Muitos jogos têm sua origem em atividades do nosso cotidiano. Por exemplo, o jogo SET foi criado por Marsha Falco em 1974, e originou-se de um sistema de códigos em cartões, que ela usava em seu trabalho de geneticista. Às vezes, a atividade pode não ser tão cotidiana, mas é bem conhecida ou estudada. Considerando a frequência com que nossa espécie recorre à guerra, não é de surpreender que muitos jogos a tenham por origem, ou por objeto.
Mas o jogo ganha um significado próprio, e pode se afastar consideravelmente de seu ponto de partida. Por exemplo, é possível que o Go tenha se originado como um exercício de táticas de guerrilha e ocupação de espaços inimigos. Mesmo que isso seja verdade, aquelas circunstâncias deixaram de existir há milênios e estão completamente esquecidas — mas o jogo perdura.
Incidentalmente, uma das dicotomias comuns no estudo de jogos é entre jogos temáticos e jogos abstratos. Os primeiros são aqueles nos quais um tema da vida real influencia diretamente o funcionamento de um jogo: por exemplo, Escrete (criado por Chico Buarque de Holanda, publicado em 1982) é um jogo inspirado no Futebol, então diferenças entre habilidades de atletas têm impacto no jogo. Já os jogos abstratos estão afastados da realidade — como no Dominó.
No caso do Xadrez, a origem bélica ainda pode ser percebida — embora o modo de guerra estilizado ali também tenha desaparecido há muitos séculos.
Era uma guerra conduzida por nobres, destacados em meio a uma massa indiferenciada de soldados comuns. Seu objetivo era a captura do rei inimigo; havia a expectativa de que o monarca estivesse presente no campo de batalha, não como um combatente, mas como o ponto focal da hoste. Quaisquer que fossem os sucessos no combate, um exército estava derrotado se seu rei fosse capturado — e executado: a expressão “xeque-mate” deriva do persa shāh māt, “o rei morreu”.
O Xadrez contemporâneo é a face mais conhecida de uma grande família de jogos. Em alguns de seus primos, as características do combate arcaico estão mais preservadas: no Xiàngqí (“xadrez chinês”), o tabuleiro tem um rio e dois palácios, e as peças nobres incluem elefantes, carros de guerra e canhões.
As características fundamentais deste modelo de guerra eram comuns a muitas culturas do Velho Mundo; não é de surpreender que o Xadrez tenha se disseminado para tão longe, a partir de sua origem na Índia por volta do século VI. Por toda a parte, a nobreza era a responsável por conduzir a guerra, então o jogo era facilmente percebido como uma maneira de estudar elementos de estratégia.
Por mais que fascinasse a nobreza, o Xadrez não era seu privilégio; assim como acontece hoje, era apreciado e praticado por muitos plebeus. Muitas vezes, sua popularidade ocasionou condenações e proibições por clérigos das religiões mosaicas — muçulmanos, cristãos, judeus. Nada de novo nisso: estas tradições religiosas têm um forte componente moralizador, que frequentemente é interpretado sob a forma do “você não pode se divertir” — especialmente se você é um plebeu, vá trabalhar para o benefício alheio ao invés de ficar aí perdendo tempo…
A forma contemporânea do jogo começou a se fixar pelo século XIII, na Espanha. Em 1283, o rei Alfonso X de Castela fez publicar o Libro de los juegos, ou Libro de axedrez, dados e tablas. Este documento precioso inclui traduções de textos em árabe; é o mais antigo texto europeu sobre jogos das famílias do Xadrez e Tablas. Em algumas das iluminuras do livro, o próprio rei aparece jogando com parentes e amigos, em cenas bastante informais, revelando o interesse e o entusiasmo pelos jogos.
Uma característica notável do tratamento do Xadrez no livro castelhano era a presença de problemas: situações do jogo, apresentadas nas ilustrações, com aspectos de quebra-cabeças — por exemplo, “brancas jogam e dão mate em três movimentos”. O jogo já estava evidenciando vida própria, com um significado cada vez mais afastado de sua origem bélica.
Por outro lado, a face militar do jogo continuava bem presente sob outro aspecto. Mesmo quando aquele estilo de guerra já estava se tornando obsoleto, o Xadrez continuava a inspirar ideias ligadas ao combate, como veremos um pouco mais adiante.