Meu irmão era um bruto. O mundo está melhor sem ele.

Mas eu nunca imaginei que minha vingança causaria tanto mal, a tanta gente.

Desde criança, Garlon sentia prazer em causar sofrimento. Nunca a animais — sua presa eram pessoas, suas armas eram a língua e o ataque à traição. Ainda vejo, em minha mente, o seu riso odioso, quando escarnecia de suas vítimas.

Não sei se teria sido diferente se nossa mãe tivesse sobrevivido a seu nascimento. Porque nosso pai aceitava tudo o Garlon fazia. Nem digo que perdoava, porque ele nunca viu nada errado no que Garlon fizesse. Depois que ele morreu, nosso irmão mais velho tornou-se o Rei Pescador em seu lugar; mas Pellam tratava Garlon com o mesmo favoritismo, rindo com ele quando o monstro contava suas últimas façanhas, sempre se colocando como um herói.

Eu fui a vítima preferencial de Garlon por muitos anos. Ele sabia muito bem que levaria uma bofetada, no mínimo, se usasse seus truques com qualquer dos nossos irmãos. Mas comigo era diferente. Lembro da vergonha e da dor que senti, num dia em que me queixei a nosso pai, e ele riu e sentou Garlon ao seu lado, dizendo que estava orgulhoso de ver que seu filho caçula já sabia como lidar com mulheres.

Minha chance de fugir de Garlon veio quando Pellam se tornou rei. Na festa de sua coroação, um cavaleiro chamado Durnore pediu-me em casamento. Eu não o conhecia, mas ele disse a meu irmão que tinha terras próximas, que muito desejava uma aliança com o rei de Listeneise, especialmente pelo casamento com uma donzela de grande virtude e beleza como eu.

Fiquei estupefata. Pellam me chamou; quando me apresentei, ali na frente de toda a corte, Durnore tomou a minha mão e a beijou. Pellam disse que iria considerar o pedido de Durnore, e convidou-o a sentar ao meu lado.

Durante a festa, Durnore e eu compartilhamos um dos grandes pães sobre os quais o jantar foi servido. Ele me tratou com toda a cortesia, frequentemente demonstrando sua simples alegria por estar ali comigo.

Depois da festa, recolhi-me a meu quarto, e demorei muito tempo a dormir, pensando sem parar em Durnore — seu sorriso, seu olhar, seus gestos…

Na manhã seguinte, fui ao pátio me despedir dele. Pellam estava comigo, e repetiu a Durnore que iria considerar seu pedido. Depois que nos despedimos, ficamos vendo Durnore se afastar, cruzando a pequena ponte em frente ao castelo.

De repente, ouvimos os sons de um cavalo a galope, primeiro sobre a terra nua, depois fazendo ressoar a madeira da ponte. Eu olhava, sem entender de onde vinha aquele som, e Durnore se voltou em seu cavalo, claramente também perplexo.

O golpe o colheu em cheio, e ele foi arremessado para fora de seu cavalo. Eu o vi cair como se fosse uma trouxa de roupas, e a seguir ouvi o riso cruel que conhecia tão bem.

Eu estava em choque, olhando aquilo sem entender. Pellam ainda estava ao meu lado, sem demonstrar qualquer emoção. Em meio a sua gargalhada, vi Garlon aparecer junto à ponte, armado e montado em seu cavalo. Ele estava removendo uma capa que o havia escondido. Ainda rindo, pôs seu cavalo a trote em nossa direção, e falou a Pellam sem desmontar.

“Meu irmão, que presente magnífico! Você viu a cara dele?”

Desta vez, Pellam riu, e disse “Muito bem, Garlon. Vejo que a capa está em boas mãos.”

Garlon avançou seu cavalo para junto de mim. Tentei me afastar, mas não consegui. Ele apertou meu queixo entre seus dedos, balançando um pouco minha cabeça para um lado e para outro, dizendo “Irmãzinha, não pense que vamos entregar você a qualquer um. Você precisa de um macho, para tratar você como deve ser tratada.”

Ele e Pellam se afastaram, rindo.

