A versão posterior deste conto encontra-se em Gato.
Nunca gostei de atravessar ruas. Eu saio em disparada, para atravessar o mais depressa possível, e não deixar que os monstros barulhentos me peguem.
Fiz isso muitas vezes, de dia e de noite.
Mas hoje não fui rápido o bastante.
Depois de me atingir, o monstro foi embora.
Agora estou no sobre este chão áspero e escuro.
Não consigo me mexer.
Outros monstros passam, rápido, mas não me atingem.
Acho que não pegam a presa de outro.
Vejo que um monstro parou e um humano saiu dele. É uma fêmea.
Ela se aproxima. Não a conheço, mas conheci muitos humanos e percebo que está triste, assustada, preocupada.
Lembro do primeiro toque humano. Eu ainda não havia aberto os olhos.
Fui apanhada em uma mão um pouco fria, e fui acalentado junto ao peito dele.
Ele me colocou de volta com meus irmãos, para mamar.
Aprendi que este gesto se chamava dar colo.
Gostei disso.
O colo dele era quentinho e o carinho era gostoso.
Quando eu era bem pequena, não queria ficar muito tempo no colo.
Havia muitos lugares para explorar.
Muitas coisas para descobrir.
Caçar os meus irmãos e a minha mãe.
Mamar.
Um dia, muita coisa mudou.
Fui colocada dentro de uma caixa e levada para outro lugar.
Minha mãe não estava lá.
Nem meus irmãos.
Ganhei um colo.
Eu ainda não conhecia aquela humana. Fiquei agitado.
Fiquei escondido por algum tempo.
Depois, acabei saindo para explorar.
Ganhei um pouco de leite e comida.
E mais colo.
Sentia falta de minha mãe e de meus irmãos.
Mas colo era gostoso.
Eu ronronava, baixinho, e me aconchegava no colo.
Continuava explorando o mundo.
Mas era bom voltar para o colo.
Às vezes ela se agitava quando eu subia no colo.
Às vezes fazia outras coisas, ao invés de me acarinhar.
Mas eu sempre ronronava.
Eu logo aprendi que não tinha colo quando ela estava com cheiro de cio.
Mas consegui ensiná-la que eu podia ficar no colo quando ela comia…
… porque eu não ia comer a comida dela.
Só investigar o que era.
De vez em quando, eu percebia que ela estava triste.
Nestas horas, eu ronronava mais, e encostava minha cabeça em seu queixo.
Eu sabia que não ia resolver os problemas dela, que eu nem sabia quais eram.
Meu ronronar era a minha maneira de dizer a ela que não estava sozinha.
Outros humanos também me davam colo.
Alguns eram aconchegantes.
Outros eram desajeitados.
Mas o colo dela era o meu colo preferido.
Um dia, vi que a porta tinha ficado aberta.
Fui explorar.
Muita coisa interessante lá fora.
Quando voltei, ela estava aflita.
Ronronei no seu colo e expliquei a ela que eu não ia fugir.
Ela acabou se acostumando a me ver sair e voltar.
Eu gostava de sair, e gostava de voltar.
Sempre havia um colo quando eu voltava.
Lá fora, aprendi a caçar.
E a fugir…
… especialmente dos monstros barulhentos.
Até hoje.
A humana que desceu do monstro está aflita.
Ela faz sinal para outros monstros pararem.
Estou muito fraca. Dói muito para levantar a cabeça.
Ela apoia minha cabeça com a mão. Ela acertou.
Era de um colo que eu precisava agora.