Estudo jogos há muitos anos. Uma das consequências deste estudo é ampliar o meu conceito sobre eles; nestas poucas páginas até agora, é possível que você já tenha estranhado alguma das minhas referências a jogos, e muito provavelmente encontrou referências a alguns dos quais nunca ouvira falar.

Até aí, nada de novo. Mas já vi, muitas vezes, um comportamento que me chama a atenção. Se pergunto a uma pessoa qualquer “que jogos você conhece?”, na imensa maioria das vezes recebo como resposta alguns dentre Banco Imobiliário, Detetive, War, Jogo da Vida — e é muito raro que todos os quatro sejam mencionados.

Curiosa cegueira. Buraco, Truco, Mico Preto são jogos de cartas familiares a muitas pessoas. Bola de Gude, Dominó, Jogo da Velha também são jogos, e também são muito difundidos. Há outros — muitos! —, de outros gêneros.

E eu não consigo supor que uma grande parte dos brasileiros nunca tenha ouvido falar em Futebol ou Vôlei

Como eu disse, minha perspectiva sobre o que seja jogo é bastante ampla. Mas, nisso, sou apoiado pelo que demonstramos em nossa própria língua: falamos em jogar Futebol, por exemplo.

Muitos esportes são, sim, jogos — jogos desportivos. Nestes jogos, a perícia e a destreza físicas às vezes são mais importantes que as mentais. Mas, assim como acontece em jogos disputados sobre uma mesa, os participantes estão sujeitos a regras que limitam as suas ações; têm objetivos bem definidos; e frequentemente distingue-se um vencedor entre todos, sempre conforme as normas da disputa — as regras do jogo.

Podem mesmo ser os jogos mais antigos da nossa espécie. Disputas desportivas têm relatos antiquíssimos; e a mais famosa de todas elas, a Olimpíada, procura sua história nos Jogos Olímpicos da Grécia antiga, iniciados pelo século VIII aC. Os gregos usavam jogos desportivos como forma de culto e de comemoração, em muitas ocasiões, e este uso foi adotado pelos romanos.

Durante a Idade Média, os torneios eram outras tantas disputas desportivas. Nossa imaginação sobre este período, muitas vezes, pinta cenas de combate usando as armas e armaduras vistosas que conhecemos da arte; mas muitas destas eram equipamentos desportivos, nada práticos para uso no campo de batalha.

A criação dos Jogos Olímpicos modernos, no fim do século XIX, foi causa e consequência do ressurgimento de um interesse por atividades físicas. Datam do mesmo período a invenção e a codificação de muitos dos jogos desportivos contemporâneos: Futebol, Basquete, Beisebol, Pentatlo Moderno

Muitos destes apresentam a distinção de serem disputados por equipes — times (teams). São, então, jogos competitivos, que usam a cooperação como parte essencial da disputa. Mais adiante, voltarei a falar na cooperação em jogos, pois ela mostra ser uma característica de grande importância.

Outra característica destaca jogos desportivos de outros jogos: é comum que haja envolvimento de outros participantes, para além dos jogadores / atletas. Dependendo do jogo, podemos ter torcedores, árbitros, profissionais de imprensa, dirigentes esportivos, pessoal médico… toda uma série de pessoas envolvidas com o jogo, em maior ou menor grau. Embora esta seja uma marca dos jogos desportivos, ela está presente, em menor grau, em outros jogos, como veremos mais adiante.

A natureza comum entre jogos desportivos e outros tipos de jogos facilita a criação de jogos “paralelos”: jogos em outros meios de expressão, que espelham os acontecimentos de um jogo desportivo. Por exemplo, a série de jogos digitais com a marca FIFA, publicados pela EA Games desde o FIFA International Soccer (1993); ou o jogo de tabuleiro Escrete, criado por Chico Buarque de Holanda; ou ainda os jogos publicados pela Avalon Hill, que mencionei no capítulo anterior.

Estes últimos, em particular, ilustram uma diferença cultural interessante entre brasileiros e americanos. No Brasil, sempre houve uma tendência a valorizar principalmente a capacidade do atleta, a sua “arte”; já nos EUA, os esportes coletivos tipicamente têm grande ênfase na estratégia das equipes. Lá, estatísticas e táticas são temas de estudo e de discussões apaixonadas. Assim, não é de surpreender que jogos de estratégia desportiva — como os publicados pela Avalon Hill — pudessem prosperar por décadas.

Jogos desportivos por equipes ainda têm mais uma característica que traz consequências importantes para a sua realização. Vamos imaginar uma partida de Basquete, com cinco jogadores em cada um dos times. Os lances e jogadas vão se sucedendo, e ao final do tempo da partida há um resultado dela — seja uma vitória ou um empate.

Mas esta partida, com todos os seus lances, jogada por dois times, foi disputada no âmbito de um campeonato. Então, toda ela foi um dos lances de um jogo maior, disputado por vários times, muitos deles ausentes daquela partida.

Um campeonato é um jogo cujas jogadas são partidas de outro jogo. Existem regras para as partidas do jogo-base, e existem regras distintas para o campeonato. Aquele é disputado por atletas; este é disputado por equipes.

Uma das consequências disso é que, do ponto de vista do jogo-campeonato, o resultado do jogo-base pode ou não ser importante… e isso pode levar a situações como a da partida de Futebol entre Alemanha Ocidental e Áustria na Copa do Mundo de 1982 (a “Vergonha de Gijón”), quando as duas equipes apenas fingiram jogar em campo — porque o resultado pífio da partida beneficiava ambas no jogo maior da Copa.

Voltarei a falar de jogos desportivos em outros pontos do livro. Por enquanto, retorno ao mundo dos jogos nos quais raramente suamos a camisa.