Os jogos têm tido um papel significativo na minha vida, desde a infância até a maturidade da vida adulta. Como praticamente toda criança de classe mais privilegiada nos anos 80, tive acesso os clássicos de tabuleiro como Banco Imobiliário, Scotland Yard e War, mas confesso que a grande maioria deles não me empolgava a jogar com frequência.
Lembro de uma exceção nesse universo lúdico, que me despertou interesse logo à primeira vista — Hero Quest. Desde à primeira vista, aquela caixa enorme, com uma arte diferenciada e miniaturas, me encantou. Devorei o manual e em pouco tempo já organizava várias partidas com os colegas de rua.
Depois do Hero Quest, outro jogo que também me chamou bastante a atenção foi o Dungeons & Dragons, também um jogo extremamente bem produzido para a época. Depois de ganhar de Natal e ler as regras em pouco tempo, lembro que as primeiras partidas foram muito arrastadas, o sistema era talvez mais complexo do que eu e meu grupo estava acostumado, e infelizmente acabei não jogando jogando tanto ele quanto gostaria.
Na mesma época que entrava mais no universo de Dungeons & Dragons, passei a ser um leitor assíduo da revista Dragon, onde tinha contato com um universo muito maior de RPGs e outros jogos, como o Magic The Gathering. Quando Magic finalmente chegou ao Brasil corri para comprar e achar jogadores em minha cidade.
Mas ainda com o “gostinho” que ficou da experiência anterior do D&D, tentei também buscar um grupo de RPG, mas sem sucesso em manter algum. Felizmente, tempos depois, acabei descobrindo um grupo de jogadores na escola, que durou por muitos anos, e tive a oportunidade de jogar vários sistemas de RPG diferentes.
Já na idade adulta, ao me mudar para Brasília, e em busca de jogadores locais e outros hobbies, acabei encontrando a Ilha do Tabuleiro, um dos primeiros sites que congregava informações sobre jogos de tabuleiro modernos no Brasil. O site não era um exemplo de design, possuía uma interface poluída, mas funcional. E, por uma feliz coincidência, em Brasília se encontrava um dos grupos de jogos mais ativos à época: o Heavy Games Brasília. Como os convites para as mesas e eventos que o grupo organizava eram abertos, não pensava duas vezes: aparecia nas jogatinas do grupo, sem conhecer ninguém, me apresentava, e começava a jogar.
De uma forma que não inicialmente imaginava, a partir dos encontros do Heavy Games Brasília, os jogos de tabuleiro passaram a ser parte frequente do meu cotidiano social. Recém chegado à capital, sem parentes ou colegas além dos conhecidos do trabalho, os jogos foram uma forma bastante prazerosa de fazer novas amizades e contatos com pessoas muito distintas. E ainda jogava com uma frequência muito grande, e quase sempre com novos jogadores nas mesas, o que ampliou bastante meu círculo de amizades.
Das primeiras mesas junto com os colegas do Heavy Games Brasília, desbravando o universo dos jogos e jogando qualquer um que colocavam na mesa, até os tempos atuais, meu gosto lúdico foi mudando. Atualmente tenho apreciado jogos mais “elegantes”, com menos quantidade de regras e detalhes, mas com decisões difíceis e interações sutis, mas relevantes, entre os jogadores.
Atualmente nas agruras cotidianas para criação de um futuro jogador em casa, e após um longo período afastado das jogatinas presenciais por compromissos familiares e pandemia, me vi voltando aos poucos ao hobby com um olhar distinto. Me vejo hoje menos crítico a jogos que antes torcia o nariz, valorizando as experiências de jogar presencialmente e o aspecto lúdico em cada partida. Atualmente estou me reconectando aos designers clássicos como Knizia, Gerdts, Delonge, Wallace, Friese, Kramer e jogos de tabuleiro modernos mais “antigos”, mas que desde sempre pairam no topo dos meus favoritos.
E assim, entre muitos jogos, vamos levando a vida e as muitas partidas que ela nos reserva.