Ywaine, meu filho, ficou furioso comigo quando encontrou Accolon em meu leito. Chamou-me pelos nomes mais feios em que seu coração gentil conseguiu pensar na hora. Acho que, para ele, o pior deles foi “traidora do leito conjugal”.
O que ele diria se me visse agora, acolhendo seu pai, meu marido, a um lado; e Accolon, meu amante, a outro? Os movimentos de respiração dos dois, de encontro aos meus seios, reiteram ao mesmo tempo o meu papel de matrona e o meu papel de donzela. Enquanto eles dormem, meu espírito dá asas ao meu terceiro papel, e minha Visão se move.
Que belo contraste, este entre meus homens. Accolon é todo romano — sua pele mantida raspada e oleada por seus escravos, cabelos e barbas curtos. Minha mão passeia por ele como que deslizando por uma campina. Uriens é todo galês, o corpo recoberto por pelos curtos, barba cheia, os cabelos longos. Se Accolon é uma campina, Uriens é um bosque, cheio de surpresas, capaz de arrebatar e conquistar mesmo com gentileza.
Na primeira vez em que compartilhou nosso leito, Accolon ainda mantinha a arrogância romana. Aceitou de bom grado as minhas carícias e as de Uriens, mas se recusou a retribuir. Não tivemos pressa. No tempo dos deuses, Accolon sentiu-se parte das nossas dádivas, ao invés de se sentir recebedor delas.
Os dois ainda estão no primeiro sono. Daqui a pouco, vão acordar e, mais uma vez, me possuir. Não preciso da Visão para saber isso.
Mas é a Visão que me revela os acontecimentos após estes. Depois do amor, Uriens vai nos deixar, para voltar a Gore, viajando na madrugada para fugir do calor do dia. Ao fim deste dia que ainda não começou, vou entregar a Accolon a espada e a bainha de meu irmão, para que Accolon o enfrente em combate mortal.
Enquanto acaricio a pele lisa de Accolon, sei que esta é a sua última noite.
Arthur vai recuperar Excalibur. E também a bainha, ao menos por algum tempo. Meu amado vai derramar seu sangue no pó. Amanhã, eu vou aconchegá-lo a meu seio, como agora; não mais suado pelo amor, mas ensanguentado pela morte.
Minha Visão não mostra se eu vou chorar. Mas uma lágrima ameaça escorrer agora.
Quem tem a Visão aprende que não é possível Ver e, ao mesmo tempo, controlar. Eu cumpro meu papel, abençoada por não ter escolha, amaldiçoada por saber disso.
Será que Merlin aceitou perder a Visão, para ganhar a capacidade de manipular? Ele sempre foi a ambiguidade em pessoa. Eu o amava e o odiava. Sua risada insuportável marcava os momentos com ele, da mesma forma que o seu saber, que ele compartilhava com alegria e com amor. Quando ele estava com Nineve, eu não sei se eu tinha mais ciúmes dele ou dela. Nunca me chamaram a compartilhar seu leito.
Ainda assim, tive momentos de amor e saber com ambos — nos grandes rituais, à luz dos fogos sagrados; ou nos momentos do cotidiano, nada rituais, mas tão maravilhosamente importantes.
Minha mãe e meu pai não me legaram sangue feérico. Mas, quando concebi um filho feérico, um pouco do seu sangue se misturou ao meu, e sinto o poder de seu pai em minhas veias. Não foi ele quem me deu a Visão, mas ela foi ampliada e aguçada pelo amor que compartilhei com o Povo Antigo.
Com minha Visão, posso apenas contemplar o jogo que Merlin joga.
Ele me disse uma vez que o que importa nos planos não é terem sucesso, mas terem acontecido. Disse, ainda, que as palavras têm o poder de moldar uma parte da realidade, mas que o iniciado não deve, nunca, esquecer que os acontecimentos têm seu próprio poder.
A Visão é como o olhar. Se a elevo para Ver mais longe, menos percebo o que está próximo. Se a alargo para Ver mais do tabuleiro — mas nunca todo ele —, consigo Ver melhor as jogadas, mas menos percebo o custo delas. Menos percebo os corpos.
Eles estão lá, mas posso fingir esquecê-los.
No tempo dos deuses, mais uma vez cumprirei o papel de matrona, aconchegando meu irmão a meu seio, como agora aconchego aquele que ele vai sacrificar mais tarde. Na barca para Avalon, vou acolher e aconchegar a cabeça ensanguentada de meu irmão, para curá-lo e nutri-lo, e guardar o plano sutil que nos abriga.
Nossos papéis. Eu, Merlin, meus amados, meu irmão — todos nós jogamos e somos jogados, joguetes e jogadores, no único jogo infinito que existe.