Sempre fui fascinado por jogos. Quando pequeno, me encantava com os jogos da Estrela e Grow, como Solaris, Combate, Scotland Yard, Genius, Interpol, War, Volta ao Mundo em 80 dias, etc. Na época, meados dos anos 80 e inicio de 90, ainda não conhecida os famosos boardgames além mar, então meu mundo era limitado ao que chegava em nossas terras brazucas. Ainda nesse período, o mundos dos livros jogos e os livros da Stella Carr (série “Eu Detetive”) entraram em minha vida, fazendo com que ideias mil aflorassem em minha cabeça, mas foi um filme que vi nessa época que de certa forma mudou tudo: Mazes and Monsters. Apesar de trazer um Tom Hanks que não conseguia mais distinguir, por causa de sua doença, o que era fantasia e realidade, deu aquele estalo em minha cabeça — “Preciso descobrir que jogo é esse!” A inspiração do filme, como muitos devem imaginar, foi o Dungeons and Dragons, e aquele filme foi para mim a porta para um mundo no qual vivo submerso hoje e que se fosse escrever das experiências vividas em mesas daria uma bela série de livros.

Os RolePlaying Games para mim são a melhor experiência lúdica e de vida que uma pessoa pode vivenciar. Para explicar meu posicionamento, voltemos um pouco no tempo. Em meados de 1992 fui introduzido ao universo do Advanced Dungeons and Dragons e, fascinado como eu era por Caverna do Dragão, inspirado no Presto construi meu primeiro Mago, Egon Wise (não era muito bom para nomes nessa época, talvez ainda não seja). Jogamos nossa primeira sessão!!! Que experiência fantástica foi vivenciar aquela história pelos olhos de uma outra persona… Lembro que, antes de jogar RPG, brincava com meus amigos de fazer mapas e vivenciávamos aventuras a la Goonies nos mapas que eu fazia. Mas jogar RPG era outro patamar. Nesse mesmo ano a revista Super Interessante Jogos foi lançada e trouxe uma versão resumida de um cenário de espionagem do que viria ser o DEMOS Corporation, primeiro RPG de Espionagem Brazuca. Joguei tantas vezes a aventura, que se tratava de uma simples invasão de um cofre, que acabei criando um prédio de 20 andares com mais desafios a serem enfrentados. A ideia de poder criar experiências para serem vivenciadas por outras pessoas fez meu lado Spielberg saltar de alegria. Como a maioria dos livros era em inglês, comprei um dicionário Inglês-Inglês e um Inglês-Português para melhorar minha leitura da vasta bibliografia de cenários e livros que existia. Em 93 me juntei com outros amigos e formamos o primeiro grupo de promoção de RPG de Natal, a Oficina da Aventura: organizavamos eventos e oficinas, sempre seguidos de apresentação do que era RPG para os pais mais preocupados. Com os eventos, começamos a ter novas pessoas interessadas em narrar, e com isso a promoção do hooby na cidade estava a todo vapor. Uma das coisas que fui percebendo à medida que narrava é que fui me tornando mais articulado, menos tímido, o que me ajudou bastante na apresentação de trabalhos em grupo em sala de aula.

O tempo foi passando, me mudei de cidade, fundei com amigos aqui em Brasília o Grupo D30RPG. Conheci outros títulos e sistemas, mais independentes, alguns com um foco maior em criar uma história colaborativa com os jogadores, do que “Eu, Mestre de Jogo, sou o ser supremo e soberano na mesa! Muahahahaha” . Confesso que acabei mais me interessando pela primeira opção, não me leve a mal, ainda gosto de D&D, mas essas sessões mais focadas em experiências do que rolagens de dados hoje me atraem mais, gosto de ver a história sendo criada e conduzida por todos os envolvidos.

Para mim RPG é um forma de viver através de outros olhos, se colocar numa pele que não é sua e trabalhar as inseguranças, medos e desejos daquela pessoa, é viver histórias memoráveis com outras pessoas. Mais do que um jogo, se torna em alguns momentos uma ferramenta de ensino e empatia. É também uma excelente forma de se aprender a contar histórias e de poder errar numa zona livre de erros. O mais interessante é que por mais que você jogue uma aventura pronta, ou cenário pronto, cada vez que você jogar será uma experiência diferente… isso para mim é uma das características mais fascinantes que existe no RPG.

Quando eu falo que o RPG para mim é a melhor experiência lúdica e de vida, é porque sei que parte do profissional e pessoa que sou hoje se deve a essa experiência. Além disso, relatos de colegas e amigos também só fazem tornar essa afirmação mais verdadeira. Recentemente, tive uma experiência bem bacana, fui convidado a dar aulas usando sessões de RPG para aplicar o conteúdo de textos didáticos. A experiência foi mega positiva — os alunos tinham acesso aos textos antes das sessões de RPG e nas sessões de RPG eles aprendiam de forma lúdica a aplicação do contéudo, fosse esse um elemento narrativo na sessão ou parte da mecânica que o sistema utilizado usava. Por exemplo: para trabalharmos o texto sobre curiosidade epistêmica, usamos o RPG Crianças Enxeridas, onde curiosidade é algo que faz parte da mecânica e justamente por serem crianças é muito mais fácil de se renderem a usar e abusar da curiosidade.

Uma coisa que é bonita de se ver, por estar nesta estrada há tanto tempo, é que o mundo evolui, e o RPG também. Caracteristicas como bem estar social e emocional dos participantes se tornaram uma parte mais presente nos jogos hoje e que não eram vistos como importantes no passado; ferramentas de segurança nos mostram que pessoas são mais importantes que regras, que a experiência deve ser prazerosa a todos e não somente ao narrador. Respeito, diversidade e acessibilidade mostram que os designers seguem essa evolução do mundo, e isso é de aquecer qualquer coração.