Não chorei. Não ali. Chamei algumas pessoas para me ajudarem, e fomos até Durnore. Ele estava morto, o peito aberto pela lança de meu irmão, o rosto ainda demonstrando surpresa.

Naquela noite, sozinha em meu quarto, chorei. Depois que acabei de chorar, decidi que não voltaria a passar uma noite naquele castelo. Fiz meus planos para o dia seguinte… e jurei a morte de Garlon.


Nineve, a Dama do Lago, me aceitou como noviça. Eu não escondi quem eu era, e nem a minha linhagem; eu sabia que Pellam e Garlon não poderiam me alcançar, enquanto eu estivesse sob a proteção de Nineve. Mas não sei se tentaram ao menos saber de meu paradeiro.

Passei anos sob a tutela da Dama do Lago, aprendendo com ela e com as outras irmãs. Eu queria aprender: queria o conhecimento que me daria a minha vingança. O pequeno poder de minha linhagem neste mundo é apenas uma sombra pálida do seu poder no Outro Lado. Um encantamento corriqueiro ou um mero filtro nunca seriam capazes de atingir meu irmão.

Mesmo reclusa no Lago, alguns raros viajantes traziam notícias do mundo. Foi assim que soube das histórias sobre um misterioso cavaleiro invisível, que causava dor e morte por onde passava. Foi Merlin quem trouxe a notícia quando Arthur tornou-se rei. Ele e Nineve passaram dois dias encerrados nos aposentos particulares dela. Quando saíram de lá, Nineve chamou duas acólitas para ajudarem com uma tarefa especial; eu fui uma das selecionadas.

A tarefa consumiu quase um ano inteiro. Ao longo destes meses, encantamos uma espada do mais fino aço, que Nineve depois entregou a Arthur. Também encantamos a bainha para a espada, ornamentada em ouro e pedras preciosas.

A criação de Excalibur deu-me o conhecimento que ainda me faltava para realizar a minha vingança. Depois que esta grande tarefa foi encerrada, retornei a meus estudos normais; e, em segredo, passei a encantar uma outra espada e bainha.

Eu havia aprendido muito, verdade. Mas eu apenas achava que tinha aprendido uma das lições mais importantes, sem que na verdade eu tivesse aprendido a aplicá-la ao que eu sabia.

Não havia conhecimentos proibidos no Lago. Cabia a cada uma de nós encontrar o seu próprio caminho; em especial, cabia a cada uma de nós aprender a identificar riscos e perigos com o que aprendíamos. “Se nós simplesmente dissermos a vocês quais são os riscos, vocês nunca vão entendê-los. Vocês é que precisam descobri-los.” Ouvi esta frase muitas vezes; tantas vezes, que achei que já tinha aprendido esta lição.

Foram dois anos de trabalho para criar a minha espada. Nela imbuí poderosos encantamentos, para que ela destruísse meu irmão. Mas eu tinha um problema: por mais justa que fosse a minha causa, eu mesma não tinha como ativar os encantamentos, pois meu coração estava negro com o ódio que eu votava a Garlon. Eu precisava de alguém honrado para poder disparar o poder que eu havia colocado na espada; somente depois disso, eu poderia levar a espada até Carbonek e matar meu irmão.

Eu não podia pedir isso a ninguém no Lago. Eu não podia revelar o meu coração e o meu projeto.

Mais uma vez, deixei um lugar sem olhar para trás.


Ao arauto que me recebeu, e que me anunciou, eu disse que vinha da parte da senhora da Ilha de Avalon. Mas o jovem não entendeu o que falei, e me anunciou como “uma dama da parte da grande senhora Lile de Avalon”. Não me dei ao trabalho de corrigi-lo; mesmo sem fazer sentido, o importante era disfarçar que eu tinha sido parte da irmandade do Lago.

Na presença de toda a sua corte, eu disse a Arthur que a espada em minha cintura somente poderia ser retirada da bainha por um cavaleiro sem medo e sem mácula, e que eu sabia que na corte de Arthur este cavaleiro poderia ser encontrado. O rei se prontificou a tentar, e convidou seus cavaleiros a fazerem o mesmo.

