Vamos abrir a caixa de um jogo e olhar dentro dela — mesmo que seja uma caixa inexistente… O que encontramos dentro dela?
Os componentes de um jogo são as suas “peças”. Eles são controlados, ou manipulados, pelos jogadores, para fazerem suas jogadas.
A imensa variedade dos jogos se reflete em igual variedade nos seus componentes. No Jogo da Velha, são sinais X e O riscados. Muitas vezes, são peças em diferentes materiais — sementes, pedras, ossos, madeira, metal, vidro, papel, plástico —, esculpidas em formas detalhadamente artísticas, ou simplesmente funcionais, ou apenas improvisadas.
Podem ser os próprios corpos dos jogadores — parcialmente, como no Par ou Ímpar, ou inteiramente, como na Esgrima.
Alguns componentes são reaproveitados em muitos jogos; foi o caso dos dados. Há milênios que temos jogos que dependem de resultados aleatórios, mas os dados cúbicos se mostraram muito eficientes nesta tarefa, e hoje são o modelo para este tipo de componente.
Cartas de baralho são componentes extremamente versáteis, usadas em uma imensa variedade de jogos — mesmo RPGs (Castle Falkenstein, 1994) ou jogos de guerra (Maria, 2009).
Em jogos digitais, os componentes são imagens criadas digitalmente. Ainda têm expressão no mundo físico, mas apenas visualmente.
Nem mesmo há necessidade de nos prendermos ao mundo físico. Alguns jogadores apreciam o desafio de jogar apenas imaginando a posição das peças no tabuleiro; há jogadores de Xadrez que treinam assim. Muito do que ocorre na narrativa de um RPG ocorre apenas nas mentes dos participantes, mesmo quando há componentes físicos no jogo.
Mas o mais comum é que um jogo tenha componentes físicos, e isso traz consigo uma limitação importante: quase sempre, eles têm características que impedem o seu uso por quem tem restrições em suas capacidades físicas. Pessoas cegas, com percepção de cor reduzida, com dificuldade ou impossibilidade de mover suas mãos, e tantas outras restrições. Em muitos casos, esta limitação dos componentes pode ser reduzida, com a devida atenção dos designers e desenvolvedores dos jogos.
Há ainda um tipo especial de componente que podemos encontrar dentro da caixa: o tabuleiro. Não importa se é uma folha de couro, uma lâmina de madeira, ou se é traçado sobre papel ou no chão: o tabuleiro é o espaço físico no qual o jogo se desenvolve, ele mostra parte da extensão do círculo mágico.
Cabe muita coisa dentro da caixa de um jogo. Muita coisa, mas ainda não é tudo: há uma folha de papel com algo escrito nela.
Vamos examinar esta folha um pouco mais adiante — porque, para podermos entendê-la direito, precisamos antes olhar fora da caixa, e não dentro dela.