Antes mesmo de nascer, já se podia imaginar o impacto que os jogos teriam na minha vida. Em uma época onde boardgames e tabletops role-playing games eram pouco acessíveis e complicados de encontrar no Brasil, meu pai já possuía uma digna biblioteca e um círculo de amigos animados para jogar todos os novos jogos que aparecessem. Crescendo, eu observava tabuleiros enormes montados nas mesas da casa e meu pai conversando animado com seus amigos da hora que chegava da escola até ir dormir. Com o tempo, meu pai e minha mãe me colocaram na mesa como uma nova jogadora e o mundo dos adultos estava nas minhas mãos. Para mim, era um dos raros momentos de reunião de só nós três, algo que minha irmã mais nova nunca poderia interferir.
Minha irmã mais nova fazia com que toda reunião de família parecesse que tinha uma bomba-relógio debaixo da mesa, você nunca sabe se ela vai explodir ou quando ela pode explodir mas a tensão de que a explosão pode vir quando você menos espera sempre pairava sobre nós. A mesa de tabuleiro, porém, era diferente. Era uma conexão com minha família em um contexto que era só meu, só eu poderia entrar no mundo dos adultos e fazer meus pais prestarem atenção apenas em mim por algumas horas. Não importava o jogo ou quem mais estivesse jogando, esse era meu momento.
Meus pais construíram uma casa nova e isso deu a oportunidade para meu pai criar o escritório e sala de jogos dos sonhos. Era essa sala que eu sabia que podia encontrá-lo sempre que chegava em casa e onde eu podia ficar para passar tempo com ele mesmo que fosse cada um em um computador. Nessa sala, meu pai conseguia organizar encontros de mais de vinte pessoas jogando e me fazia pensar sobre como jogos criavam uma comunidade tão grande (para meus parâmetros infantis).
Adolescente, meu pai foi embora. Alguns jogos ficaram com minha mãe e outros jogos se tornaram parte de uma briga da qual eu me tornei a ponte. A sala enorme onde meu pai e seus amigos sempre estiveram tinha apenas uma habitante, eu. O computador parecia a última conexão que tinha com aquela época e jogos com comunidades online eram meu jeito de procurar o que era que trazia tanta paixão para meu pai. Esses jogos depois se tornaram uma ponte para que eu e meus primos tivéssemos algo em comum, evoluindo para video games que eventualmente agregou nosso primo mais velho a jogar conosco.
Essas tardes de sábado jogando com meus primos era a nova mesa de tabuleiro com meus pais, mas assim como a mesa de tabuleiro, essas tardes se foram quando meus primos se mudaram. A sala na casa da minha vó estava vazia da mesma maneira que a sala do meu pai. Jogar video games sozinha não era a mesma coisa e eu entendi que meu interesse estava em dividir algo com minha família e não no jogo ou ato de jogar.
Nessa época, minha mãe criou seu próprio grupo de amigos jogadores. Foi uma época difícil para ela e eu sabia que esse pequeno grupo era o único apoio que ela tinha fora a família e o trabalho. As noites de jogo mudaram de sala, tínhamos poucos jogadores e poucos jogos mas essas noites eu via o sorriso da minha mãe que estava desaparecido em outros momentos. Os jogos eram um alívio do peso que estava sempre nos seus ombros, alguns momentos na semana em que alguns pedaços de papelão e plástico criavam um mundo diferente onde ela não era mais uma mãe divorciada com uma filha adolescente e uma filha deficiente.
Aos 18, voltei a jogar jogos de tabuleiro com mais frequência. Conheci um menino na faculdade que trabalhava num bar de jogos e nossos encontros mais comuns eram passar a noite lá com os amigos dele. Quando terminamos, por coincidência, minha mãe tinha conhecido um novo grupo de amigos que também gostavam de jogar. Esse grupo era mais novo que minha mãe mas mais velho que eu e era legal ter amigos em comum com minha mãe. Mais uma vez, os jogos serviram de ponte para criar uma melhor relação com minha família.
Ao mesmo tempo, nessa época eu já era adulta. Criei opiniões sobre os jogos que jogava, sobre o tipo de pessoa com quem jogava, sobre o papel do jogo na minha vida social. O jogo aos poucos não era mais necessário para manter minha relação com minha mãe, eu fiz novas amizades em que podíamos jogar jogos de tabuleiro ou video games juntos mas não eram mais o pilar que as sustentava.
Essa mudança me fez ter uma visão melhor do jogo como atividade. Hoje eu prefiro video games, encontrei jogos que amo jogar sozinha, jogos que amo jogar com amigos online e outros que vamos para a casa de alguém jogar juntos. Perdi um pouco o interesse em jogos de tabuleiro mas quem sabe o que o futuro trará, se tem algo que sei é que jogos são uma ferramenta social na minha vida e existe sempre a possibilidade de novas relações criarem um novo amor pelos jogos de tabuleiro. Mas agora que me entendo melhor, não sou mais dependente deles para manter relacionamentos e posso apenas aproveitar o jogo em si. Eu não tenho mais medo do que será de mim no momento que o jogo acabar.