Os primeiros computadores foram desenvolvidos durante a II Guerra Mundial, para fins militares. Eram verdadeiras “armas secretas”, realizando intricados cálculos para as novas bombas atômicas e para a criptografia das comunicações. E não demorou nada a que os cientistas envolvidos com os “cérebros eletrônicos” criassem maneiras de usá-los para jogos. Afinal, eles precisavam testar os sistemas, e demonstrar as suas capacidades…

Os primeiros jogos em computadores eram versões paralelas de jogos conhecidos, como o Nim e o Jogo da Velha, no início dos anos 1950. Ainda não havia telas; somente em 1958 William Higinbotham demonstrou o jogo Tennis for two, usando um osciloscópio e um computador analógico. Em 1962, Steve Russell e vários colegas no MIT desenvolveram Spacewar!, usando o terminal reduzido de um computador digital DEC PDP-11. Foi programado usando linguagem de máquina, codificada em uma fita de papel perfurado.

Spacewar! foi um marco na história dos jogos. Aqui estava o primeiro jogo inteiramente desenvolvido em computadores, sem um paralelo no mundo não-digital. Além disso, seus autores o distribuíram amplamente; em termos contemporâneos, era software livre — um jogo freeware. Assim, ele inspirou e influenciou muitos outros programadores e cientistas envolvidos com computadores — na década de 1960, ainda uma comunidade muito pequena. Mas que estava crescendo, assim como crescia a relevância dos computadores.

Nosso velho conhecido Xadrez também estava presente nas reflexões destes cientistas. Ainda em 1947, Alan Turing desenvolveu um programa capaz de analisar uma posição final no tabuleiro; em 1948, Claude Shannon publicou um artigo no qual descrevia os critérios que precisariam ser atendidos por um programa capaz de jogar uma partida de Xadrez e vencê-la. Era o início das pesquisas em Inteligência Artificial (AI, artificial intelligence) — e jogos continuam a ser muito relevantes neste campo.

Os computadores iam ficando mais baratos e seu uso ia se disseminando. Quando Dunnigan criou o sistema de feedback dos leitores da revista Strategy & Tactics, os dados coletados eram transferidos para cartões perfurados, que alimentavam computadores com os dados da pesquisa de mercado. Em 1976, outro marco no mundo dos jogos digitais, mais uma vez em um programa desenvolvido em um computador DEC — desta vez, um PDP-10. Era o Colossal Cave Adventure, criado por Will Crowther e escrito em FORTRAN. Era um RPG: o jogador desempenhava o papel de um explorador de cavernas — Crowther havia se inspirado em sua própria experiência, como espeleólogo e como jogador de D&D. Assim como Spacewar!, Colossal Cave foi amplamente compartilhado.

Assim como havia acontecido com os RPGs, uma parte significativa do público dos primeiros jogos digitais era formada por aficionados de jogos de guerra. Também como os RPGs, os jogos digitais cresceram muito além de seu público inicial.

Hoje, jogos digitais estão por toda parte, assim como os dispositivos nos quais funcionam. Também integram a grande sinergia de meios de expressão. Dentro do grande mercado mundial de entretenimento, há anos que o faturamento da indústria de jogos ultrapassou o faturamento do cinema. Há jogos desenvolvidos por grandes equipes e orçamentos vultosos, e há jogos desenvolvidos por aficionados em seus computadores pessoais. Há “jogos casuais”, apropriados para alguns minutos de distração, como há jogos que consomem dezenas de horas de dedicação — e ainda há os que se aproximam do ideal do “jogo infinito”, nos quais o objetivo do jogador não é vencer, e sim continuar a jogar.

Os jogos digitais — games, como muitos os chamam — se agigantaram tanto que é comum encontrar uma reação de surpresa quando alguém descobre que ainda existem jogos não-digitais — quase sempre chamados, genericamente, de “jogos de tabuleiro”.

Não apenas existem, como estão vivendo uma verdadeira renascença. A última parte deste esboço histórico trata dela.