O que está na folha de papel são as regras formais do jogo. Há muito mais além delas, como já mencionei antes, quando falei em minha experiência aprendendo o Truco. Mas vamos ficar nas regras formais, por enquanto.
Elas identificam os componentes do jogo, e dizem como nós, jogadores, podemos usá-los para realizar lances, ou jogadas. Também dizem como são o início e o fim do jogo, e se há um vencedor.
Vamos esmiuçar isso um pouco, pegando esta lista pelo seu fim. Vencer é cumprir uma condição que somente faz sentido dentro do próprio jogo. Quem acumula mais dinheiro no Monopoly vence a partida, mas não enriquece fora do círculo mágico.
Essencialmente, as regras do jogo definem uma situação qualquer, dentro do jogo, e lhe atribuem um significado — vitória.
Em alguns jogos, quando um jogador chega à situação vitoriosa, isso também encerra a partida — é o caso do Moinho, ou do Xadrez. Mas não precisa ser necessariamente assim: às vezes, existe uma condição que determina o fim de partida, mas o vencedor não será necessariamente quem a encerrou — é o caso do Buraco.
As regras sobre o início e o fim da partida têm uma relevância especial: elas definem o tempo em que as regras do jogo valem. Com elas, sabemos quando o círculo mágico começa a existir, e quando ele acaba — elas definem a sua duração, a sua extensão no tempo.
Outras regras definem a extensão do círculo mágico no espaço.
Também há regras dizendo quem são os jogadores e quais são os componentes que eles podem usar.
Todas estas são regras constitutivas. Elas nos dizem como criar o círculo mágico, quanto tempo ele dura, quem pode entrar nele, e o que existe dentro dele.
Sento-me à mesa com uma amiga, arrumamos as peças, e começamos a jogar. Neste momento, ela e eu nos tornamos jogadores, e as peças adquiriram seus significados. Se uma mosca pousar no tabuleiro, posso espantá-la sem que isso tenha efeito no jogo — porque as regras do jogo não atribuem um significado a uma mosca eventual. Espero conseguir espantá-la sem bagunçar as posições das peças…
As regras constitutivas falam no começo e no fim do jogo, e falam quem joga e com o quê. Também falam o que queremos alcançar, dentro do jogo. Mas não falam como fazer isso.
Esta tarefa cabe às regras operacionais. Na Amarelinha, as regras constitutivas me levam a traçar as casas no chão, mas são as regras operacionais que me dizem quais movimentos posso fazer com meu corpo.
Com as regras constitutivas, somos iniciados no mistério do jogo: passamos o umbral do círculo mágico e estamos prontos para agir dentro dele. Mas as regras operacionais também têm seus segredos…