O que eu não contava era que todos aqueles cavaleiros rudes e fortes iam ficar com medo de mim! Não sei se era a aura do Lago, ainda presente; ou a estranheza de verem uma donzela cingindo uma grande espada, em meio a vestes femininas. Vi vários deles se persignando, ou fazendo gestos pagãos contra o mal, e alguns fizeram as duas coisas. Mesmo que vários deles fossem cavaleiros sem mácula, claramente nenhum deles era um cavaleiro sem medo, naquele momento. Nenhum deles conseguiu retirar a espada da bainha.

Eu estava furiosa, e já me preparava para deixar o salão de Arthur, quando um cavaleiro se adiantou e pediu para também tentar. Ele estava mal vestido e mal cuidado, e na minha irritação recusei-me a permitir; mas ele me chamou às falas por isso, dizendo que a aparência nada revela do caráter. Olhando em seus olhos, percebi que ele não demonstrava medo, e decidi permitir-lhe o desafio.

Ele se aproximou, e eu segurei a bainha, o pomo da espada em sua direção. Ele segurou o punho e facilmente retirou a lâmina, erguendo-a alto para que todos a vissem. Meu coração deu um salto, e permiti-lhe seu momento de glória, sob os aplausos dos cavaleiros — mas eu notei muitos rostos contrariados em meio à companhia.

“Senhor cavaleiro, agradeço que tenha demonstrado sua honra e seu valor. Agora, peço que me devolva a espada, para que eu possa seguir meu caminho.”

Ele olhou para mim, contrariado, e me respondeu “Não, minha senhora. Por aventura esta espada veio à minha mão, e eu aceito a demanda, aonde quer que ela me leve, e a enfrentarei com esta espada em minha mão.”

Senti o chão se abrir a meus pés. A espada tinha que ser minha, para que matasse meu irmão. Se ela fosse de outra pessoa…

“Senhor cavaleiro, se ficar com esta espada, ela será a causa da morte da pessoa que mais ama.”

“Não importa, minha senhora, não fujo à demanda, aonde quer que ela me leve.”

Naquele momento, um véu se rasgou ante meus olhos, e ali entendi a advertência das minhas mestras. O que eu tinha feito?

Balin, o cavaleiro, levou a espada, e nas semanas seguintes eu tive a resposta. Banhada em sangue.

A primeira vítima foi minha mestra. Nineve foi a Arthur e pediu-lhe minha cabeça, ou a de Balin. Mas o cavaleiro, enraivecido, cortou-lhe a cabeça — com a minha lâmina, na presença de Arthur! O gesto tresloucado de Balin levou a seu banimento; temo que tenha sido provocado pelos encantamentos da espada. Logo a seguir, Merlin foi à corte e, sem revelar nada dos mistérios, disse que eu era uma mulher falsa e perigosa. Felizmente eu já não estava lá, e sim tentando acompanhar Balin, sem que ele o percebesse.

Ele deixou um rastro de dor e destruição por onde passou. Meus encantamentos funcionaram, afinal: ele chegou a Carbonek, e matou Garlon. Perseguido por Pellam, tomou a Lança do Destino e feriu meu irmão mais velho em seus órgãos genitais. A Ferida Dolorosa a chamam agora; e, mesmo que eu não tenha piedade da dor que meu irmão sente, todos os dias, com sua ferida aberta, sinto profundo remorso pelo efeito malsão que a ferida leva a toda a região, causando pestilência, morte e desolação.

Balin terminou também vítima da maldição que coloquei na espada, e com ela matou seu próprio irmão, antes de morrer às mãos dele.

Minha responsabilidade. Minha culpa.

Tenho muito o que expiar, mesmo sabendo que nunca o conseguirei.

Mais uma vez, tornei-me noviça. Mas, desta vez, não busco conhecimento, e sim o perdão de meus pecados. A abadessa tomou-me sob sua proteção, para que aqui eu possa me submeter à vontade de Deus.

Desta vez, não vou deixar este lugar em segredo, e sem olhar para trás. Aqui fico, até que a Providência decida me levar a julgamento.