O mais das vezes, queremos regras para outros e não para nós mesmos. Pode ser um simples “não me incomode”. Se eu sou mais poderoso que o outro, isto nem mesmo precisa ser uma regra: pode ser apenas uma ordem, uma aplicação direta e arbitrária do meu poder.

Mas vamos passar a um cenário mais civilizado, e transformar a ordem “não me incomode” em uma regra: “não me incomode e eu não incomodo você”. Ah! Aqui temos dois aspectos importantes.

Primeiro, eu estou me limitando: estou exercendo autocontrole, um elemento essencial do nosso processo civilizador (como Norbert Elias defendia).

Segundo, eu e meu vizinho estamos concordando que a mesma regra vale para ele e para mim — apesar de ele ser um estranho, um outro.

Já retorno a esta questão do “outro”. Mas ainda quero chamar a atenção para um aspecto que eu coloquei propositalmente neste exemplo. A regra que os hipotéticos vizinhos concordam em aplicar é a forma negativa da Regra de Ouro — “não faça ao outro o que não quer que ele faça a você”. Poderia igualmente ter sido escrita sob a forma positiva — “faça ao outro como quer que façam com você”.

Conforme escrevi em Homo regulans, a Regra de Ouro é um elemento fundamental de muitas sociedades. Mas note que, nas duas formas, ela inclui uma referência explícita ao “outro”.

Quem é o “outro”? Ele é alguém diferente. Quando notamos estas diferenças, chamamos a nossa percepção delas de alteridade.

Alteridade serve para mostrar um risco. O outro é uma ameaça: no sentido mais básico, ele oferece competição por recursos — não importa se são frutas de uma árvore, parceiros desejáveis, ou empregos.

Mas nós também somos animais sociais. Nós construímos nossas sociedades mitigando a alteridade de alguns dos “outros”. Ao invés de “eu” e “os outros”, temos agora “nós” e “os outros”.

“Nós” somos os membros de uma sociedade. E o que nos identifica?

As regras. As regras que criamos para esta sociedade, e às quais nos submetemos. Os “outros” não se submetem a elas.

“Nós” sabemos que as frutas perto do riacho são somente nossas. Os “outros” não conhecem esta regra, ou não se importam com ela, e colhem as frutas!