Merlin me disse, um dia, que todos nós — ele, eu, minha rainha, meus cavaleiros, toda a glória de Camelot — somos um sonho.

Eu havia acabado de contar a ele um sonho que havia me perturbado naquela noite. Ao invés de interpretar o meu sonho, ele me disse isso. Fiquei furioso. Lembro de ter arregaçado a manga para mostrar o meu braço direito, dizendo a ele que tudo aquilo havia sido conquistado e construído pela força daquele braço. “Como ousa dizer que tudo isso é apenas um sonho?”

Ele deu aquela risadinha insuportável dele, e me respondeu “Apenas um sonho, ó Rei?”

Sinto muita falta das nossas conversas. Sinto falta até mesmo da sua risada. Quando o conheci, eu via arrogância naquela risadinha. Lembro de pensar que ele devia se achar superior a todos os outros, e que o seu era o riso do escárnio.

Aprendi, com o tempo — com muito tempo! —, que o conhecimento dele era muito superior ao de qualquer outra pessoa que eu conheci. Mas também aprendi que isso não o fazia se considerar superior a ninguém; aprendi que o seu deleite era conseguir compartilhar o seu conhecimento; e aprendi que o seu riso tinha dois motivos.

O primeiro era a alegria que ele sentia quando conseguia suscitar, em alguém, o interesse por buscar o conhecimento. Ele me disse, muitas vezes, que ninguém consegue ensinar, a não ser que consiga antes provocar o outro a querer aprender.

Já o segundo… O seu vasto saber mostrava a ele tanto sofrimento, tanto mal, que ele precisava da alegria para cobrar ânimo e continuar. Seu riso era seu escudo.

Acho que isso também o protegia do seu próprio desespero. Como todos os que enxergam mais longe, tenho certeza que ele deve ter pensado, muitas vezes, “como é que não percebem isso?”

Suas provocações e suas risadas acompanharam tudo o que aprendi com ele. Mais que acompanharam: eram parte integrante das lições.

Ele me ensinou muito sobre o poder e o comando. Mas uma lição foi a mais importante. “Arthur, a maneira mais fácil de comandar é dar ordens que os seus vassalos querem receber.” Seguiu-se a risadinha, mas a esta altura eu já estava acostumado com ela. “A verdadeira arte é fazer os seus vassalos quererem receber as ordens que você der.”

Digeri aquilo por alguns segundos, e perguntei “Mas como eu faço isso?”

Eu sei. Eu ainda era jovem, e ainda tinha a dupla arrogância da juventude: a de achar que eu tinha todas as respostas, e a de achar que qualquer problema tem respostas fáceis e prontas. Como todo jovem, eu nem mesmo me dava conta da contradição inerente a esta visão de mundo.

Mas Merlin não se incomodava com isso, e desta vez até mesmo me respondeu.

“Por palavras, pelo exemplo, por ideias, por ideais. Motivando. Inspirando.”

Claro que a resposta dele não me esclareceu. Pelo menos, não naquele momento. Mas eu sabia que não adiantava insistir.

O fato é que, mesmo frequentemente sem saber o que eu estava fazendo, tornei-me uma fonte de inspiração para muitos. Ou coisa parecida. Segundo os trovadores, na guerra contra os onze reis, eu empunhei a espada que eu havia retirado da pedra; ela brilhou com a luz de trinta tochas, e isso motivou os meus cavaleiros a vencerem a batalha.

Considerando que eu mesmo quase deixei a espada cair, com o susto que levei quando ela começou a brilhar, duvido que tenha sido ela a fonte de motivação dos meus cavaleiros. Ela certamente assustou o inimigo, claro. Mas, antes da batalha, eu falei a meus cavaleiros, e lhes disse o que eu esperava deles. Palavras empolgadas, palavras de um comandante, ainda que inexperiente. Penso que isso os ajudou a se inspirarem — mas também sei que ele não estariam ali, para começar, se já não estivessem respondendo a uma inspiração anterior.

Tive que vencer muitas batalhas, mas a maior parte da vida de um rei é trabalho de outra ordem. É impressionante quantas pessoas preferem passar para cima seus problemas, querendo que seus superiores os resolvam — e, claro, que assumam a responsabilidade por isso. Mais uma vez, aprendi com Merlin a identificar quando isso acontecia, e aprendi a nomear pessoas que não fugissem de suas responsabilidades. Meu querido irmão foi absolutamente essencial nisso. Kay nunca se deu bem com Merlin, mas sei que respeitava o velho e que também aprendeu muito com ele.

Com todo este trabalho de governo, eu não podia sair perambulando pelo reino. Mas eu adorava ouvir as histórias dos meus cavaleiros. Isso se tornou um hábito, e de um hábito criou-se uma instituição: em todas as festas de Pentecostes, eu só iniciava minha refeição depois de ouvir pelo menos uma história de feitos maravilhosos.

Minha ideia era apenas me dar a oportunidade de ouvir histórias que me empolgavam — mas isso se tornou uma fonte de inspiração para meus cavaleiros! Sei que vários deles foram em busca de aventuras para poderem ter o que contar na festa de Pentecostes — e todos sabiam o tipo de histórias que me agradava.

Impressionante como isso se ramificou. Lancelot e Guinevere, a seu modo, também se tornaram fontes de inspiração, para cavaleiros e damas. E não só eles! Meu sobrinho querido, Gawain, e sua cortesia tão marcante. O trabalho e a dedicação incansáveis de Kay. A perseverança do meu querido Pellinore. O amor de Tristan. A fé de Galahad. E, sim, mesmo a inveja destruidora de Agravaine, as intrigas de minha irmã Morgause… e mesmo o fel corrosivo de meu filho Mordred.

Eles todos viveram o que eu não podia ver. Eles me levaram em aventuras, eles fizeram os meus trabalhos, eles carregaram os meus pecados. Eles amaram por mim, assim como me amaram, assim como os amei.

Eu nunca vivi a minha vida; sempre vivi a vida deles. Fui, sempre, o rei que eles queriam.

Mas eu também sei que eu sempre quis exatamente esta vida. Meu querido mentor e amigo, como você conseguiu me convencer a querer obedecer a estas ordens?

Hoje, a Távola Redonda está dispersa; tantos cavaleiros mortos, amigos e irmãos em luta fratricida, espalhando o horror da guerra civil. Será um pesadelo?

Sim. É um pesadelo. É um sonho ruim.

Mas é um sonho. Porque Merlin tinha razão. Camelot foi um sonho. Nós somos um sonho. Por sermos um sonho, nós somos o melhor e o pior.

Naquele dia, depois que ele deu a sua risadinha terrível, ele disse “Apenas um sonho, ó Rei?” Eu me surpreendi com a sua ênfase, e ele continuou. “Este mundo já viu muitos reis e rainhas, e ainda vai ver muitos mais. Quase todos se tornam apenas pó, e memórias logo apagadas. Mas um sonho…”

Nesta altura, ele se calou, e foi até a janela. Ficou olhando por ela. Eu me aproximei dele, e vi que ele olhava para os lavradores nos campos cultivados. Estavam deitando sementes ao solo.

Não vi quando ele saiu. Fiquei ali, vendo o trabalho perene dos lavradores, vendo a luz da manhã vencendo as brumas.

Amanhã, encontrarei meu filho no campo de batalha. Não importa quem será o vencedor; no ano que vem, ele vai comer o fruto das sementes que os lavradores estão plantando agora.