Conheci jogos de tabuleiro nos anos 80 — tinha em casa o Top Secret (que ainda está casa dos meus pais, embora em estado deplorável) e obviamente tive também acesso a títulos como o Jogo da Vida, Banco Imobiliário, Interpol, etc. Mas nos anos 90 passei para os video games, e com raríssimas exceções (como uma ou outra partida de War II ou Imagem & Ação), o antigo interesse ficou dormente por quase duas décadas.

Até que em 2009 uma amiga começou a me falar que existia todo um mundo de “jogos modernos de tabuleiro”, algo de que eu nunca tinha ouvido falar, e uma vez ela visitou a cidade onde eu morava e trouxe o jogo San Juan. Confesso que não fiquei muito impressionado com o jogo, mas aquilo despertou meu interesse no assunto, e, nos dias seguintes, me vi gastando noites na internet lendo sobre os tais jogos (então descritos na Wikipedia como “German-style board games”), depois descobri o site BoardGameGeek, me cadastrei em uma lista de e-mails brasileira sobre eles, e, um belo dia, um sujeito postou uma lista de jogos que estava vendendo. Reconheci dois nomes — Tigris & Euphrates, que sempre era citado nos sites que eu lia como um dos mais importantes jogos “modernos”, e Age of Empires III — que eu conhecia do jogo para PC. Quando entrei em contato com ele o Age of Empires III já havia sido vendido, então comprei o Tigris & Euphrates, chamei alguns amigos, li as regras (que não se pareciam com nada que eu já havia jogado) e… foi paixão à primeira vista. Jogávamos ele toda semana (às vezes mais de uma vez), íamos aprendendo estratégias novas a cada partida, descobrindo as maldades do jogo, e assim por diante.

Conseguir esses jogos nessa época significava comprá-los em segunda mão ou importá-los, mas felizmente a segunda opção era bem mais fácil numa época de dólar a dois reais, e fui montando uma pequena coleção nos anos seguintes ao mesmo tempo em que os apresentava a praticamente todos meus amigos e conhecidos. E aí veio a excelente notícia de que a Grow resolveu lançar por aqui o Catan e pouco depois o Carcassonne, que viraram os presentes de aniversário padrão para os amigos que eu queria trazer para o hobby.

Alguns anos depois vieram outras empresas nacionais e de repente encontrar jogos modernos por aqui passou a ser menos difícil. E aí fui descobrindo também que havia enormes diferenças mesmo dentro dos tais “jogos modernos” — inclusive reparei que minha preferência recaía sobre um tipo de jogo que começou a se destacar em meados dos anos 90 e foi a norma até o começo dos anos 2000 — aqueles que envolvem muita interação entre os jogadores, que se resolvem em um tabuleiro central onde todos estão envolvidos e nos quais a complexidade não vem de longos manuais de regras, mas do fato de que as estratégias derivam mais da forma com que os jogadores interagem com os demais e exploram as regras ao seu favor (em oposição aos jogos que focam muito em otimização individual, pouca interação e complexidade que vem mais de regras muito complicadas, mas que não permitem tanta variabilidade estratégica).

Essas características já se encontravam no Tigris & Euphrates, aquele que me fez apaixonar pelos jogos de tabuleiro modernos em 2009, e se repetiriam naqueles que também se juntaram aos meus preferidos. Imperial, um jogo que à primeira vista lembra o antigo War mas em que os jogadores não são os “donos” de um só país e na verdade compram títulos em cada um dos seis países e, se forem o jogador com mais títulos, controlam as ações daquele país (podendo controlar mais de um ou mesmo nenhum deles enquanto lucra com as ações dos demais países, além de poder “tomar” os países dos outros). Container, um jogo que simula uma economia onde jogadores podem produzir contêineres, compra-los de outros jogadores para seus portos e usar seus barcos para levarem dos portos dos demais jogadores à uma ilha, de forma que tudo acontece de acordo com a forma que os próprios jogadores controlam a economia e é completamente impossível jogar “sozinho”. E os inúmeros jogos de trem que geralmente envolvem disputas por rotas em um mapa e ganho financeiro via controle acionário (como em Chicago Express e a família 18xx) ou entrega de produtos pelas linhas férreas (como na família do Age of Steam).

Com a pandemia, acabei me dedicando mais a algo que anteriormente só fazia quando não havia outra opção — jogar pela internet jogos de tabuleiro. Se a princípio a ideia me pareceu mais um “quebra-galho” enquanto estava impossibilitado de jogar presencialmente, a atividade acabou me proporcionando a oportunidade de conhecer jogos que provavelmente não conseguiria jogar de outra forma, seja por serem títulos fora de catálogo ou difíceis de serem obtidos, ou por serem estilos de jogos cujos entusiastas não estejam tão perto para uma partida presencial.

Depois de mais de uma década desde que redescobri os jogos de tabuleiro, já escrevi resenhas, inúmeras postagens em fóruns e blogs, e participei de um podcast sobre jogos econômicos. É sem dúvida um hobby que veio para ficar.