Já vimos que as regras que encontramos escritas na folha de papel — ou em fragmentos de papiros, ou em um tablete cuneiforme — são apenas o começo. Elas constituem o jogo, e definem o que pode acontecer dentro dele.

Mas ainda há mais regras, que não estão escritas nela. Já me referi a elas, quando mencionei a minha fracassada tentativa de apreciar o Truco com meus amigos. Podemos dizer que as regras da folha de papel são as regras formais do jogo; mas também há uma série de regras informais.

Algumas regras informais… Truco: faça barulho, seja espetaculoso em suas jogadas. War: não jogue os dados em cima do mapa.

De forma geral, as regras informais são expectativas sobre como um participante do jogo deve se conduzir. Pode ser uma questão de comportamento, de decoro — seja a circunspecção de uma partida de Go ou as brincadeiras ruidosas do Truco. Mas também pode ter efeito direto sobre a conduta do próprio jogo.

O Buraco funciona como um exemplo muito interessante aqui. O jogo tem uma série de variantes populares — por exemplo, “só pode bater com canastra limpa”, ou “trinca não vale”. Estas variantes se apoiam em mudanças nas regras formais do jogo; o primeiro exemplo muda uma das regras constitutivas (sobre o fim do jogo), e o segundo muda uma regra operacional (sobre o tipo de jogo que pode ser baixado). Mas isso não é tudo…

Uma das regras formais do jogo diz que, na minha vez de jogar, ou posso comprar uma carta do maço (monte, baralho), ou posso comprar todas as cartas do bagaço (lixo, descarte) e descartar uma. Esta regra geralmente não é modificada em variantes (embora possa haver condições para comprar do bagaço).

No entanto, em qualquer mesa com jogadores mais experientes, quem fica apenas comprando cartas do bagaço é mal visto, pode mesmo ser censurado. É uma jogada válida conforme as regras formais… mas transgride uma regra informal!

Nos jogos digitais de tiro em primeira pessoa (FPS, first-person shooters), existe uma polêmica sobre os jogadores chamados campers (campistas) — que “acampam” em uma posição protegida e privilegiada, de onde ficam disparando sobre os adversários. Mesmo sendo uma tática militar reconhecida e praticada no mundo real, em alguns jogos digitais ela é censurada e condenada pelas comunidades de jogadores. Assim como no caso do “lixeiro” no Buraco, há um comportamento autorizado pelas regras formais do jogo, mas condenado pelas regras informais.

Há uma brincadeira comum entre jogadores experientes: não existe polícia das regras. Na verdade, o poder de criar “regras da casa” (house rules), variantes, sejam formais ou informais, é o reflexo de um aspecto crucial de nossa relação com as regras, como veremos mais adiante.

Vale notar que, assim como no caso das regras formais, também há variantes nas regras informais. Mais adiante, vou falar mais sobre a natureza social das regras em geral, mas ela é especialmente visível no caso das regras informais. Diferentes grupos de jogadores frequentemente têm regras informais diferentes sobre o mesmo jogo.

É raro que as regras informais sejam ensinadas explicitamente. O mais das vezes, há um processo de aquisição também informal, em tudo semelhante ao processo de aquisição de uma língua: vamos aprendendo estas regras pelo exemplo, pela prática… e, especialmente, pela censura à transgressão.

Afinal, transgressões fazem parte de qualquer jogo.