Quando acordei, ainda estava escuro. Pela janela, a cidade enviava mais silêncio do que som. A fraca luz de fora me permitia ver o vulto dela à minha frente, e revelava o leve movimento de sua respiração. Ela estava de costas para mim. Em algum momento, devia ter sentido frio, mesmo na noite quente; estava usando uma das minhas camisetas.
Eu ainda estava sob o efeito inebriante da noite anterior; ainda sentia seu toque, seu calor, seus lábios, seu sabor…
… seu cheiro.
Agora eu estava marcado por ele. Sabia que, em anos pela frente, eu o lembraria, e sentiria novamente a mesma mistura de sensações e emoções que me abraçavam e me apertavam naquele momento. Eu queria tomá-la novamente em meus braços, eu queria preservar aquele momento perfeito em um bloco de cristal, eu queria me fundir com ela.
Mas o turbilhão estava apenas em mim. Meus olhos mostravam que ela continuava dormindo, serena. Seu cabelo estava emoldurado pela fronha clara, e dentro do seu escuro leves reflexos o acentuavam.
Não olhei que horas eram. Enquanto eu não olhasse, a noite não se acabaria, o encanto não seria desfeito. O outro mundo podia esperar; ali eu estava no mundo que importava.
Ela deu um leve suspiro, e se virou para o meu lado. Ainda adormecida, se aninhou em meu peito, e eu a acolhi com meu braço livre. No escuro, eu adivinhei o leve sorriso que brincou em seus lábios. Fechei os olhos; eu não precisava deles para vê-la.
Fechei os olhos e mergulhei na noite.