observamos que, ao longo do ano, a posição exata de nascimento do Sol vai mudando. Dependendo da localização geográfica, a variação pode ser considerável.

Tudo bem… a regra pode ser aperfeiçoada.

“O Sol nasce em uma posição, por convenção chamada Leste, que é determinada pela geometria da inclinação do globo terrestre, combinada com a latitude do observador e a época do ano…”

Curioso como esta nova regra pode até se aplicar melhor ao fenômeno, mas ficou muito menos satisfatória para muitas pessoas. De todo modo, satisfatória ou não, temos esperança de que seja melhor em termos da previsibilidade resultante de seu uso.

E quanto ao segundo exemplo? Mesmo em uma sociedade que a utilize, é fácil perceber que as coisas não são assim tão simples, e que ela também acaba precisando ser “aperfeiçoada”. Por exemplo: “as mulheres devem obediência aos homens, exceto se forem emancipadas e solteiras, ressalvado os direitos dominiais sobre bens herdados, para cujo exercício exigem outorga …”

Horrível.

O ponto importante, aqui, sobre os dois exemplos, é o seguinte: criamos regras simples, elegantes, fáceis… que, na prática, não se mostraram adequadas, e exigiram mudanças, aperfeiçoamentos. Tudo bem — afinal, regras são arbitrárias, mas nada garante que o exercício do arbítrio será coroado de êxito desde o início. Vamos manter isso em mente… porque, como veremos mais adiante, mudar regras pode ser algo absolutamente crucial.

Ao compararmos estes dois exemplos, notamos os dois pontos comuns tratados acima. Mas também vale a pena discutir uma diferença fundamental entre os dois exemplos. A regra sobre o nascimento do Sol é o que gostamos de chamar de “leis naturais”. Ao enunciar uma “lei natural”, há nela mais do que uma simples descrição: há também a convicção de que a mesma coisa continuará a acontecer no futuro. De todo modo, qualquer que seja a nossa “lei natural” sobre o nascer do Sol, o fato é que ele vai continuar a acontecer à sua maneira… que pode até combinar com nossa preciosa “lei natural”.

Já a regra sobre deveres de obediência é inteiramente diversa. Ela não parte da descrição de um fenômeno natural, para então chegar a uma expectativa e uma convicção de que o mesmo fenômeno continuará acontecendo, com regularidade, sempre da mesma maneira. Ela é uma regra social — uma regra que precisa ser realizada pelos integrantes daquela sociedade, porque nenhuma regra social funciona por si mesma. Por exemplo, quase todas as sociedades incluem uma norma equivalente a “é proibido matar”… mas esta norma, por si, não faz com que homicídios deixem de acontecer.

Em termos jurídicos, as regras sociais têm destinatários: as pessoas a quem elas se dirigem, e que vão torná-las realidade. Já as “leis naturais” não têm destinatários… os fenômenos naturais vão continuar acontecendo à sua maneira, quaisquer que sejam as “leis” que criemos para procurar suas regularidades.

Estes dois tipos de regras são expressos de maneira semelhante; mas o fato de haver destinatários nas regras sociais muda completamente o significado das frases. Dizer que “o Sol nasce no Leste e se põe no Oeste” descreve algo que aconteceu no passado, de forma tão regular, que ganhamos confiança que continuará a acontecer no futuro — temos a nossa almejada previsibilidade.

Mas dizer “a mulher deve obediência ao homem”, ou “é proibido matar” é algo distinto. Aqui, estamos no mundo de como as coisas devem ser. Os xamãs, potentados e juristas podem até estar convictos que é “natural” que a mulher obedeça ao homem — mas isso somente vai acontecer se os destinatários desta regra, de fato, agirem assim.

É muito fácil identificar se uma regra é uma regra social, e tem destinatários, ou se é uma “lei natural”, que apenas se esforça por descrever a natureza, da melhor maneira possível. Basta responder a uma pergunta-chave: “A regra pode ser transgredida?”

Uma “lei natural” até pode ser inadequada, e terá que ser aperfeiçoada… mas os fenômenos naturais não vão transgredi-la, não vão burlá-la. Não trapaceiam, não desobedecem. Mas regras sociais estão sujeitas a uma forma de arbítrio, por parte de todos os seus destinatários: elas podem ou não ser realizadas. Os destinatários de uma regra social podem decidir transgredi-la. Também podem simplesmente errar.

Por isso, as regras sociais mais importantes são, frequentemente, acompanhadas de outras regras sociais. Por exemplo, “é proibido matar” é frequentemente acompanhada por regras como “se você matar, os herdeiros da vítima vão matar você”, ou “se você matar, o Estado vai prender você”.

Isso nos traz a um ponto absolutamente crucial sobre as regras: elas não existem de forma isolada. Nossas sociedades usam grandes sistemas de regras — sistemas normativos. As regras “conversam” entre si, afetando umas às outras. Mais acima, o “aperfeiçoamento” do segundo exemplo levou em conta exatamente o sistema normativo daquela sociedade. Quando os xamãs, potentados e juristas criaram a singela regra “as mulheres devem obediência aos homens”, não levaram em conta que outras regras, dentro daquele sistema normativo, criariam situações nas quais seria inviável querer executar aquela regra.

