Claro que eu já havia reparado nela. Nos fins de semana em que eu ficava com minha filha, eu a levava para a área de lazer do condomínio. Minha filha ia brincar e pular com os amigos, e eu ficava batendo papo com vizinhos.
Célia tinha um filho com a mesma idade da minha filha, e tornou-se uma de minhas parceiras preferidas de conversa. Há pessoas que, com uma conversa, alegram o seu dia; Célia iluminava os meus.
Passamos meses assim. A conversa variava. Algumas vezes, ensaiei um flerte, mas ela sutilmente mudava o foco. Como eu não queria perder as nossas conversas, nunca pressionei… contentei-me em deixar claro que estava disponível e interessado… muito interessado.
Um dia, nós nos encontramos no saguão do meu prédio. Ela havia ido visitar uma amiga que morava ali, e estava retornando ao seu apartamento, em outro prédio. Aproveitei a oportunidade.
“Ainda é cedo. Quer vir tomar um vinho comigo?”
Ela me olhou nos olhos, um leve sorriso brincando nos seus lábios cheios. “Sinto que você quer me levar para um mau caminho.”
“Impossível. Nenhum caminho seria mau em sua companhia.” Seu sorriso se ampliou um pouco, e eu continuei. “Já as minhas intenções são mesmo terríveis. Quero seduzir você.”
Isto mereceu uma risada gostosa. “Isso não é novidade nenhuma.”
Ri com ela, mas tomei sua mão e beijei-lhe a ponta dos dedos, sem tirar os olhos dela. “Vamos?”
“Vamos.”
Meu coração deu um pulo. Ela não fez menção de tirar sua mão da minha, e nem eu.
Em meu apartamento, demorei a pegar os cálices e a abrir o vinho. Mas não nos incomodamos com a demora… foi por uma boa causa.
Seus beijos eram extraordinários. Ela explorava minha língua, minha boca, meus lábios, e me convidava — me desafiava! — a fazer o mesmo. Quando fiz minha língua vibrar a ponta de sua língua, ela soltou um gritinho abafado, ao mesmo tempo que estremecia toda, e logo me agarrou com mais força.
Descobri seus sabores, aprendi seus pontos macios e seus pontos rijos, explorei suas delícias. Ela pouco falava, quase nem gemia; mas me pediu para falar putarias ao seu ouvido, e não me fiz de rogado.
Depois, fomos tomar um banho. Refrescados, voltamos à sala, rindo ao vermos nossas roupas espalhadas. Descobri que seus mamilos refletiam seus sorrisos e risadas, e ela descobriu o efeito de seu sorriso sobre minha excitação.
Mas preferi ir buscar os cálices e servir-lhe o vinho. Eu queria prolongar aquele momento perdido fora do tempo. Lembrei do solo de saxofone em Last Night of the World e senti meus olhos se marejarem.
Não sei o que ela sentiu, ou adivinhou. Célia pegou minha mão e beijou meus dedos. “Eu estou aqui agora. Vamos viver o momento.”
Não chegamos a tomar muito vinho naquela noite. Fiquei embriagado com ela.
Quando acordei, sentia-me pleno. Não me surpreendi ao descobrir que ela não estava mais em meu apartamento, e nem suas roupas.
Sei que vou revê-la. Não sei quando, como, onde. Minha alma está marcada; sei que a dela também está. Até nosso próximo encontro, sua memória me acaricia e me embala.