A pergunta ‘o que jogos significam pra você?’ me impacta de várias formas. Primeiramente sou tomado por um rápido flashback da minha história com jogos, em seguida um insight que parece conectar alguns pontos e dar sentido a muita que fiz/senti/passei envolvendo em minha vida.
‘Cronologicamente’ lembro inicialmente das jogatinas de Atari com meu pai, minha mãe e meus primos, lembro dos infinitos jogos de cartas que jogava com as outras crianças do meu prédio, lembro das partidas de Buraco e Yam que varavam a madrugada na casa dos meus tios.
Em seguida vieram os jogos de computador e com os incríveis adventures da Sierra e da Lucas Arts e os RPGs de computador: Ultima Underworld e Eye of the Beholder, jogados frequentemente em dupla com um amigo do prédio, eu pilotava o computador, ele dava pitaco e nós dois nos assustavamos juntos quando o HD começava a fazer barulho, esse era o sinal que ‘alguma coisa nova e obscura provavelmente estava sendo carregada na memória do PC’
Na transição de adolescente para a jovem adulto chegaram os RPGs de tabuleiro jogados nas férias com primos de outro estado: D&D, Vampiro, Tagmar, Darksun Corporação Eidos… uma infinidade de regras e universos para serem explorados.
Na época da faculdade os jogos digitais se tornaram o foco: Counterstrike e as jogatinas na Playlink seguido de Team Fortress e World of Warcraft que me apresentaria amigos fantásticos, queridos e acessíveis mesmo morando em países diferentes.
Finalmente, mais recentemente, os jogos de tabuleiros modernos que me conectaram a pessoas incriveis e moldaram a minha persona de professor em Curitiba.
Analisando todas essas memórias percebo que os jogos que mais lembro sempre tiveram esse caráter de ‘jogatinas com amigos’. De certa forma, jogos pra mim sempre foi uma forma de conectar pessoas. Até mesmo os jogos single player são uma forma de você se conectar com o autor… ao conseguir resolver um problema em um jogo solitário você pode nem perceber, mas acabou de conectar autor que projetou essa experiência.
Particularmente, gosto muito também da definição que diz que ‘jogos são uma forma estruturada de interação social’; acredito que para muitas pessoas o interagir ‘livremente’ em situações sociais pode trazer grande angústia e ansiedade: “o que eu falo agora?”, “e se eu contar uma piada e o pessoal não rir?”, “será que eu não vou ficar deslocado?” Mas quando você está jogando algo é fácil dizer: “estou comprando mais uma casa na Avenida Paulista”, “alguém quer trocar uma ovelha por uma madeira?”, ou mesmo um desaforado “compre duas!”
Essas interações são aceitas e fazem parte de um contexto lúdico que dá suporte a dinâmicas sociais. As regras do jogo afunilam as possibilidades iniciais de diálogos criando uma espécie de muleta sobre a qual podemos nos apoiar até ter segurança o suficiente para nos expressar livremente. E, se a gente não chegar nesse ponto, pelo menos conseguimos nos divertir um pouco.
Acredito que esse círculo mágico criou para mim ambientes seguros nos quais eu pude conhecer pessoas, conectar com familiares, compartilhar risadas e ‘desenvolver minha voz.
Refletindo um pouco sobre tudo isso, acho que jogo pra mim é na verdade uma desculpa para estar junto, para conhecer pessoas, um local para praticar a sua ‘voz’ e conectar com as pessoas que realmente importam pra você.