Estudos de Ética histórica mostram que a Regra de Ouro aparece em muitos lugares e em muitas épocas distintas. Ela aparece em forma negativa — “não faça aos outros o que não quer que façam com você” — ou em forma positiva — “faça aos outros o que quer que façam com você”.

Esta regra tem um forte componente de reciprocidade, mas não é a reciprocidade do “olho por olho”. A Regra de Ouro é um fundamento admirável para uma sociedade.

Mas ela não tem nada de instintiva; talvez por isso tenha sido tão necessário repeti-la, ao longo dos séculos.

Ela se modifica e se apresenta de muitas formas, ao mesmo tempo que serve como ponto de origem para outras regras, e também para sistemas normativos.

Podemos notar esta origem em um dos princípios fundamentais do Estado de Direito contemporâneo: “a lei vale para todos”.

Vamos dizer isso de outra maneira? Que tal “todos temos que respeitar as regras do jogo”?

O círculo mágico não é estanque. Mesmo dentro dele, ainda somos elementos de muitos outros sistemas. Filhos. Estudantes. Trabalhadores.

Cidadãos.

Como os jogos, as sociedades também se baseiam em conjuntos de regras formais e informais. Todos os dias, exercemos nossa agência sobre as regras da nossa sociedade.

Mas não importa se falamos da agência sobre as regras de um jogo, ou em nossas sociedades. O exercício desta agência nos coloca em um processo de aprendizagem significativa. Aprendendo a lidar com regras, aprendemos a exercer o autocontrole — elemento fundamental do processo pelo qual nos civilizamos.

Entre pesquisadores e criadores de jogos, está tomando corpo um movimento de preocupação com o conteúdo ético e moral dos jogos. Isso, em si, não é novo — basta pensar em Jefferys e seu Journey Through Europe. Mas a perspectiva, agora, é um pouco diferente: a questão não é que o designer deve usar seu jogo como um meio para transmitir tal ou qual ensinamento moral, e sim que ele deve ter consciência de quais são os efeitos éticos e morais do jogo que ele cria. E as próprias regras são um valor significativo — são elementos do jogo que exercem impacto fora do seu círculo mágico.

Dentro do círculo, descobrimos a magia das regras: aprendemos a criá-las, realizá-las, mudá-las.

Também aprendemos a identificar transgressões; a agência das regras também inclui saber porque punir, quando punir, como punir.

Mas a importância das transgressões não é apenas negativa. Também temos que saber quando e porque transgredir.

A transgressão é um dos meios pelos quais podemos provocar mudanças. Para criar novas variantes e jogos, claro, mas muito mais do que isso: também para criar uma nova sociedade. Não é à toa que regimes autoritários procuram reduzir ou neutralizar a agência sobre as regras.

A aprendizagem significativa da agência sobre as regras nos capacita a saber lidar com elas em muitos outros contextos. Ela se torna mais uma ferramenta cognitiva ao nosso alcance; com ela, podemos examinar melhor perspectivas inesperadas de coisas com que lidamos todos os dias.

Existe aqui um risco, um preço a pagar — como sempre existe em qualquer processo de aprendizagem.