Cabe-me a honra de encerrar esta homenagem – fácil receber uma honra assim, quando se é um dos organizadores! Justiça seja feita: a minha parcela, neste trabalho, foi reduzida; minhas queridas cúmplices, Patrícia e Mariana, foram as verdadeiras forças motrizes do livro.
As páginas precedentes mostraram inúmeras facetas do Adriano. O foco maior estava em sua carreira acadêmica; este é, afinal, o propósito de um Festschrift. Ao mesmo tempo, algo que transborda, em todos estes relatos e ensaios, é que Adriano atravessa, ultrapassa, transgride os vetustos limites da academia.
Conheço bem estes limites; assim como meu amigo, transito por eles com regularidade, com a vantagem de poder simplesmente ignorá-los. Não preciso pagar o preço da transgressão.
Então, trago aqui um pouco do Adriano que existe no mundo fora da academia. Nem poderia ser de outra maneira. Tive a alegria de compartilhar algumas atividades acadêmicas com meu amigo, mas nem chego perto de seus vastos conhecimentos sobre fenomenologia, psicologia e filosofia. Não faço a menor ideia de qual seja a diferença entre Dasein e Sein; se Adriano me apresentasse Heidegger e Husserl, eu perguntaria se eles gostariam de jogar Ticket to Ride.
Mas isso não me impede de refletir sobre Adriano, e sobre a maneira como ele está no mundo; e, nesta reflexão, penso que o que melhor o caracteriza é a sua paixão. Esta é a sua força e, por isso, a sua vulnerabilidade.
Existe um discursos sobre a contingência, sobre a não-lógica, que precisa cair dentro do domínio da razão. Isso fica claro com a ideia de paixão, que tem uma característica híbrida. Paixão é um conceito racional, para dar nome ao que não é racional; e isso faz da paixão, a um tempo, o absoluto não-pensar da existência humana, e também a sua racionalização abusiva. (Michel Meyer, Le Philosophe et les Passions)
Adriano é um apaixonado. Com paixão ele está no mundo; com paixão ele procura entender no mundo, e muito consegue; com paixão ele procura sentir no mundo, e muito não consegue. Nenhuma surpresa nisso: é da natureza da paixão que ela não pode ser satisfeita.
O caráter ilimitado de nossa necessidade da outra pessoa equivale a isto: tudo o que obtemos das outras pessoas, ou o que elas nos dão, ou o que elas representam para nós simplesmente por sua existência passada ou presente, parece uma amostra, um adiantamento de uma transação espiritual que somos incapazes de completar. O caráter irrestrito da necessidade é confirmado por nossa incapacidade de especificar exatamente o que seria preciso para preenchê-la: tão logo ela parece, em certa definição de seu caráter, ter sido preenchida, julgamos que, numa definição ligeiramente diferente, ainda está por ser satisfeita. (Roberto Mangabeira Unger, Paixão).
Paradoxalmente, a insatisfação exacerba a paixão. A mesma paixão que o move também o desespera. Penso que uma das coisas que nos aproxima é o compartilharmos este conflito; nossas reações e respostas são distintas, mas entre nós haveria ao menos a camaradagem das trincheiras, ainda que mais nada.
E no entanto, há muito! Adriano tem presença marcante em minha vida há mais de quarenta anos; é um dos irmãos que a vida me deu. Foi um dos primeiros integrantes da nossa querida Confraria Lúdica, uma das mais fulgurantes nesta coleção de almas incandescentes. Mais uma vez, nenhuma surpresa nisso – porque um grupo de jogadores é, ao mesmo tempo, um grupo de transgressores.
Os fora da lei, os revolucionários, os membros das sociedades secretas, os hereges de todos os tipos têm tendências fortemente associativas, se não sociáveis, e todas as suas ações são marcadas por um certo elemento lúdico. As comunidades de jogadores geralmente tendem a tornar-se permanentes, mesmo depois de acabado o jogo. É claro que nem todos os jogos de bola de gude, ou de bridge, levam à fundação de um clube. Mas a sensação de estar “separadamente juntos”, numa situação excepcional, de partilhar algo importante, afastando-se do resto do mundo e recusando as normas habituais, conserva sua magia para além da duração de cada jogo. (Johan Huizinga, Homo ludens)
Quantas vezes compartilhamos mesas de jogo, quantas vezes compartilhamos a hospitalidade um do outro. Hoje tenho a felicidade de viver em uma casa perto do mar, mas a ideia nasceu de uma observação singela dele, em umas férias que compartilhamos. Enquanto não chega a hora de ele poder fazer o mesmo, recebo-o com alegria em minha casa.
Duas vezes ele foi meu padrinho de casamento – e dele ganhei um dos melhores presentes de minha vida: as suas palavras a meu respeito, quando conduziu um brinde.
Assim, escolho retribuir também com um brinde. Adriano, meu querido confrade, padrinho, amigo, irmão:
_Um brinde a seu caixão! Que tenha seis alças de prata; que seja carregado por seis belas jovens; e que seja feito com a madeira de uma árvore de cem anos… que eu vou plantar amanhã!
Feliz aniversário!