Até agora, desde que abrimos a caixa, temos coisas em mãos, e temos nós mesmos. É isso um jogo?
Ainda não. Falta saber como estas coisas serão usadas por nós, e com que finalidade. Faltam as regras.
Em nossa caixa imaginada, elas estão em uma folha de papel. Pode ser mais do que uma folha; em alguns jogos, as regras se estendem por dezenas de páginas.
Jogos não existem sem regras. Precisamos delas para entrar no jogo — para traçar o círculo e criar sua magia.
Temos jogos desde tempos imemoriais, e quase sempre em nossa história eles são aprendidos por transmissão direta: eu aprendo as regras com alguém que já as conhece. Pode ser meu avô me mostrando as regras do Xadrez, ou pode ser um desconhecido em um vídeo na Internet.
Ter a folha de regras nas mãos me permite aprendê-las sozinho. Ah… não, esqueci: estas regras não se manifestaram no papel por geração espontânea. Como mencionei há pouco, o jogo sempre envolve outros participantes; pelo papel, alguém está me transmitindo o seu conhecimento. Pode ser o criador do jogo, pode ser alguém que recebeu este conhecimento como parte de uma sequência secular.
Em muitos jogos digitais, a situação é distinta: o dispositivo no qual ele funciona nos conduz pelo jogo, para que possamos aprendê-lo. Fazer algo incorreto no jogo é inteiramente impossível, seja mover uma peça para fora de um tabuleiro, seja disparar uma arma sem munição. O jogo digital é um universo, criado por uma divindade que ali é onipotente, e vamos descobrindo apenas o que ela nos permite fazer. Existem regras, mas não as aprendemos, nem mesmo podemos transgredi-las: podemos apenas cumpri-las.
Quem vê um jogo se desenrolando, sem conhecer suas regras, fica perplexo. Não sabe o que está vendo. Não importa se são duas pessoas movendo peças esculpidas sobre uma série de desenhos, ou um grupo em intensa atividade física com uma bola: para aquele espectador, ali não existe significado.
E então, alguém lhe ensina as regras — o conhecimento é transmitido —, e ele aprende a criar o significado.
Foi iniciado nos mistérios do jogo. Deu o primeiro passo em um novo campo de conhecimento — e, com frequência, quem o inicia ouve a pergunta terrível:
“Mas como eu faço para ganhar?”
Durante meu mestrado, ministrei um curso de extensão sobre jogos, durante o qual os participantes jogaram algumas dezenas de partidas, de jogos variados, com os quais não estavam familiarizados. Parte do meu interesse era determinar como eles desenvolviam estratégias para novos jogos, depois que eu explicava as regras. Ouvi esta pergunta, mais de uma vez, depois que eu concluía a explicação das regras.
Seria tentador atribuir este espírito a um suposto conflito de gerações, e reclamar que devem ser jovens acostumados com vídeos na Internet mostrando percursos completos para tantos jogos digitais. Mas não; é o mesmo espírito demonstrado pelo faraó Ptolomeu I Soter, quando ele perguntou a Euclides de Alexandria como aprender geometria de forma mais rápida — e ouviu do sábio que não há atalhos na estrada para a geometria.
A folha de papel traz a chave para sermos iniciados no mistério — mas apenas iniciados. Ainda há muito a aprender.
Há a necessidade de uma aprendizagem funcional: uma aprendizagem significativa, que não vai acontecer sem a experiência prática direta. Ao fazer isso, consigo criar em mim os meios para ir adiante.
Claro, os percursos de conhecimento são bastante diferentes. Cada jogo tem seu caminho, e o esforço necessário para atingir a maestria varia consideravelmente. Jogo da Velha, Gamão, Vôlei, Truco, Go, Bridge… cada um deles tem o seu caminho. E eu não coloquei o Jogo da Velha aqui à toa: ele também tem um percurso de conhecimento, que geralmente percorremos quando somos crianças. Temos que aprender a andar antes de podermos aprender a correr.
O jogo não é algo à parte de nossas vidas e nossa cultura. O que fazemos no jogo não é diferente do que fazemos fora do círculo mágico. Quando alguém nos ensina as regras de um jogo, quando há o processo de transmissão do conhecimento, estamos participando de um ritual essencial para nossa espécie: aprendemos a aprender, passamos a usar o que aprendemos — e, com isso, podemos nos aperfeiçoar e também transmitir o que aprendemos.
Magia. Este simples jogo, aqui embaixo, nos mostra o que está no alto.
A folha de papel é a chave para os mistérios. Ela não tem todo o conhecimento — não, longe disso! Mas ela mostra o início do caminho.
Tudo bem, vamos dar os primeiros passos. Leio a folha. Regras, certo. O que elas estão me dizendo?