Já mencionei várias publicações com análises de jogos, desde o Libro de los Juegos até os fanzines dos aficionados por jogos de guerra. É fácil encontrar livros e textos sobre estratégia de jogos.

De forma geral, todas estas análises incluem um elemento comum, quase nunca declarado: jogadores ideais. São jogadores inteiramente dedicados ao jogo analisado, que o conhecem perfeitamente, e vão sempre fazer as jogadas mais apropriadas para procurar sua vitória.

Jogadores ideais são ótimos para análises de jogos. Pena que não existem…

Vamos olhar, então, fora da caixa do jogo. Quero ver quem a abriu; não quero jogadores ideais, e sim jogadores — pessoas! — reais.

Pessoas que decidiram empregar, em um jogo, um de seus bens mais preciosos: seu tempo. Por quê?

Mais uma vez, lidamos com estes humanos maravilhosamente mutáveis, e por isso as respostas são imensamente variadas. Mas há um elemento que perpassa muitas delas: vemos graça no jogo. O jogo inspira emoções que nos agradam — alegria, euforia, tesão, suspense, terror, desafio… Para ser mais exato, não é o jogo que as inspira: nós usamos o jogo para criarmos estas emoções.

Em inglês, os pesquisadores de jogos usam a palavra fun para esta característica do jogo. Quase sempre, ela é traduzida, em português, como “divertimento”. Mas agradeço demais à minha querida amiga Daniella Munhoz por propor “graça” como uma tradução mais adequada.

Aqui está a motivação, o interesse de quem abre a caixa e se senta à mesa para jogar. Mas estas pessoas não são as únicas envolvidas no jogo. Há outras pessoas que têm interesse no jogo, que podem ter efeito sobre ele, e que podem ser afetadas por ele.

Um exemplo dos mais familiares, e no qual já toquei antes: quem assiste à partida. Temos até uma expressão para falar de como isso pode afetar um jogo: jogar para a plateia. Dependendo do grau de interesse e de envolvimento da plateia, podemos ter torcedores, que desejam ardentemente a vitória dos “seus” jogadores.

Aliás, o Futebol e outros jogos desportivos são um ótimo exemplo aqui. Pense em todas as pessoas que participam de uma partida em um estádio: ali estão os jogadores, as equipes técnicas, os árbitros, profissionais de imprensa, gandulas, apostadores, torcedores… Os efeitos da torcida sobre a partida quase sempre são indiretos, mas às vezes podem ser bastante diretos.

Vale notar que até mesmo existem regras formais para a atuação de participantes não-jogadores, como os árbitros. Suas regras definem o que podem fazer na partida, com um objetivo bem definido: que a partida seja jogada dentro das regras. Eles não são jogadores, mas têm agência direta sobre eles e sobre a partida.

O exemplo do Futebol é útil para mostrar uma variedade de tipos de participantes, mas ele não esgota as possibilidades. Um participante pode nem ter interesse no jogo em si, e sim no jogador — por exemplo, eu posso ter interesse em que meus filhos joguem durante uma tarde de férias, da mesma maneira que determino que o jogo acabe na hora do jantar. Nem mesmo vi o que estavam jogando, mas minhas ações tiveram efeito direto sobre o início e sobre o fim da partida.

De forma geral, podemos nos referir ao conjunto de pessoas que têm interesse no jogo como os seus stakeholders, uma palavra familiar a muitos designers e desenvolvedores de sistemas.

Aquelas análises de jogos, que imaginam jogos e jogadores ideais, também partem do pressuposto que o círculo mágico é perfeitamente estanque; mas isso não é verdade. O jogo não é um espaço à parte: os jogadores não deixam de levar consigo, para dentro do círculo mágico, tudo o que eles são.

Não vivemos isolados, não jogamos isolados. Mesmo que eu esteja jogando em meu computador, sozinho, uma partida de Klondike, estou interagindo com a criação de uma equipe de designers e programadores, seguindo as regras que eles implementaram. Quando estou resolvendo um problema de Xadrez, estou respondendo ao desafio proposto pelo seu criador.

Dentro da caixa, estão os componentes — coisas. Aqui fora, estamos nós, pessoas — Homo ludens.

Mas ainda há aquela folha ali dentro. Vamos ver o que está escrito nela.