Prezado Lancelot:

Escrevo esta carta a bordo da Fière, que me leva sobre o Mar Bretão para o reino de Arthur. Peço-lhe que a leia, após a minha morte, para toda a corte; e que, depois, a faça chegar às mãos de meus irmãos.

Saibam que eu sou Brumant, cavaleiro do bom rei Claudas. Em momentos anteriores da minha vida, eu aqui listaria os meus feitos de armas a serviço de meu rei; mas vou silenciar sobre eles, pois esta carta trata de assunto mais grave.

Esta minha viagem vai acabar em dois dias, na festa de Pentecostes. Eu embarquei ontem, em Harfleur; mas a minha viagem começou há oito dias, em Orléans. A cidade havia aberto as portas ao rei Claudas, e ofereceu-lhe um banquete, como marca de submissão.

Durante as festividades, vários cavaleiros começaram a discutir sobre quem é o melhor cavaleiro do mundo. Muitos falaram que Lancelot é o melhor, outros defenderam o nome de Gawain. Eu não me envolvi diretamente na discussão, mas a acompanhei. Quando houve um consenso em torno do nome de Lancelot, eu me manifestei.

“Lancelot é um bom cavaleiro, sem dúvida. Mas, se fosse o melhor do mundo, ele se sentaria na Cadeira Perigosa, ao invés de sentar ao lado dela.”

Minhas palavras reavivaram o debate, agora mais acalorado. Os defensores de Lancelot disseram que Lancelot mostra sua humildade por se sentar ao lado da Cadeira, e não nela própria. Alguns outros questionaram a validade da lenda da Cadeira, que diz que quem sentar nela, sem ser o melhor cavaleiro do mundo, sofrerá morte horrível. Um dos presentes provocou gargalhadas quando contou que o gato da rainha Guenevere gosta de ficar deitado na Cadeira Perigosa, sem que nada lhe aconteça.

Finalmente, um cavaleiro disse que o fato de não haver um titular para a Cadeira mostra, justamente, que não há um melhor cavaleiro que Lancelot, hoje.

Eu estava irado. Pouco bebi naquela noite, mas estava embriagado de cólera, e respondi:

“Por Deus! Vou eu mesmo a Camelot, na festa de Pentecostes, e vou me sentar na Cadeira Perigosa, para mostrar que um cavaleiro de verdade não pode ter medo!”

Minhas palavras causaram um silêncio imediato no salão. Todos me olhavam, como que em choque. Vi alguns fazendo o sinal da Cruz, e senti uma onda de frio descendo meu corpo.

O rei Claudas foi o primeiro a falar, dizendo que minhas palavras haviam sido apenas força de expressão, ditas no calor do momento. Mas eu o contestei, e o reafirmo agora. Eu não estava sob influência de bebida, mas inebriado apenas com meu próprio orgulho. Eu havia jurado, chamando o nome de Deus em testemunha, e não voltaria atrás em minha palavra. No dia seguinte, despedi-me de meu rei, com sua permissão, e comecei a minha viagem.

Ao longo destes últimos sete dias, muito refleti sobre os acontecimentos, e sobre os seus motivos. É justo que minha morte não seja em vão; então, escrevo minhas reflexões, para emprestar algum significado a meu ato final.

Estou a serviço do meu rei. Se ele me ordena ir, eu vou; se ele me ordena fazer, eu faço. Sou um de seus cavaleiros, um de seus guerreiros, para servi-lo especialmente em suas guerras. Assim o é com meus irmãos — meus irmãos de linhagem e meus irmãos de armas, mesmo quando servem a outros senhores.

Não sei a conta de quantas guerras combati. Na verdade, posso dizer que foi apenas uma, que começou antes que minha mãe me concebesse, e que vai continuar muito tempo depois deste Pentecostes.

Meus companheiros e eu nos regozijamos com as nossas vitórias; também lamentamos as nossas derrotas, mas sempre consolados em saber que em breve haveríamos de ter nova oportunidade de terçar armas com o inimigo.

Qualquer que fosse ele.

Estávamos a jogar?

Como muitos de meus companheiros, já ganhei e perdi algumas riquezas à mesa de jogo. Mesmo perdendo, eu repousava minha mente no saber que eu voltaria a ter melhor fortuna, e que poucas consequências haveria de meu infortúnio.

Armado, recoberto de ferro, protegido pelos meus companheiros, que risco tinha eu na batalha? Nenhum grande prejuízo se perdesse, como algumas vezes aconteceu; e, na verdade, nenhuma grande fortuna se vencesse, como aconteceu outras vezes.

Sim. Uma luta fácil.

Mas não para os que nos cercam.

Há pouco mais de uma semana, quando Orléans se submeteu ao rei Claudas, era visível o contraste entre a decepção dos cavaleiros e o alívio dos soldados. Aqueles se viam roubados de mais uma partida no jogo das batalhas; mas estes se viam poupados de um sítio ou de uma investida, que cobraria um pesado preço em sangue.

Mas também havia soldados decepcionados, pois a submissão da cidade significava que não haveria saque; não haveria riquezas a pilhar, mulheres a assaltar, cabeças a cortar.

É graças a estes soldados e a estas vítimas que a guerra dos cavaleiros se torna em um jogo. Um jogo do qual já não participo.

Pela primeira vez, sinto algo que não me acometeu sequer em minha primeira batalha: a certeza da morte. Não medo. Não temo porque não há incerteza. Sinto-me apartado já do mundo, do século.

Sinto-me apartado, olhando o mundo à minha volta, e me faço perguntas. Ou ao menos uma pergunta: por quê?

Não tenho respostas a oferecer. Não tenho alternativas a propor. Eu estou preso a minhas palavras, mesmo percebendo agora que manter-me preso a elas é ainda maior demonstração de soberba do que foi proferi-las.

Ao meu redor, não vejo os rostos, mas sinto as sombras dos que foram vitimados pelas minhas armas. Eles não me amaldiçoam, nem me esperam. Também eles estão presos por palavras — as suas como as minhas.

Palavras que criam o nosso mundo, que exaltam virtudes guerreiras, que menosprezam virtudes domésticas. Valores que preferem a morte ao amor.

Eu vivi por estes valores, é justo que eu pereça por eles.

Mas espero que o gato da rainha Guenevere possa voltar a se acomodar na Cadeira Perigosa, depois desta festa de Pentecostes.