Olhamos dentro da caixa e encontramos os componentes do jogo, olhamos fora dela e encontramos os participantes — principalmente os jogadores — , e finalmente lemos a folha de papel, para nela encontrar regras. Como tudo isso se combina, para criar um jogo?

As regras estabelecem relações entre os componentes e os participantes do jogo. Elas têm validade apenas dentro do círculo mágico, verdade; mas, dentro dele, definem elementos e as relações entre eles.

Em outras palavras, o jogo pode ser interpretado como um sistema.

No nosso cotidiano, frequentemente usamos esta palavra para nos referirmos a programas de computador — especialmente quando algo não funciona como esperado: “foi o sistema”, esta divindade onipotente e onipresente, que se diverte em causar problemas.

Mas este é um uso derivado, e apequenado, de um conceito abstrato mais amplo, e muito útil. Em especial, é um conceito que nos oferece uma “lente”, pela qual podemos observar o jogo, e notar nele alguns aspectos interessantes.

O primeiro é o do dinamismo. Um sistema estático é quase uma contradição; sistemas são uma maneira de interpretarmos processos relacionados entre si — ou seja, atividades que acontecem ao longo de algum tempo. No caso do jogo, já vimos como ele tem uma duração no tempo, determinada pelas regras constitutivas. Enquanto dura a partida, os participantes usam os componentes do sistema-jogo, criando e manipulando as relações entre eles conforme as regras.

O que está dentro da caixa, ou encerrado em um dispositivo digital, ainda não é um jogo: é o potencial para um jogo. Quando a caixa é aberta, e a atitude lusória de algumas pessoas cria o círculo mágico, o potencial se transforma em jogo — uma atividade que se desenvolve no tempo.

O segundo tem a ver com classificações de sistemas. Aqui, não quero discorrer sobre a Teoria Geral dos Sistemas e sobre suas ramificações; mas quero chamar a atenção para um tipo especial de sistemas, entre os quais estão os jogos. São os sistemas adaptativos complexos (SACs). Estes sistemas são muito comuns, e lidamos todos os dias com um deles — a linguagem.

O “adaptativo”, aqui, diz respeito à capacidade dos participantes do sistema reagirem a mudanças nele, levando a mais mudanças. No caso do jogo, isto corresponde à situação corriqueira de um jogador fazer um lance, e isso provocar respostas de outros jogadores, com seus lances, em um encadeamento contínuo.

Já a parte “complexa” não quer dizer “difícil”; ela se refere a complexidade no sentido matemático — que deriva, justamente, da parte adaptativa humana. Uma jogada qualquer pode provocar um sem-número de respostas diferentes.

A classificação dos jogos como SACs não esgota a utilidade teórica deste conceito. Eles também podem ser interpretados como sistemas de informação, como já havia sido notado por Redmond Simonsen, em seu trabalho com jogos de guerra da SPI.

De forma geral, percebemos com mais facilidade os elementos de um sistema, mas não as relações entre eles. É fácil olhar para dentro da caixa e ver ali os componentes, e mesmo lançar os olhos fora dela e ver as pessoas; da mesma maneira, é fácil olhar para um prado e ver ali os vegetais e animais. Mas são as relações entre estes elementos que criam os sistemas — seja a partida de um jogo, seja a ecologia de um ambiente. Como mencionei na Apresentação do livro, lá no começo, podemos então falar na ecologia do jogo — ou melhor, na ecologia dos jogadores.

Interpretar os jogos como sistemas ainda traz a vantagem de destacar as suas interações com outros sistemas, e isso oferece uma perspectiva útil para analisarmos o que acontece neles.

Alguns destes outros sistemas também são jogos, como os campeonatos — e isso ajuda a interpretar transgressões como a “Vergonha de Gijón” ou a do jogo de Cricket.

Outros sistemas têm muito pouco a ver com jogos. Quando um pai manda os filhos interromperem o jogo para irem jantar, o jogo foi diretamente afetado pelo sistema familiar.

O círculo mágico não é estanque, e levamos para dentro dele a nossa participação e as nossas relações em outros sistemas.


Aí estão, finalmente, tanto os elementos do jogo quando a sua duração no tempo. Podemos interpretar o jogo como um sistema, cujo funcionamento é determinado por regras.

Mas isso não é uma definição! É apenas uma maneira de interpretar estes fenômenos maravilhosamente variados. Para chegar a esta interpretação, lancei mão de várias ferramentas conceituais; agora, quero explorar aonde elas podem nos levar, especialmente pensando nas regras e em nossas relações com elas.