Quando pensamos em jogos, quase sempre pensamos em competição. Mas a competição somente faz sentido se ocorrer dentro das regras. Seja ou não um jogo competitivo, os jogadores procuram a vitória: mas o objetivo das pessoas que envergam as máscaras de jogadores é ter um bom jogo.
A volúpia da vitória e a paixão das torcidas ofuscam isso. Quero vencer, quero que o “meu” time ganhe, e se não ganha “não valeu”. Quero revanche — quero vingança!
Isso é negar o jogo. Não importa se é uma partida de Futebol ou uma eleição.
Mas, no Futebol, quando todos jogam bem, todos ganham. E, na democracia, quando há um bom jogo, todos vencem — mesmo quem não foi eleito.
Ver a democracia como jogo ajuda a entender algumas de suas características. Mas há limitações aqui.
Existe uma parábola sobre o uso de ferramentas. Se a única ferramenta que eu sei usar é um martelo, para mim todos os problemas são pregos.
Há anos que os jogos são a ferramenta cognitiva que eu uso para interpretar muito da nossa vida. Mas eu sempre procuro ter em mente esta parábola acima, e lembrar que qualquer ferramenta revela apenas uma parte de algo mais complexo.
Nisto, eu sou ajudado por outra parábola famosa, a dos cegos que tentam descrever um elefante. O primeiro, apalpando a tromba do animal, diz que o elefante se parece com um cipó; o segundo, apalpando a orelha, diz que o elefante se parece com um leque de abano, e assim por diante. Nenhuma das interpretações está errada, mas nenhuma é suficiente para descrever a totalidade do elefante.
Assim, não suponho que minhas interpretações estejam erradas, e sei muito bem que são apenas uma perspectiva sobre objetos bastante complexos; mas penso que são uma perspectiva útil.
Shakespeare deu a Macbeth belas palavras, que dizem que a vida é como uma peça de teatro, e nós somos os atores. O grande bardo usava o teatro como sua ferramenta, e conseguiu com ela nos fazer ver coisas extraordinárias.
Minha ferramenta é o jogo; eu vejo a vida como um jogo, e nós somos jogadores. Assim como o teatro, o jogo é uma forma de arte. Estou certo? Talvez. Por serem artes, o jogo e teatro inspiram e se inspiram na vida, e têm a vida como seu objeto. Pode ser que as minhas reflexões inspirem algumas a você; se isso acontecer, minha jogada foi bem sucedida.
Sua vez. Vamos continuar a jogar o único jogo infinito que existe.
Ave atque vale.