Acho que um trovão me acordou. Não assustado, não. Mas acho que eu já estava na fase final do meu sono, porque não senti vontade de voltar a dormir. Fiquei deitado, os olhos fechados, ouvindo os trovões e o barulho da chuva na janela. Felizmente, eu não estava dividindo o quarto, ao contrário dos músicos; assim como o maestro e a solista, eu estava em um quarto só para mim. Ser o gerente tem seus privilégios.
Se eu não estivesse acordado, eu não teria ouvido. Duas batidas na porta, muito de leve… tímidas, quase relutantes.
Levantei e fui até a porta. Quando a abri, a luz do corredor revelou Andréia, a solista que nos acompanhava na turnê. Ela estava usando um roupão cinza, e o segurava com as duas mãos, quase se abraçando.
“Déia? Algum problema?” Fui até ela, estendendo a mão, e me surpreendi quando ela se aproximou e se encostou, colocando a cabeça de lado no meu peito. Abracei-a, sentindo que ela tremia um pouco. Nós nos conhecíamos há muito tempo, mas eu nunca a vira assim.
“Desculpe. A tempestade…” Ela se afastou, e eu abri os braços. “Fiquei assustada. Já vai passar.”
Segurei sua mão. “Mas ainda não passou. Quer que eu lhe faça companhia?” Ela hesitou por meio segundo, mas apenas assentiu com a cabeça, sem palavras. Achei que iríamos para o seu quarto, mas ela passou por mim e entrou no meu quarto, indo sentar na cama. Fechei a porta e acendi a luz do corredorzinho da entrada.
Sentei-me na cadeira, ao lado da cama. Ela ainda tremia um pouco. Peguei o controle e desliguei o ar condicionado. “Déia, deite e se cubra. Eu vou ficar sentado aqui com você.” Ela fez menção de responder algo, mas eu a interrompi com um gesto que o maestro sempre usa para interromper objeções. Isso provocou um leve sorriso, exatamente o que eu queria.
Déia se deitou, virada para mim, e se aconchegou sob a colcha, trazendo as pernas para junto do corpo. “Desculpe. Eu fico com muito medo com tempestades fortes assim. Quando eu era criança, me refugiava na cama dos meus pais. Depois… Atualmente, a Fernanda vem para a minha cama e me abraça.” Fernanda era a filha dela, uma adolescente linda.
Ajoelhei ao lado dela e coloquei meu braço sobre ela. “Não é o abraço de uma filha querida, mas acho que meu abraço pode ajudar.” Dei-lhe um beijo em sua testa. Mesmo com a colcha entre nós, pude sentir seu corpo começar a relaxar.
“Obrigada.”
Depois de alguns minutos, eu me levantei. Achei que ela tinha adormecido, mas seus olhos ainda estavam bem abertos. Sentei-me novamente na cadeira.
Começamos a conversar. Falamos na apresentação da véspera. Déia encerrou o programa com a Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro, acompanhada pela orquestra. O público aplaudiu entusiasmado; mesmo depois que Déia tocou duas peças em bis, acompanhada pela orquestra, continuavam a aplaudir e pedir mais. Só sossegaram quando ela voltou ao piano para tocar a coda da Grande Fantasia. Ao final, tenho certeza que não eram apenas os meus olhos que estavam marejados.
Conversando com ela, lembrei daquele momento, e meus olhos se umedeceram novamente. Os olhos dela brilhavam sob a luz fraca da entrada do quarto.
“Eu não imaginei que uma peça de música emocionasse tanto você. Você sempre parece tão sério…”
“Ah, você já me conhece faz tempo, sabe que eu sou um gozador.”
“Sim. Mas não costuma revelar suas emoções.”
Fiquei em silêncio. A chuva continuava, mas os trovões haviam se afastado. Déia estava mais à vontade; ela havia esticado as pernas, e a ponta de um de seus pés aparecia na beira da cama, fora da colcha.
“Por que a Fantasia o emocionou tanto?”
Pensei um pouco antes de responder, mas mesmo assim não sabia bem o que falar. “Não sei. Eu sempre gostei desta música, da história dela… Acho nosso hino lindo, assim como o nosso país… como você…” Interrompi-me, embaraçado. Déia não reagiu a meu deslize, e mentalmente soltei um suspiro de alívio.
“Você tem esta música em alguma playlist?”
“Tenho.”
“Vamos ouvi-la, então.”
Meu telefone estava sobre a mesa de cabeceira. Peguei-o e coloquei a música a tocar. Ela ouviu os primeiros compassos e perguntou: “Arthur Moreira Lima?”
“Sim. Esta interpretação é muito especial para mim.”
“Por quê?”
“Ele foi colega de turma do meu tio, na Academia Militar.”
“Sério?”
“Sim. Ele sempre participa das reuniões da turma e toca para eles.”
Ficamos ouvindo a música. Pelo meio dela, ela me disse “Você não está com os olhos marejados agora.” Olhei para ela, sem saber o que responder. Ela se afastou para o outro lado da cama, e ergueu a colcha, em um convite. Hesitei por alguns segundos, mas deitei ao seu lado. Ela me cobriu com a colcha. “Deixa eu ver se consigo emocionar você novamente.”
O beijo começou leve, um mero toque. Abracei-a novamente, ainda duvidando do que estava acontecendo. Nossas línguas se encontraram, se reconheceram, se amaram. Minha pele se tornou um instrumento para os seus dedos.
Ela interrompeu o beijo e se levantou, para abrir o roupão e deixá-lo cair, logo a seguir erguendo a camisola para me revelar a beleza de seus seios. Ela se inclinou sobre mim, deixando os seios roçarem minha camiseta, e sorriu. “Vejo que os seus olhos estão úmidos novamente.” Minhas mãos estavam em sua cintura, e ela levou uma delas mais para baixo. “Eu também estou úmida…”