Desde criança, sempre gostei de jogos, mas passei por fases: baralhos, tabuleiros, etc. Gostei também de esportes, aos quais me dediquei mais, para só depois entender que esportes também são jogos.
Quando Luiz Cláudio começou a reunir seus colegas para jogar em casa (os primórdios da Confraria Lúdica), acompanhei esses movimentos e participei eventualmente, mas com entusiasmo moderado.
Mais tarde, novamente impulsionado pelos estudos lúdicos do Luiz Cláudio, passei a me interessar pelas regras dos jogos (origem, evolução e amadurecimento), principalmente ao perceber o paralelismo entre elas e as regras de comportamento social.
Assim, gostaria de registrar algumas ideias sobre esse ponto do paralelismo.
Minha visão é de que as regras são criadas muito em função da cultura de origem, e que existe grande resistência para adaptação a uma visão global, quando o jogo (esporte) se difunde mais.
Cito três exemplos de esportes, não por acaso criados por ingleses:
a) o primeiro é o Tênis, cujas contagens de pontos refletem bem a complexidade do sistema métrico britânico: os pontos de cada game são contados como os quartos de hora (15, 30 e 40), só para complicar (porque não contar 1, 2, 3?);
b) o segundo é a regra do impedimento no Futebol, que o bom senso indica ser inteiramente desnecessária (se um jogador estiver adiantado, caberia aos defensores se posicionarem para anular seus movimentos), mas é fonte permanente de polêmicas e discussões intermináveis. A tecnologia moderna permite até decidir uma situação de impedimento por milímetros(!?);
c) o terceiro, também no Futebol: porque o árbitro é o único a decidir quanto tempo o jogo vai durar (outra fonte interminável de polêmicas)? Porque não delegar essa função a um cronometrista fora do campo, como no basquete, no futsal e em outros esportes que dependem de tempo?
Nesses casos, persiste a cultura britânica de absoluto respeito às tradições, mesmo que isso esteja criando problemas para o desenvolvimento do esporte.
Ainda no caso do Futebol, um raro (e retardado) exemplo de mudança de regra foi no caso das substituições de jogadores durante uma partida: no início, nenhuma substituição podia ser feita (Pelé mais de uma vez jogou no gol, por causa de lesão do goleiro); mais tarde, aceitou-se 3 mudanças e, com o advento da pandemia, já se pode fazer até 5 substituições (troca de metade de cada equipe!).
Já no caso das regras sociais: há dias, assisti a um filme (“O caso Collini”), que retrata bem como as regras sociais podem mudar ao sabor de interesses casuais: conta a história de como o governo alemão, em 1968, criou uma lei específica para perdoar criminosos de guerra nazistas. Posteriormente esse estatuto foi invalidado, mas durante vários anos serviu para promover a impunidade desses crimes contra a humanidade.
Voltando aos jogos de modo geral: as regras admitem mudanças e variações com mais facilidade, para atender culturas locais ou, eventualmente, interesses pessoais dos participantes. Dois exemplos: jogos de baralho (Buraco, Tranca) e Dominó admitem variações nas regras, adaptadas às conveniências dos jogadores, desde que haja consenso entre eles.