Quando nossa espécie começou a brincar?

Provavelmente é impossível responder a isso. Acho razoável pensar que sempre brincamos, desde antes de sermos Homo sapiens, quando quer que tenha acontecido a nossa diferenciação. O fato é que sabemos que várias outras espécies brincam: animais domésticos e animais selvagens, adultos ou jovens. Mais ainda: sabemos que as brincadeiras não acontecem apenas entre indivíduos da mesma espécie.

O fato é que brincamos. Muito.

E jogamos…

Jogo e brincadeira não são bem a mesma coisa. Mas andam de mãos dadas. Em português temos palavras diferentes para ambos, mas não é assim em outras línguas — como no holandês.

Seria fácil dizer que “brincadeira” é o conceito mais amplo e “jogo” é mais restrito, que todos os jogos são casos especiais das brincadeiras. Seria fácil, mas não é verdade. Existem jogos que nem chegam perto de ser brincadeiras — alguns até se chamam “jogos sérios”, procurando se distanciar de “meras” brincadeiras.

De todo modo, parece que, antes de ficarem sérios, os jogos começaram como brincadeiras. Vamos dizer, então, que são irmãos, com a brincadeira sendo mais velha do que o jogo.

Na primeira vez em que a brincadeira chamou seu irmão para brincar, ele foi e gostou da ideia, mas acrescentou um ingrediente que não havia antes: regras.

Brincadeiras não precisam de regras. Jogos não existem sem elas.

É interessante notar que colocar regras na brincadeira também não é exclusividade nossa. Em várias outras espécies, podemos perceber que existem brincadeiras com regras — por exemplo, “pode morder, mas não pode ferir”, ou “quem ficar por cima ganhou”.

Em 1938, Johan Huizinga publicou um livro chamado Homo ludens. Por escrever em holandês, Huizinga frequentemente fala tanto de jogos quanto de brincadeiras, o que cria alguns problemas na tradução para o português. Mas sua posição geral é simples: a brincadeira/jogo é um elemento fundamental da cultura humana. Ou, colocando de forma inversa: toda a cultura humana inclui um forte componente de brincadeira/jogo.

Huizinga estava especialmente interessado em estudar como este elemento se manifesta em atividades que normalmente não chamaríamos de jogos ou de brincadeiras — por exemplo, uma audiência em um tribunal. Não vou repetir Huizinga aqui; Homo ludens é um livro fascinante, e recomendo demais a sua leitura a todos os que se interessam por jogos — ou brincadeiras… Mas vou usar, muitas vezes, um conceito desenvolvido no texto de Huizinga: o círculo mágico.

Vou me estender mais adiante sobre este conceito; mas já cabe dizer que o círculo mágico é o espaço dentro do qual as regras do jogo têm validade. Claro, nem precisa ser um círculo: o retângulo de um campo de Futebol é um círculo mágico.

Huizinga chamou seu livro de Homo ludens, para destacar que ele via, em nossa espécie, mais do que apenas pensar — mais do que sapiens. Ele queria chamar a atenção para o elemento brincadeira/jogo, definidor de tanta coisa em nossa cultura. Somos, então, mais do que o hominídeo que pensa: somos o hominídeo que brinca e que joga.

Aqui, estou especialmente interessado nas regras, e por isso intitulei este livro Homo regulans: somos também o hominídeo que cria regras. O interessante é que jogos são apenas uma parte desta história: para além de regras de jogos, criamos regras de conduta, e procuramos descobrir regularidades no mundo em que vivemos. Elaboramos leis para a conduta (de outras pessoas…), e queremos que o mundo obedeça às “leis naturais” que intuímos e desenvolvemos.

Quando interpretamos as brincadeiras/jogos de outras espécies, uma hipótese muito comum é que são treinamentos para a vida adulta — por exemplo, gatinhos brincam de caçar um ao outro, treinando para aprender a caçar suas presas. Esta hipótese é complicada pelo fato de que indivíduos adultos também brincam, mas isso não indica que ela é falsa: pode ser apenas insuficiente para explicar todos os aspectos da brincadeira/jogo.

No caso do Homo regulans, minha posição é a de que aprender a lidar com regras faz parte do nosso treinamento para a vida adulta, porque nossas sociedades dependem de regras. Jogos são “exercícios de treinamento” para a vida em sociedade. Mais ainda: também defendo que estudar regras de jogos permite entender melhor outros tipos de regras.

Isso não quer dizer que jogos não sejam, também, outras coisas. O mundo dos jogos é extremamente variado; fazer afirmações categóricas sobre jogos é sempre complicado, quase sempre um exercício de futilidade.

Mesmo afirmar que o mundo dos jogos é muito variado pode soar estranho a muitos. De forma geral, não existe muita consciência da presença dos jogos na nossa história. Antes de prosseguir a discussão sobre regras, então, vale a pena expor um pouco desta longa história.