O livro de Alfonso X trazia muitos dos jogos praticados no Mediterrâneo, mas durante a Idade Média outras culturas tinham suas linhagens de jogos. No norte da Europa, os jogos da família Tafl apresentavam a particularidade de serem assimétricos: um jogador com poucas peças, outro jogador com mais peças.

Aos poucos, as transformações tecnológicas medievais foram influenciando os jogos. As primeiras cartas de jogo, na China, haviam aproveitado a tecnologia de impressão com blocos; como as cartas chegaram à Europa antes da tecnologia de impressão, os primeiros baralhos europeus eram compostos por cartas criadas uma a uma. Mas o desenvolvimento da imprensa e das artes visuais abriu novas possibilidades para os criadores de jogos.

Por volta do século XVI, apareceu na Itália um jogo que logo passou a exercer uma influência gigantesca, que ainda perdura. Foi o Jogo da Glória, ou Jogo do Ganso. O tabuleiro apresenta um percurso com casas numeradas; os jogadores lançam um ou dois dados, e movem suas peças pela quantidade correspondente de casas, procurando chegar ao ponto final do percurso. Algumas casas do caminho têm penalidades, outras concedem bônus.

O Jogo da Glória é, portanto, um dos membros da grande família dos jogos de corrida; neste sentido, é descendente direto do Senet. Tabuleiros do Jogo da Glória eram criados com grande arte, tornando-se até presentes trocados entre membros da realeza europeia. Tornou-se um passatempo comum para a nobreza da Idade Moderna, em um interessante contraste com o Xadrez: aquele, cada vez mais, ganhava uma aura de “jogo para pessoas inteligentes”, por ser um jogo de estratégia, sem qualquer elemento do acaso; por seu lado, o Jogo da Glória era inteiramente aleatório, e assim dava chances iguais de vitória a todos os jogadores.

Além disso, o Jogo da Glória permitia que mais pessoas participassem de uma partida, e ainda oferecia a oportunidade de brincadeiras e gracejos, ligados aos acontecimentos determinados pelas casas do jogo. Era um perfeito exemplar do que hoje chamamos party games — literalmente, “jogos de festa”, ou “jogos sociais”: são divertimentos descompromissados, que ajudam a alegrar o convívio em uma reunião de amigos.

A ideia de lançar um dado e andar pelo tabuleiro — frequentemente chamada de “rolar-e-mover” — não era novidade. Mas o impacto cultural do Jogo da Glória foi enorme. Muitos jogos antigos continuam a ser populares hoje em dia — Moinho, Ludo, Xadrez, Damas, Gamão, inúmeros jogos de cartas… mas a arte dos tabuleiros do Jogo da Glória estabeleceu um verdadeiro nicho cultural. Fosse nas versões artísticas e luxuosas das mesas nobres, fosse nas versões impressas para o grande público, para muitos ele se tornou o modelo, mesmo o estereótipo do que seja um jogo de tabuleiro.

Esta pode ser parte da explicação para tantos jogos se basearem neste modelo — quase como se fosse um requisito para serem percebidos como jogos. Por exemplo, o jogo Cluedo (conhecido como Detetive no Brasil) é um jogo de dedução com base em perguntas; mas o movimento das peças dos jogadores é baseado no lance de um dado, de forma análoga à do Jogo da Glória. O mesmo modelo foi empregado no Monopoly (o familiar Banco Imobiliário), que ampliou e reforçou a influência dos jogos de corrida como os jogos por excelência.

Ao tempo em que o Jogo da Glória se popularizava na Europa, mais uma vez ganhava força a ideia de que adultos não podem “perder tempo” com jogos, mas que crianças podiam ser educadas por meio destes objetos perigosos. Um dos primeiros criadores de jogos que conseguimos identificar foi John Jefferys, autor de A Journey Through Europe (1759). Assim como no Jogo da Glória, o movimento das peças em seu jogo era determinado por um dispositivo aleatório — mas não um dado, e sim um teetotum, um pião com lados numerados. Dados eram instrumentos de perdição, afinal — podiam ser usados para apostas! Aparentemente, a aleatoriedade podia ser pecaminosa ou não, dependendo do formato do dispositivo que a originava…

As casas do percurso eram marcadas sobre um mapa do continente europeu; então, além de preservar as jovens mentes impressionáveis do contato com dados pecaminosos, o jogo de Jefferys ainda lhes ensinava geografia, e especialmente ensinava o que pensar sobre os diferentes lugares visitados — com direito a palavras de desprezo para o Papa em Roma e para outros inimigos da Grã-Bretanha, e menções elogiosas às tropas britânicas em lugares como Gibraltar. Ignoro se Jefferys foi o primeiro criador de um jogo educacional; mas certamente foi um praticante entusiasta da disseminação de ideologia como parte da educação infantil.

No campo dos jogos de estratégia, pelo século XVIII o Xadrez continuava em destaque, adquirindo a sua forma contemporânea — e as transformações do papel da Dama (ou Rainha) são um capítulo à parte na longa e triste história da maneira como as mulheres são percebidas na cultura ocidental. Paralelamente a isso, o velho jogo indiano estava agora inspirando novos criadores de jogos, mas não no sentido abstrato; ao contrário, tinham metas muito ligadas ao mundo real.