Na segunda metade do século XX, um novo tipo de personagem fictício surgiu. Podia ser um alienígena, ou um robô sentiente. Sua marca era o “pensamento lógico” — desde que isso fosse entendido como “desprovido de emoções”. Tipicamente, o personagem “lógico” demonstra perplexidade com emoções humanas, e frequentemente as condena como sendo “ilógicas”.

O problema com isso é que se baseia em uma dicotomia inteiramente falsa: emoções não são o “oposto” da lógica, não são nada “ilógicas”.

Emoções são uma estratégia evolutiva de muito sucesso para nossa espécie: por exemplo, ter medo de um lugar desconhecido e escuro aumenta a chance de sobrevivência de um indivíduo, ao mesmo tempo que ter amor pelo parceiro e pelos filhos aumenta a chance de sobrevivência dos descendentes. Mesmo partindo da falsa dicotomia, estes são efeitos perfeitamente “lógicos” das emoções.

De forma geral, estes personagens existem em histórias nas quais existem dilemas morais — o tipo de dilema no qual a “emoção” aconselha uma decisão, ao passo que a “lógica” recomenda outra. Frequentemente, são situações tão artificiais e forçadas quanto estes personagens. Mas elas não se restringem ao campo da ficção, e podem ser usadas em estudos sobre Ética.

Vejamos um exemplo de uma destas situações forçadas. O “sujeito do experimento” — ou seja, quem vai tomar a decisão — recebe a informação de que há dois vagões de trem descontrolados, correndo em um declive para um despenhadeiro onde os passageiros serão destruídos. Um dos vagões tem apenas um passageiro, o outro tem dois passageiros. A decisão a tomar é o acionamento de uma chave elétrica: ela pode salvar apenas um dos dois vagões.

Aí está um dilema ético. Qualquer que seja a decisão tomada, o importante é determinar qual foi o seu ponto de partida — ou seja, quais foram os postulados que fundamentaram a decisão.

Pode ser um simples postulado numérico: preferir reduzir a quantidade de vítimas, e acionar a chave para salvar o vagão com dois passageiros. Mas, mesmo nesta forma mais simples do dilema, há espaço para outras decisões. Por exemplo, a recusa em decidir, fundamentada no postulado “não vou tomar a vida de ninguém em minhas mãos”.

Nos dois casos, a ação ou omissão resultante é perfeitamente lógica — porque o postulado está fora do sistema, como em qualquer sistema lógico!

Mas este exemplo é muito simples, e e fácil aumentar sua complexidade. Basta acrescentar características adicionais aos passageiros anônimos e indiferenciados do primeiro experimento. Podemos atribuir-lhes gêneros, idades, parentescos, preferências, históricos, crimes, méritos, capacidades, e por aí vai. Cada nova iteração do experimento força o pobre “sujeito” — ou pobre-diabo — a decidir entre diferentes impossibilidades, e a justificar sua decisão expressando um postulado — ou criando um naquele momento…

O que experimentos assim revelam é que nossa espécie dispõe de um grande conjunto de pressupostos, ou postulados. Eles não podem ser deduzidos, não decorrem de outros: como disseram os autores da Declaração de Independência Americana, os postulados são “verdades autoevidentes”.

Qual será usado em cada momento? Depende! Depende das circunstâncias, dos participantes, do que se pretende, e assim por diante. Para afirmar sua independência, o primeiro postulado afirmado pelos revolucionários americanos era de que todos os homens são criados iguais; mas eles não levaram em conta este postulado em seus debates sobre a escravidão, que o documento final terminou por ignorar — e, portanto, foi mantida.

Parte do poder retórico das regras, e das pessoas legitimadas para dizê-las, não é apenas o que é dito, mas também o que não é dito.

Usar a lógica pode dar muito conforto e segurança, mas não é garantia nenhuma de sucesso. E não, isso não tem nada a ver com as pessoas serem “ilógicas”; de forma geral, as pessoas são muito lógicas em suas atitudes — desde que os seus postulados sejam compreendidos!

As situações das histórias com personagens “lógicos” e destes experimentos em Ética aplicada são forçadas e artificiais… mas, no mundo real, muitas vezes temos que tomar decisões com base em circunstâncias e postulados conflitantes. Algumas delas se tornam tão complexas que precisam ser levadas a juízes e tribunais — o “hospital do Direito”, ao qual me referi anteriormente.

Vamos, então, retornar a este aspecto do “Jogo do Estado”.