É por isso que é o arbítrio, e não a arbitrariedade, que melhor governa a criação de regras. O arbítrio pondera alternativas que fazem sentido dentro daquele sistema normativo; já a arbitrariedade corre o risco de criar regras que se afastam do sistema, a ponto de perderem o sentido.

Toda sociedade humana, de qualquer tipo, depende de regras para o seu funcionamento, para a sua própria existência. Fica claro, então, que temos nas regras uma ferramenta abstrata de grande importância, de grande efeito. Mais ainda: regras são uma ferramenta que todos precisam aprender a usar — porque todos os membros de uma sociedade são destinatários de suas regras sociais! Como qualquer ferramenta, seu uso não é instintivo, mas tem que ser aprendido; como qualquer ferramenta, pode ser usada para criar resultados maravilhosos ou horrendos.

Podemos traçar um fácil paralelo com uma outra ferramenta essencial, a linguagem. Toda sociedade se esforça por ensinar suas linguagens aos novos membros. Com crianças, por exemplo, existe todo um arsenal de métodos de ensino da linguagem — cantigas de ninar, histórias, conversas, rimas e parlendas, e assim por diante. Aprender a lidar com a linguagem é uma parte fundamental da nossa formação humana — e não é coincidência que lidar com a linguagem envolve usar as regras da linguagem!

Aprender a lidar com regras também faz parte da nossa formação humana, exatamente como acontece com a linguagem. Nossa espécie também desenvolveu um arsenal de métodos para transmitir os nossos conhecimentos sobre as regras, e ensinar a lidar com elas. São os jogos.

Agência

Um jogo é uma aplicação direta de um sistema de regras. O mundo dos jogos é imensamente fluido e dinâmico, mas um dos raros pontos em comum entre todos os jogos é que todos eles têm regras. Aprender um jogo envolve aprender as suas regras, claro. Mas não só isso. Também envolve aprender a usar as regras: como é possível jogar (e, possivelmente, vencer), realizando apenas comportamentos permitidos pelas regras?

Há mais. O que fazer quando notamos um erro — por exemplo, uma peça movida de forma incorreta? Ou o que fazer quando alguém transgride, propositalmente, as regras? E se não for propositalmente? Vamos ainda mais longe. Se regras são arbitrárias, por que não mudá-las? “Vamos tornar o jogo mais interessante: a partir de agora, cada jogada tem que ser feita em dez segundos!“. Tudo isso é o “lidar com regras”, que podemos aprender em jogos.

Aprender e entender as regras.

Colocá-las em prática.

Identificar erros e transgressões, e lidar com eles.

Transformar as regras.

Quando alguém aprende a lidar com as regras, adquire o domínio sobre uma das nossas ferramentas mentais fundamentais. Adquire agência sobre as regras. Nós usamos as regras como uma lente para ver o mundo, procurando nele nossas regularidades. E nós usamos as regras para criar e manter as nossas sociedades, regulando as relações entre as pessoas.

Subitamente, a frase “isso é só um jogo” perde um pouco do seu sentido.

Elementos

Tradicionalmente, um jogo tem componentes: os elementos usados para jogá-lo. Frequentemente, eles têm uma dimensão física — uma peça de madeira, uma bola de couro, imagens em uma tela. Mas também podem ser inteiramente imaginários, “virtuais”.

De forma geral, quando pensamos em criar um jogo, pensamos em seus componentes, e nas suas regras. Isso está correto, mas incompleto. O conjunto de componentes e regras não é um jogo, e sim o potencial para um jogo — porque uma das dimensões do jogo é ser uma atividade. Faltam as pessoas que transformam o potencial em realidade; as pessoas que usam componentes e regras em uma atividade. Faltam os jogadores.

Na verdade, faltam mais do que jogadores — porque, muitas vezes, os jogos envolvem outros participantes. Pode ser um árbitro em um jogo desportivo — ou a torcida! Pode ser uma mãe, ou um pai, incentivando seus filhos a jogarem, ou restringindo os horários em que podem fazê-lo. O jogo não é estanque; os seus limites são porosos. Um tipo especial de participante, que pode ou não ser um jogador, é o mais relevante neste livro. É o facilitador dos jogos, o mediador lúdico.

São muitas as variações possíveis, mas isso não é de surpreender; dada a imensa plasticidade dos jogos, as maneiras de empregá-los são também muito diversificadas. No caso das intervenções baseadas em jogos, sobressai o seu uso como uma ferramenta para finalidades terapêuticas, pedagógicas, investigativas.

Vale a pena realçar que não há qualquer novidade em usar o jogo como uma ferramenta para mudar o comportamento humano: os jogos sempre fizeram isso, afinal! O seu poder para realizar estas mudanças reside na sua graça, que funciona como um poderoso chamativo e motivador para os participantes. Reciprocamente, assim como os jogos mudam o comportamento dos seus participantes, estes também mudam os jogos, usando a sua agência.

