Perguntei, na Introdução, quando nossa espécie começou a brincar, e disse que provavelmente é impossível responder. O mesmo vale para a dúvida de quando colocamos regras nas brincadeiras, quando começamos a jogar. Regras escritas são um desenvolvimento muito recente na nossa história; muitos jogos são transmitidos oralmente.
Mesmo em uma sociedade contemporânea, isso é imprescindível para alguns jogos. Veja o caso do Truco. Uma parte importante da graça deste jogo é a interação entre os jogadores: blefes, gritos, brincadeiras, e assim por diante. Exceto por isso, ele é um jogo relativamente simples, parte da grande família dos jogos de vazas.
Jogos de vazas usam cartas de baralho. A cada rodada, um jogador abre a mesa baixando uma carta, e os demais jogadores precisam baixar cartas em conformidade com a carta inicial — com base nos naipes, por exemplo, ou com base nos valores. Escopa, Bridge e muitos outros são também jogos de vazas.
Só que estas interações não estão nas regras do jogo. Há muitos anos, eu e meus amigos da Confraria Lúdica resolvemos aprender o Truco a partir da leitura de suas regras; não conhecíamos ninguém que o jogasse para nos ensinar. Jogamos algumas mãos, de forma tranquila, pouco falando; não vimos graça nenhuma no jogo, e desistimos inteiramente dele.
Faltou-nos a transmissão oral de uma parte importante das regras. As regras formais do Truco estavam ali, escritas. Mas faltavam as regras informais do jogo! Faltava o conjunto de expectativas que dizem como o jogador deve se comportar em um jogo. Nenhum de nós tinha ideia que muito da graça do Truco vem do comportamento exagerado dos participantes.
Para muitos jogos antigos, mesmo quando encontramos textos com as suas regras formais, frequentemente não temos ideia de quais eram as suas regras informais.
Mas encontrar restos arqueológicos de jogos antigos é raro, porque muitos não deixaram marcas.
Pense no familiar Jogo da Velha. Assim como outros jogos tradicionais, ele pode ser jogado facilmente com riscos no chão.
Na África, uma família de jogos populares são os Mancalas. Em suas formas mais simples, são jogados com buracos no chão, nos quais se colocam sementes ou pedrinhas.
Jogos assim raramente deixam marcas arqueológicas. É possível que os Mancalas sejam pré-históricos; mas o primeiro registro arqueológico do que parece ser um tabuleiro de Mancala data do século II. Já o Jogo da Velha é uma variante atual de muitos jogos de colocar três peças em linha, e estes deixaram marcas mais abundantes — com tabuleiros riscados encontrados em telhas e paredes desde o Egito do século XIV aC.
Os restos mais antigos que podem ser de jogos são de aproximadamente 7000 aC, do período Neolítico. Os primeiros restos sobre os quais temos um pouco mais de firmeza para identificar como jogos aparecem por volta de 3000 aC: em Başur Höyük, na Turquia, arqueólogos encontraram conjuntos de peças esculpidas, em grupos de quatro, que parecem ser peças de algum jogo; e, no Egito, o jogo Senet já deixava marcas desde a Primeira Dinastia.
Por milênios, o Egito, o Levante e a Mesopotâmia eram importantes centros culturais, e isso também ficou aparente nos jogos. O Senet se originou no Egito, mas já se encontraram exemplares em Chipre e em Byblos; e tabuleiros do Jogo Real de Ur, originário da Mesopotâmia, foram encontrados em Creta e no Ceilão.
Estes jogos foram jogados por milênios, e provavelmente suas regras foram se modificando ao longo do tempo. No caso do Senet, a reconstrução das regras do jogo é um amálgama moderno, realizado a partir de muitos textos fragmentários, de momentos bastante distintos ao longo de quase mil anos.
A situação é diferente para o Jogo Real de Ur: foi encontrado um tablete de argila, com o texto em cuneiforme, com as regras do jogo — ou, ao menos, com as regras como eram praticadas nesta altura: o tablete foi datado do século II aC, quase três mil anos após os primeiros tabuleiros que já encontramos.
Tanto o Senet quanto o Jogo Real de Ur adquiriram aspectos culturais importantes. O Senet foi associado à jornada da alma após a morte, e o Jogo Real de Ur foi considerado como um prenúncio do futuro do jogador, além de trazer mensagens sobrenaturais. Por assim dizer, os jogos ganharam um significado para além das suas características lúdicas.
Senet e o Jogo Real de Ur desapareceram, seja por abandono ou por transformação — o jogo mesopotâmico é um dos primeiros membros da grande família dos jogos de Tablas, que inclui o Gamão moderno.
Na China, pelo século IV aC, encontramos referência a um jogo que era chamado Yì, mas que hoje é chamado Wéiqí na China e Go no Japão — o nome com o qual se espalhou pelo mundo. Provavelmente é o mais antigo dos jogos que ainda é jogado regularmente; em muitas partes do mundo, o Go tem uma dimensão cultural equivalente à do Xadrez nas culturas ocidentais.
Aliás, o Xadrez é tão relevante para a história dos jogos no Ocidente que vou voltar a ele mais adiante. No próximo capítulo, falo um pouco sobre os jogos de cartas; mas cabe dizer que, neste capítulo aqui, eu mal toquei na grande maioria dos jogos antigos. Falei de alguns poucos mais notáveis, mas é importante ter em mente que estas culturas tiveram dezenas de jogos, em momentos diversos desta história multimilenar.