Estas mudanças e transformações podem ser sutis ou mais evidentes, mas sempre estão presentes. Não se pode jogar duas vezes o mesmo jogo; ainda que todos os jogadores repitam exatamente todas as suas jogadas, eles próprios já não são os mesmos.

Isso nos traz a um ponto absolutamente crucial: quem está usando o jogo pode adaptá-lo, modificá-lo, para melhor atender às necessidades da intervenção. Isso pode envolver alterações dos componentes, claro. Mas, com grande frequência, envolve também alterações das regras do jogo. Podem ser alterações singelas, como não levar uma partida até o fim, ou colocar dois participantes, agindo em conjunto, como um jogador único.

Podem ser alterações drásticas — “o seu objetivo agora é perder a partida!“. A agência sobre as regras é uma ferramenta essencial para o uso de um jogo em uma intervenção… e este é o ponto-chave da atuação dos mediadores lúdicos.

Mediadores lúdicos

O papel de um mediador lúdico é crucial em um processo de intervenção baseada em jogos. Ele cumpre o papel de um psicopompo; mas, ao invés de guiar almas pelo caminho além da vida, este psicopompo guia os sujeitos de uma intervenção pelo jogo que está sendo usado. Frequentemente, este papel envolve ensinar as regras, ajudar os sujeitos a se tornarem jogadores. Também pode incluir participar diretamente do jogo, como um jogador. O mediador lúdico também é um observador. Em algumas intervenções, o mediador lúdico é o responsável pela intervenção; mas ele também pode ser um agente auxiliar do profissional responsável pela intervenção.

O elemento fundamental para a formação de um mediador lúdico é dar-lhe o uso de uma “caixa de ferramentas” — vale dizer, familiarizá-lo com uma variedade de jogos, de forma crítica. De pouco adianta conhecer apenas um ou dois jogos, ainda que sejam conhecidos de forma extensa. Uma parte essencial do trabalho do mediador lúdico é a sua agência para transformar os jogos; mas, se ele não conhece outros jogos, a sua criatividade para exercer esta agência fica limitada.

Considerações finais: indo além

Há uma brincadeira entre criadores de jogos: o processo criativo sempre começa com um jogo muito ruim. O segredo é aperfeiçoar este jogo muito ruim, com sucessivos testes e refinamentos.

O jogo é um artefato, criado por humanos para atender a seus desejos e finalidades. O jogo é uma atividade humana, um processo que se desenvolve no tempo. Principalmente, o jogo é a sintese humana que criamos de tudo isso.

O jogo é, quase sempre, uma atividade envolvendo mais de uma pessoa. Claro, ele pode ser inteiramente solitário, se eu crio um jogo para jogar sozinho. Mas, se eu ensino esta criação para outra pessoa, estabelecemos uma relação lúdica: o jogo desabrocha, floresce, se transforma.

A graça do jogo está nas diferentes respostas que ele provoca nos seus participantes. Alegria, tensão, interesse, desafio, perplexidade, tédio, medo. Sabemos disso há muito tempo, pois é o que nos impele a jogar; mas a neuropsicologia do jogar mal começou a ser explorada.

Este livro traz as investigações do nosso grupo de pesquisa, apontando alguns caminhos para esta exploração. Várias delas apresentam resultados muito promissores. Mas o processo do conhecimento científico funciona como a criação de um jogo: o que importa não é o estado atual, e sim os aperfeiçoamentos que vamos fazer. Assim, o que apresentamos aqui é também um desafio — aos leitores, claro, mas especialmente a nós mesmos. Vamos prosseguir esta exploração?

Recomendações de leitura

ABT, CLARK C. Serious Games. Lanham: University Press of America, 1987.

DUARTE, Luiz Cláudio S.; BATTAIOLA, André Luiz; SILVA, Adelaide H. P. “Cooperation in Board Games”. Anais do XIV Simpósio Brasileiro de Jogos e Entretenimento Digital. Sociedade Brasileira de Computação, 2015.

DUARTE, LUIZ CLÁUDIO SILVEIRA. Homo regulans: desvendando a regra do jogo. Pontal do Paraná: edição do autor, 2022.

HUIZINGA, JOHAN. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. Traduzido por João Paulo Monteiro. São Paulo: Perspectiva, 2008.

NGUYEN, C. THI. Games: Agency as Art. Oxford: Oxford University Press, 2020.

RUSSEL, WENDY; RYALL, EMILY; MACLEAN, MALCOLM (eds). The Philosophy of Play as Life. London: Routledge, 2018.

SALEN, KATIE; ZIMMERMAN, ERIC (eds). Regras do jogo: Fundamentos do Design de Jogos. Traduzido por Edson Furmankiewicz. São Paulo: Blucher, 2012.

SCHREIBER, IAN. Game Design Concepts. url: http://gamedesignconcepts.wordpress.com/

SUITS, BERNARD. The Grasshopper: Games, Life, and Utopia. Peterborough: Broadview Encore Editions, 2005.